'Única saída é fechar tudo, em Niterói, no Rio, na Região Metropolitana', diz sanitarista

Presidente da Associação de Servidores da Saúde, César Macedo diz que a doença circula entre as cidades e que municípios precisam agir juntos


O médico sanitarista César Roberto Braga Macedo


"Tem que fechar tudo, porque você não pode pensar o Rio sem a Região Metropolitana. Não pensa Niterói sem São Gonçalo. Os municípios todos da Região Metropolitana têm uma dinâmica, uma movimentação entre um e outro." A advertência é do médico sanitarista César Roberto Braga Macedo, da Fundação Municipal de Saúde de Niterói e presidente da Associação de Servidores de Saúde do Município. O exemplo ele encontra na própria categoria que representa:


- Veja os profissionais de Saúde, a cartografia dos profissionais. Você vai ver que parte dos médicos que atende em Niterói mora em São Gonçalo. No casos dos profissionais de saúde, enfermeiros e auxiliares, este número é maior ainda. O mesmo profissional que mora em Niterói e São Gonçado também dá plantão no Rio. É assim em todas as áreas e isso aumenta o risco de contaminação. Você tem que conhecer a dinâmica das cidades. Não tem barreira para conter a doença de uma cidade para outra, ela circula na Região Metropolitana. Essa dinâmica, esse fluxo de pessoas, transporta o risco de uma cidade para a outra, então a ação tem que ser coordenada. Tem que fechar tudo - explica.


A convicção do sanitarista na defesa de ações integradas na Saúde não é de hoje, é bem anterior à pandemia. César Macedo entende que a falta de integração dos serviços é um dos maiores problemas no município em particular e no estado, não só no Rio, mas em todo o Brasil. Para ele, a assistência à saúde exige ações integradas e isto não acontece em Niterói.


- Na Saúde, as ações precisam ser integradas. Porque o atendimento não acontece num único lugar. Você chega num posto médico, vai para a emergência de um hospital, recebe atendimento, tratamento, mas muitas vez o problema exige uma ação específica, um atendimento especializado que aquela unidade não oferece. O paciente tem que ser encaminhado a uma unidade de referência, para tratamento especifico. Para a Urologia, radiologia, neurologia, uma unidade coronariana...


O atendimento às doenças do coração, segundo ele, é um bom exemplo, considerando que aparecem entre as doenças que mais matam. Niterói tem poucos recursos para este atendimento e muitas vezes os pacientes são encaminhados para outros municípios, para o Rio, às vezes até Itaboraí.


O médico considera que a falta de coordenação fragiliza o sistema e o próprio profissional de saúde. Embora a saúde se organize em torno do Sistema Unificado de Saúde, o SUS, na prática, os profissionais têm modelos diferentes de trabalho. Ele cita como exemplo a situação de Niterói: a cidade tem várias categorias diferentes de profissionais: 1.600 servidores da Secretaria de Saúde, 900 freelancers, contratados por RPA, 1.800 com contratos temporários, 2.000 vinculados da Organizações Sociais, que controlam clínicas e hospitais. E ainda existem profissionais oriundos do estado do Rio e do Ministério da Saúde. Modelos e regimes de trabalho diferentes, salários diferentes, uma diversidade que dificulta o relacionamento, isola, fragmenta, quando seria desejável integrar, coordenar.


Para ele, a pandemia agravou os problemas existentes na área da saúde. Em muitas cidades isto apareceu fortemente. Mas em Niterói foi de certa forma atenuado pela decisão da Prefeitura de habilitar o Hospital Oceânico, que agregou 100 vagas de UTI para o atendimento de doentes de Covid no município.


Sanitarista, César Macedo está alarmado com o avanço da Covid no Brasil. E com a falta de uma ação coordenada. Como representante dos profissionais de saúde ele destaca o risco que médicos, enfermeiros, auxiliares e toda uma categoria que está na linha de frente corre diariamente no atendimento aos doentes. Ele não tem dados precisos sobre o número de profissionais de Niterói que foram contaminados ou perderam a vida, Acredita que hoje sabem se proteger melhor e correr menos riscos.


Reduzir o risco, ele entende que é isso o que podemos fazer, enquanto não temos os resultados de uma campanha de vacinação mais intensa. É preciso - diz ele - que o governo informe a gravidade da ameaça da Covid, que as pessoas saibam qual é a situação da pandemia, e tomem as medidas para evitar a doença. No momento, o que se tem a fazer é adotar o isolamento.


- Nenhuma cidade fez até agora um lockdown de verdade. As cidades adotam restrições. Mas isso não é isolamento. Mesmo Niterói que adotou medidas de restrição logo no início da pandemia não fez um lockdown, propriamente. Reduziu as atividades, parcialmente, por uma semana. Isso não é suficiente para quebrar a cadeia de contágio da doença. Por isso, nunca saímos de uma situação de risco. Sempre tivemos o virus circulando - explica.


Agora, diante das variantes do vírus e do colapso no atendimento hospitalar em boa parte do Brasil, o médico considera que não há outra saída além do lockdown. O fechamento das atividades na Região Metropolitana do Rio, de forma articulada. Mas por um período suficiente para produzir resultados na queda do contágio.


César tem 70 anos e já se vacinou. Acredita que o profissional de saúde está mais protegido depois da vacinação prioritária. Mas acha que nem sempre o entendimento de quem está na linha de frente é o mais adequado. Defende que todo profissional seja vacinado. O médico de UTI, o médico de consultório, a enfermagem, os auxiliares, fisioterapeutas, até o guarda do hospital que controla a entrada da emergência. "Em emergência de hospital, nunca se sabe o que se encontrará pela frente."