‘A gente vê o recrudescimento dos casos e fica tenso com hospitais lotados', diz anestesista

Atualizado: Fev 27

Um ano de Covid: a batalha dos profissionais da linha de frente e as incertezas sobre as novas variantes do vírus


Por Livia Figueiredo

O anestesista de hospitais da rede particular de Niterói Raphael Bastos / Foto: Acervo


Há um ano, em 25 de fevereiro, o primeiro caso de Covid estava sendo detectado em território nacional. Na época, ainda não se sabia os efeitos a longo prazo que a pandemia teria, quanto menos que deixaria mais 250 mil mortes apenas no Brasil. Não se sabia também dos efeitos psicológicos, econômicos e sociais que se alastrariam por toda a população em escala mundial. O Brasil já soma 10 milhões de casos de Covid. As sequelas são múltiplas e talvez a única certeza que resta é de que apenas a vacina é capaz de conter o vírus.


Com a sobrecarga dos leitos hospitalares e o surgimento de novas variantes, os efeitos, alguns ainda misteriosos, fazem parte da rotina dos profissionais de saúde que atuam na linha de frente. Um ano depois de o primeiro caso ser diagnosticado em São Paulo, o médico anestesista Raphael Bastos, a convite do A Seguir: Niterói, fala das principais sequelas psicológicas da pandemia, a sobrecarga dos leitos dos hospitais e dos riscos das novas variantes.


Raphael é anestesista em hospitais particulares de Niterói e responsável pelo transporte aeromédico do Corpo de Bombeiros do Rio, onde faz o transporte de pacientes infectados do interior para a Região Metropolitana. Ele foi voluntário do estudo da Coronavac, em Niterói, e chegou a tomar o placebo no estudo. Foi chamado para tomar a vacina logo na primeira semana e já tomou as duas doses.


A entrevista na íntegra:


A Seguir: Niterói: Depois de um ano de pandemia, o que mudou na rotina do seu trabalho? Seria possível pontuar momentos de pico e sobrecarga de trabalho?


Raphael Bastos: Nós, médicos, percebemos que o trabalho se dá em salvas. A pandemia tem altos e baixos. A gente vê ondas claras de aumentos e quedas dos casos e é sempre muito preocupante porque quando a gente vê o recrudescimento dos casos fica ainda mais tenso com os hospitais lotados. Com o aumento do transporte de pacientes, a gente já sabe que vai chegar naquele momento crítico que vão faltar leitos para as pessoas. É psicologicamente muito estressante quando começamos a ver o aumento do número de casos.


Do ponto de vista psicológico, quais são as sequelas da pandemia?


As sequelas psicológicas são as que vão ficar da pandemia. Acho que as pessoas que estão vivendo esse momento vão ter que se tratar muito psicologicamente para poder voltar ao que era antes. Máscara, álcool gel, o medo de tocar nas pessoas, tudo isso serão coisas que teremos que superar depois que as vacinas tiverem eficácia comprovada e, na prática, as ondas pararem de acontecer e a pandemia ser abafada. Mas eu diria que a pior sequela da Covid vai ser a psicológica para o mundo e para as pessoas.


Quanto às novas variantes da Covid, quais os maiores riscos?


São várias variantes: a inglesa, a amazônica, a da África do Sul. Cada uma com a sua particularidade. Na Inglaterra, a variante infecta mais. Estudos já dizem que a variante da África do Sul e a da Amazônia são mais virulentas, causam uma doença pior, colaborando para casos com maior gravidade. Acho que as pessoas têm mais medo. O maior risco das variantes é de as vacinas não funcionarem contra elas. Nesse caso, existem algumas teorias que dizem que as vacinas de vírus inativado, ou seja, que possuem o vírus inteiro, são mais eficazes para combater as maiores variantes porque possuem o vírus inteiro, como é o caso da Coronavac, e não partículas, RNA mensageiro, espículas protéicas ou vetores virais, como é o caso de vacinas da Oxford ou da Pfizer. Mas a gente não sabe direito da doença, quanto mais das variantes. No entanto, sabemos que temos que investir nas vacinas e cada vez mais.


O Brasil está na contramão do mundo com mais de mil mortes diárias e sem um planejamento eficaz, além de poucas doses. A que o senhor atribui essa situação atual?


A gente vive uma situação de saúde pública, que sempre existiu, associada a uma pandemia, que é uma coisa nova e que só agravou os problemas. A questão política foi falha no sentido de que não se investiu adequadamente na compra de todas as vacinas disponíveis porque mesmo que a gente consiga vacinar a população toda, nem todos os laboratórios conseguem entregar para o mundo inteiro seis bilhões de vacina, então a gente deveria ter se planejado melhor nessa questão. Isso foi um erro político, estratégico e agora a gente está sofrendo com as consequências, como é o caso de poucas vacinas.


Mas a gente tem que lembrar também que existem poucas vacinas nos países desenvolvidos. Portugal, por exemplo, não tem vacina para a população e ele está na União Europeia. Acaba que é divido o pouco que é produzido para todos eles. Então, a situação de escassez de vacina não é um privilégio nosso. É uma questão mundial. Não tem uma produção adequada, por mais que os laboratórios consigam produzir na sua capacidade máxima. São muitas vacinas. São seis bilhões de doses para atingir a quantidade adequada no mundo. Nós temos nossos problemas, mas eles não ficam restritos aqui. É um problema mundial.


O que irá mudar pós-pandemia em termos sociais? Ainda iremos usar máscaras por muito tempo e se imunizar de forma recorrente?


Eu acredito que muita coisa vai demorar a ser como era antes. A gente vai ter medo de aglomerar, mesmo não tendo mais o risco, teoricamente. Vamos ter medo de aparecer um novo vírus. Agora, cada vez mais, vamos ver nas mídias o anúncio de novas doenças, que antes já aconteciam, mas agora serão extremamente noticiadas e o mundo vai ficar vigilante nessa questão. Acho que vai ter uma vigilância muito maior em termos de epidemias localizadas, que podem se tornar pandemias. A questão da saúde pública é totalmente vigente. O home office veio para ficar. Vamos ter uma diminuição da circulação social. Vai ser uma sequela da pandemia. As pessoas vão ter medo de se aglomerar e as empresas vão investir no home office. Isso vai ser uma boa sequela porque vamos aproveitar a tecnologia, que se desenvolveu muito.


Ainda acho que vai haver por muito tempo o uso de máscara. Não vai acabar este ano, nem no ano que vem. E acho que talvez as pessoas terão que se imunizar de forma recorrente. Não vejo a questão de reinfecção como um problema vigente. Acho que existe muito erro laboratorial que faz suspeitar de reinfecção. Mas uma infecção recorrente é sempre um critério de exclusão do diagnóstico. A gente só pensa depois que exclui todos os outros. Mas a possibilidade da vacina igual a de gripe ser algo recorrente é real e provavelmente vai acontecer.


O que diria para os negacionistas da vacina?


Eu lamento a ignorância. Não tem outra palavra. A gente só vai vencer isso com a vacina. Não há remédio que resolva e vírus só se combate com vacina. Ainda mais pandemia. A gente só pode confiar em um único mecanismo: ciência através da vacina. Simples assim.