A explosão nas vendas de bicicletas em Niterói, em tempos de pandemia

Para evitar contaminação nos transportes públicos, consumidores adotam novos hábitos

Por Livia Figueiredo

As queridinhas da vez: em tempos de coronavírus, bicicletas têm repique de vendas / Foto: Reprodução da internet


Não é de se estranhar que as vendas da bicicleta tenham disparado na pandemia. Para muita gente, é uma alternativa viável para fugir de aglomerações, numa cidade pequena e em boa parte plana. O fato é que a venda de bicicletas dobrou este ano e o aumento de circulação de ciclistas nas ruas é um reflexo dessa tendência. Além da economia, e da prática de exercícios, é a forma de evitar a superlotação e o alto risco de contaminação nos transportes públicos.


Segundo levantamento da organização Aliança Bike, em maio e junho deste ano, o consumo de bicicletas dobrou no país em comparação ao mesmo período do ano anterior. De acordo com dados da pesquisa, feita com mais de 40 associados, esse crescimento é fruto de uma mudança impulsionada pelo vírus no estilo de vida da população.


Um relatório publicado sobre o tema pela Universidade Alemã de Esporte confirma o que já se suspeitava: quem tem o hábito de andar de bicicleta regularmente poupa muitas visitas ao médico. O estudo aponta que muitas pessoas que apresentam dores nas costas, excesso de peso ou doenças cardiovasculares poderiam desfrutar de muitos anos de boa saúde caso utilizassem a bicicleta com certa regularidade.

Em Niterói, o aumento do número de bicicletas nas ruas é visível. Além de ser considerado um meio de transporte individual e sustentável, a bicicleta é um dos veículos mais seguros para quem precisa sair de casa durante a pandemia. Segundo o Conselheiro Fiscal da Confederação Brasileira de Ciclismo e proprietário da Amazonas Bike, Cláudio Santos, o crescimento percentual das vendas de bicicleta foi muito significativo em alguns meses, já que as vendas estão diretamente ligadas às medidas de distanciamento social. Ele conta que devido ao fechamento das lojas, o período de março e abril foi de escassez. No entanto, isso se recuperou com a reabertura dos estabelecimentos físicos em maio, conforme as medidas de flexibilização eram impostas.


- A gente achou que era uma demanda reprimida, por conta dos dois meses em que as pessoas ficaram em casa, pois elas tiveram que fazer reparos, ou até mesmo comprar bicicletas. O aumento foi muito maior do que o esperado: dobramos a venda em maio e tivemos um pico de vendas em junho, julho e agosto, quando triplicamos, comparado ao mesmo período do ano passado – explica o proprietário, que ressalta que em setembro as vendas reduziram devido à falta de produto no mercado. “As lojas não tinham mais produtos e as fábricas, desabastecidas de insumos, não conseguiam entregar na mesma proporção que a venda exigia”, complementou.


Ele conta que em outubro as vendas voltaram a aumentar muito por conta do dia das crianças, mas em novembro os índices já apontam para uma queda. Com a proximidade do Natal, Cláudio revela estar otimista e acredita que as vendas irão se estabilizar novamente ou até mesmo ter uma nova alta.


- A gente espera que em dezembro as vendas voltem a subir novamente. Atribuímos essa demanda dos consumidores pela bicicleta muito por conta da segurança em tempos de pandemia. Ela por si só já configura um distanciamento social, sem contar que ajuda na saúde, qualidade da vida e mantém o corpo ativo, especialmente nesse período em que muitas pessoas deixaram de ir às academias – conta.


Caso tivesse que definir um mês de maior vendas, Cláudio diz que seria julho, uma vez que houve uma grande procura da população pelas bicicletas, com as academias fechadas e as restrições que impediam as pessoas de praticarem atividades físicas, como caminhar na praia e malhar. Ele complementa que percebeu uma mudança em relação à faixa etária do consumidor, que costumava ser composto por um público mais jovem. Hoje, seu público alvo é formado, em sua maioria, por pessoas da terceira idade, acima de 50/60 anos, que buscam a bicicleta como uma forma de ganhar mais qualidade de vida. Ele diz que isso pode estar relacionado com a sensação de liberdade, a questão de ir mais longe a cada pedalada, os desafios que são lançados nos grupos de pedal.


