A escola não pode parar

GayLussac de Niterói ajusta programa e oferece aulas on-line para não interromper o aprendizado


Por Silvia Fonseca


Luiza Sassi, diretora-geral do GayLussac. Foto: Divulgação


Com 1.400 alunos, o Instituto GayLussac começou a dar aulas remotas apenas dois dias depois do fechamento da escola de São Francisco por causa da pandemia de Covid-19. Muito mudou na rotina de alunos, professores e pais, mas a escola continua “abrindo” e “fechando” todos os dias no mesmo horário. De famílias de poder aquisitivo mais alto, crianças e jovens do GayLussac têm internet em casa para acompanhar as aulas remotas, com todos nas salas de aulas virtuais no mesmo horário de antes. O instituto treinou professores também em tempo recorde e já prepara o retorno, mesmo sem saber quando isso será possível.


Luiza Sassi, diretora-geral do GayLussac e diretora de Educação no Brasil da rede Cognita Schools, e Renata Pestana, vice-diretora Pedagógica do Instituto, que vai da Educação Infantil ao Ensino Médio, conversaram com o A Seguir: Niterói.

A Seguir: O decreto de isolamento social por causa da Covid-19 em Niterói foi editado no meio de março, quando as aulas tinham começado há pouco tempo. Nem bem chegaram, alunos e professores tiveram de voltar para casa. Como foi isso? Como reagiram?


Luiza Sassi: Soubemos da notícia no dia 13 de março, sexta-feira, e comunicamos, na segunda-feira, que as aulas estavam suspensas. Foi no susto. Mas acredito que fizemos bem.


Renata Pestana: A primeira coisa que pensamos foi que manteríamos as aulas no modelo on-line, sem nem sabermos exatamente como faríamos isso. Na própria sexta-feira, já solicitamos à equipe de tecnologia (TI) que analisasse a melhor forma de ministrarmos as aulas on-line. Na segunda a equipe nos apresentou a opção da plataforma Zoom, treinamos os professores em dois dias e fizemos inúmeros treinamentos on-line. A equipe de TI, de 11 profissionais, deu e até hoje dá assistência e suporte a professores, alunos e pais 24h por dia.


Quanto tempo depois vocês conseguiram conectar e reunir de fato todos os alunos, ou a maioria deles, em salas de aula virtuais?


Luiza Sassi: Isso tudo foi muito rápido. Em 48 horas decidimos como faríamos. Distribuímos mais de 100 laptops e cabos de rede entre os professores. Criamos canais de WhatsApp de suporte para professores e funcionários. E dia 18 de março começamos as aulas com os alunos às 7h20m e já tivemos 90% de presença. Optamos pelo modelo que se define como síncrono (aulas on time). Trata-se de videoconferências ao vivo, on-line. Lembro-me de que fui perguntada pelo Junior, vice-diretor da unidade: “E o horário, qual será?” E respondi. “O mesmo, nada muda”. Escola abrindo e fechando no mesmo horário. Alunos de uniforme, mesmo em casa. Muitos pais funcionários, professores, estavam assustados, sem entender o que estava acontecendo. Fizemos kits de materiais para as crianças da Educação Infantil e nossos ônibus foram entregando em cada casa. Foi um momento tenso, rápido... que quando olho para trás não sei como fizemos escolhas tão acertadas. Hoje sei que foram as melhores escolhas. Mas isso faz parte da vida de um gestor. Tem que decidir, tem que ser rápido, acompanhar e analisar no passo seguinte. A tomada de decisão e a agilidade são importantes nesses momentos. É isso que fizemos. Deu certo. Graças a Deus!


Renata Pestana: Iniciamos as aulas dia 18 de março, mas, apesar de termos mais de 95% dos alunos assistindo às aulas, só começamos a contá-las como dia letivo a partir de 30 de março. Fizemos essa opção para que as famílias pudessem se organizar nesse período.

Com isso, o que mudou no plano de ação pedagógica do GayLussac?


Luiza Sassi: O currículo permaneceu o mesmo. Ajustamos o tempo de desenvolvimento das propostas. Um alargamento do tempo porque se faz necessário ter o feedback das evidências de aprendizagem. Precisamos ter a garantia de que nossos alunos estão aprendendo. Por isso criamos um Plano de Ação que está disponível para toda a comunidade no site do GayLussac, mas posso compartilhar o endereço por aqui.

Renata Pestana: A educação on-line e a circunstância de excepcionalidade indicaram a necessidade de formação e treinamento presencial no início do processo (antes do fechamento da escola) e pós fechamento através de cursos promovidos pela equipe de Tecnologia Educacional e TI. As reuniões pedagógicas de planejamento, formação e psicologia foram mantidas.

Alunos e professores se adaptaram bem?