De acordo com a assessoria da Garage Bike, houve um aumento significativo nas vendas de bicicletas e acessórios comparados ao mesmo período do ano passado. O percentual é de aproximadamente 35% a 40%. Isso vale a partir de maio, pois com o fechamento do comércio, nos meses de março e abril foram de acúmulo de dívidas devido à falta de receitas. Ainda segundo dados da assessoria, os meses de maior crescimento das vendas foram os de agosto e setembro, quando as medidas restritivas já não estavam tão rígidas, Além disso, outro fator que contribuiu foi o período de primavera, de temperaturas mais amenas, que estimula o passeio ao ar livre.

- Com a instalação da pandemia e todas as mudanças de hábitos que surgiram por iniciativa dos próprios cidadãos ou de orientação do governo, muitos niteroienses passaram a evitar dividir espaço nos transportes públicos e até mesmo os famosos aplicativos de transporte. Assim, eles enxergaram nas bicicletas uma alternativa mais econômica de se deslocar sem se colocarem tão em risco de contaminação. Além desse público, os cidadãos que curtem esportes ao ar livre e os que não podiam frequentar suas academias de ginástica também partiram para o ciclismo como meio de buscar mais qualidade de vida e saúde - destaca.


A professora Angélica Moreira, de 53 anos, conta que sempre utilizou a bicicleta como um meio de transporte, seja na época em que fazia faculdade, para o seu trabalho no São Vicente ou até para levar seu filho na escola. Apesar de algumas mudanças de rota, provocadas pela pandemia da Covid, a professora diz que não perdeu o hábito de andar de bicicleta e acredita que esse seja o meio de locomoção mais seguro atualmente.


- A bicicleta é o meu principal meio de transporte. Como eu tenho trabalhado de modo remoto, eu costumo usar como uma forma de praticar exercício. Acho que é o meio mais seguro de se transportar, sem ter contato com outras pessoas. Eu vou até a casa da minha mãe de Icaraí para a Santa Rosa. Se eu tiver que ir ao Centro de Niterói eu aproveito a ciclovia e estaciono a bicicleta na Amaral Peixoto, onde eu vou às vezes ao médico ou para onde eu vou quando saio para comprar alguma coisa pontual. Também uso como um meio de praticar esportes, fazendo minha pedalada no calçadão, indo até São Francisco ou subindo a Boa Viagem. Uso bastante também para fazer compras no mercado. Sempre que eu tenho que me locomover nos bairros vizinhos eu tenho a bicicleta como meio de transporte, carrego isso em mim desde sempre – conta a professora.


Ela diz que já utilizou o túnel Charitas-Cafubá para ir à praia de Piratininga de bicicleta, mas confessa que não se sentiu muito confortável.


- Não me senti completamente segura. Ainda estou aguardando a conclusão das obras da ciclovia no Cafubá para evitar acidentes no trânsito. Eu cheguei a ir uma vez, mas alguns trechos do percurso não tinham ciclovia – declarou.


A professora de inglês Carolina Aguiar também possuía mais o hábito de andar de bicicleta antes da pandemia para trabalhar, mas confessa que continua utilizando para ir ao mercado, às praias da cidade e eventualmente para casa de amigos.


- Eu continuei usando para os mesmos lugares, mas tenho saído com menos frequência. De modo geral, tenho utilizado mais para ir ao médico ou para fazer compras no mercado. Agora ela está meio enferrujada, precisando de alguns reparos, então tenho evitado usá-la para longas distâncias. Uma coisa que notei é que desde que fizeram a ciclofaixa houve um aumento muito forte de circulação de bicicletas na rua, principalmente no Centro, na praia de Icaraí e até mesmo nas praias da Região Oceânica. Eu mesma passei a me sentir mais segura depois dessas obras – conclui Carolina.