Luiza Sassi: A escola já investe há anos em tecnologia. Lembro-me que, em 1998, estava numa reunião com ex-diretores que disseram: informática e inglês não serão, a partir de agora, opções curriculares. É obrigação. Desde então, e nisso já se vão 22 anos, a escola vem investindo muito nessa área integrada ao currículo. Portanto, tecnologia, robótica, programação já são realidades vividas pelos professores e, naturalmente, pelos alunos. Nossos alunos são da geração Alpha. Nasceram na era digital. No que se refere aos professores, uns têm mais facilidades outros não. Lembro-me que nesses dois dias iniciais do GayLussac virtual, uma professora que está conosco há mais de 30 anos, e não se identifica tanto com a área tecnológica, me perguntou: “Será que vou conseguir?” Eu respondi: “Tivemos 22 anos para aprender, agora teremos 22 horas”. Eu, de vez em quando, entro na sala de aula dela virtual e está dando um show de domínio e destreza. Essa é a prova viva de que todo mundo pode aprender. Basta se permitir e se colocar na situação. Isso é muito legal! Isso é fascinante para quem trabalha com educação. Todos podem aprender!


Renata Pestana: Em sua grande maioria a adaptação foi excepcional, a gente percebe alunos e professores se reinventando, descobrindo a ferramenta e explorando todas as possibilidades, fazendo trocas de boas práticas. A educação infantil é o maior desafio, porém temos feito aulas on-line diariamente (videoconferências) e aulas de prateleiras, que são inúmeros vídeos de atividades gravados pelos professores da escola, de acordo com a proposta pedagógica, para que o responsável possa lançar mão no momento que for mais oportuno para ele e as crianças.

Vocês estimulam a troca de práticas entre professores? Tem funcionado?


Luiza Sassi: Temos reuniões semanais com os professores e, nesses encontros, temos trocas de boas práticas entre eles. Tenho também reuniões mensais com diretores das escolas-irmãs do GayLussac na Ásia e Europa e eles compartilham todas as boas práticas. Isso nos ajuda, porque alguns deles começaram o isolamento em janeiro. Algumas já estão retomando.

Como o GayLussac acompanha experiências de outros países que estão passando ou já passaram pela pandemia do Covid? Que práticas parecem obter resultados melhores?

Luiza Sassi: Tenho também reuniões mensais com diretores das escolas-irmãs do GayLussac na Ásia e na Europa e eles compartilham todas as boas práticas. Isso nos ajuda, porque alguns deles começaram o isolamento em janeiro. Algumas já estão retomando. As práticas são variadas e a troca é sempre muito interessante porque também aprendo muito sobre as diferentes culturas. O fato é que a maioria das escolas escolheu fazer aulas síncronas e assíncronas, e lá fora os pais estão sendo orientados também a ensinar as tarefas aos filhos. Dessa forma, parte do dia tem aulas ao vivo e parte aulas gravadas e exercícios. Para nós, a experiência de reproduzir o tempo da escola foi muito bem sucedida sobretudo para os alunos a partir dos 10 anos. Para os menores, oferecemos as aulas ao vivo e também produzimos uma série semanal de aulas gravadas.


Como tratam a questão da Covid-19 no ambiente escolar, especialmente com crianças? Deve haver preocupação grande de, além de orientar corretamente, não gerar pânico, ansiedade, medo de morrer...


Luiza Sassi: Sim, é importantíssimo e é uma de nossas obrigações legais determinadas pelo decreto. Não há necessidade de gerar pânico. O caminho é orientar como se fosse uma formação de hábitos. Nós estamos acostumados a formar hábitos, e a criatividade é fundamental. Criamos histórias, fazemos atividades de antídoto contra o corona. Enfim, criamos formas diversas e criativas de ensinar um novo modo de viver. Isso é um desafio, mas nós sabemos como fazer. Temos uma equipe potente e atualizada de vários pedagogos, psicopedagogos e seis psicólogas que estão junto acompanhando e significando esses tempos juntos com os pais, alunos, professores e funcionários.

Renata Pestana: Passando as informações de maneira clara e objetiva até onde eles são capazes de compreender, respeitando a faixa etária. As crianças têm tido muitas perdas, contato com os amigos, a escola, os avós, os passeios, os esportes, por isso estamos fazendo de tudo para que os vínculos com a escola sejam nutridos, a relação com os amigos, professores, etc. Para que passem por essa pandemia da melhor maneira possível. Aliás, quando pensamos nas aulas on-line, em um primeiro momento, a intenção era manter o vínculo com a escola, os professores, os amigos e a aprendizagem, para que não ficassem tão ociosos nesse período de quarentena.

Vocês fazem algum programa contra fake news, contra a disseminação de notícias falsas sobre o vírus?


Luiza Sassi: Isso está dentro do programa de orientação. Somos uma escola que tem em sua base o propósito de pensar criticamente. Desde pequeno nossos alunos são colocados em situações que tenham voz e sejam protagonistas. Portanto a análise da informação de tudo que ensinamos é uma premissa e nisso estão incluídas as notícias falsas sobre o vírus.

Houve desistência ou suspensão de matrículas?


Luiza Sassi: Não temos o sistema de suspensão de matrículas. O que ocorreu foram alguns cancelamentos na Educação Infantil. Já nos Ensinos Fundamental e Médio, nenhuma desistência e nem cancelamento. Mas estamos tendo procura de novos alunos e tivemos matrículas novas durante esse período.


Renata Pestana: O GayLussac criou várias ações no que se refere às questões financeiras, para atenuar os efeitos dessa crise: 1. Não cobrança (suspensão) dos serviços que não estão sendo ofertados (Transporte, CCE, etc.); 2. Descontos nos programas opcionais, por estarem sendo executados em parte (Middle, Middle Extended, Bilíngue Forever); 3. Criação de fluxo de caixa, com o Programa de Postergação do pagamento de abril para dezembro; 4. Descontos por meio do Auxílio Transitório no mês de maio para as famílias que perderam renda e precisam de ajuda; 5. Descontos de 30% para a Educação Infantil desde o mês maio e até o fim da reclusão e a possibilidade de reposição das horas-aulas que não foram dadas em razão do atual cenário, a ser planejada no retorno, de acordo com as possibilidades de calendário. Como mencionado, apesar do fechamento de nossa estrutura física em razão da pandemia, nossa escola nunca ficou parada. Continuamos oferecendo todos os serviços possíveis, mantendo o compromisso de não demitir nenhum colaborador, para assegurar a qualidade do ensino hoje e após o retorno. Por isso, garantimos que as economias desse período são mínimas e que os programas de auxílio oferecidos têm impactos significativos em nossa receita. Ainda assim, cientes do agravamento diário da situação econômica no país e das dificuldades vivenciadas pelas famílias, mantivemos uma escuta aberta e continuamos estudando novas possibilidades de alívio financeiro. Com esse propósito, hoje, nosso Comitê de Crise anunciou as novas medidas (descontos) para os meses de maio e junho.

Qual tem sido o maior aprendizado nesse período de pandemia e isolamento social?


Luiza Sassi: São vários, aprendemos a cada dia. E é muito importante que possamos perceber esses aprendizados. O primeiro dele é o quanto a educação é imprescindível na vida do ser humano. Educação e trabalho são fundamentais em nossas vidas, depois da saúde. Por isso sinto um enorme orgulho de estar tendo essa experiência tão fundamental. O primeiro pensamento que tive nesse período foi o quanto nossos alunos não podiam ficar sem aulas, sem aprender. Eu sabia que aprender seria uma questão de saúde mental. Estar envolvido com os amigos, encontrar os professores e ter sentido com as aulas isso seria muito importante. O outro ponto é o quanto o mundo virtual nunca vai substituir o modelo presencial de ensino que, de certo modo, sempre foi uma pseudo ameaça. Essa experiência é a prova viva que educação é feita com encontro. Com pessoas estando juntas e se sentindo em todas as suas emoções. Isso não significa que não utilizaremos o mundo virtual, e aprendemos muito com essas novas plataformas. Várias ações serão incorporadas às nossas rotinas da escola em nosso retorno.


Renata Pestana: Sem dúvida estamos reinventando o cotidiano, as inúmeras possibilidades que teremos pós pandemia, a repactuação da relação família-escola, o valor da educação na sociedade. O ensino remoto nos deixa um legado que, com certeza, irá enriquecer em muito a prática presencial, mas a escola presencial é insubstituível.

Como preparam a retomada? Como deve ser?


Luiza Sassi: Somos uma escola em que planejamento e organização são aspectos muito importantes. Faz parte de nossa identidade. Nosso plano de retorno já está pronto. São muitas adaptações e investimentos que teremos que realizar para nos adequarmos nesse retorno, garantindo efetiva segurança aos alunos e uma clareza aos pais de que seus filhos estarão com todos os protocolos possíveis para ficarem tranquilos. Nosso plano estará disponível para a comunidade, será compartilhado previamente com todos para que sintam seguros, tenham conhecimento das ações e possam também contribuir. Trata-se de um plano geral que será desdobrado em diferentes políticas e protocolos. O plano se divide em dois níveis - Nível 1 – mudanças de rotina na escola. Nível 2 – ações da escola e da comunidade.


Qual será o novo normal nas escolas, na sua avaliação? E até quando?


Luiza Sassi: O normal será seguir as novas orientações e se adaptar. O ser humano se adapta e aprende com facilidade. É preciso rigor, paciência e continuidade nas ações. Isso tudo feito de modo criativo e gerando bem-estar. Nas palavras pode parecer fácil. Não é isso que quero demonstrar. É um trabalho duro, necessário, sério e que precisa ser feito da melhor maneira possível. Com uma visão positiva porque o que queremos é a saúde e o bem-estar.


Veja também a diferença entre aula on-line e Ensino a Distância (EaD). Clique aqui.

© 2020. A Seguir Niterói. Todos os direitos reservados. Site por Grazy Eckert e João Marcos Latgé.