A hidroxicloroquina no País das Maravilhas

Atualizado: Mar 24

Depois de defender a prescrição da cloroquina, a Associação Médica Brasileira pede o banimento do medicamento no tratamento da Covid


Por Geraldo Cantarino, de Surrey, Inglaterra

Ilustração: Geraldo Cantarino


Em outubro do ano passado, a minha filha, de 18 anos, pegou Covid. Ela tinha acabado de entrar para a universidade no Centro-Leste da Inglaterra. O novo coronavírus varreu os alojamentos universitários britânicos como uma onda maligna. Naquela altura, a pandemia se alastrava pelo país. Avançava em sua marcha silenciosa, invisível e mortífera que ceifou, até agora, 125 mil vidas no Reino Unido.


A confirmação do diagnóstico da minha filha foi um choque de realidade. Caiu de vez a ficha de que a pandemia era real e não apenas algo que acompanhávamos de longe pela TV.


Naquele momento de ansiedade, recebi de um grande amigo no Brasil palavras de conforto e aparente salvação. O governo brasileiro havia apostado todas as fichas numa alternativa para o enfrentamento da Covid: o “tratamento precoce”. A solução quase milagrosa estava no “Kit Covid”, um coquetel de medicamentos que incluía cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina.


Diante de tamanha convicção, procurei me inteirar sobre o assunto. Precisava saber se havia ocorrido alguma mudança no protocolo de tratamento da Covid e se tal medicação estaria também disponível na Inglaterra, onde moro.


Iniciei, então, uma busca na internet sobre a hidroxicloroquina, que parecia ser o carro-chefe do coquetel. Mal sabia eu que estava “descendo numa toca de coelho”, como dizem os ingleses, em alusão à clássica obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. A expressão é utilizada para se referir a uma situação bizarra, confusa ou sem sentido, da qual é difícil se livrar.


Na última quarta-feira, 10 de março, o assunto veio à tona novamente. Em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender a “cesta de produtos” do “tratamento precoce”, que passou a ser chamado de “tratamento imediato”. “O médico sabe que não existe um medicamento ainda com sua comprovação científica, mas muitos médicos também afirmam que existe tratamento opcional e esse tratamento tem que ser buscado”, disse Bolsonaro.


A ideia de medicamentos como a cloroquina e a hidroxicloroquina não possuírem ainda comprovação científica para o tratamento da Covid é capciosa. Dá a entender que ainda não se conseguiu provar cientificamente a sua eficácia contra o coronavírus, e que isso seria apenas uma questão de tempo. No entanto, o que se observa é justamente o contrário: as investigações com método científico realizadas até agora demonstram que eles não são eficazes no combate ao coronavírus.


Em 24 de março do ano passado, durante o famoso pronunciamento em que falou do “histórico de atleta” e “gripezinha ou resfriadinho”, Bolsonaro fez a seguinte afirmação: “Enquanto estou falando, o mundo busca um tratamento para a doença. O FDA americano e o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, buscam a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento da Covid-19”.


Um mês depois, a FDA, poderosa agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, emitiu um alerta sobre os riscos desses medicamentos. Considerando os relatos de efeitos colaterais, a entidade advertiu que a cloroquina e a hidroxicloroquina só deveriam ser utilizadas por pacientes com Covid no ambiente hospitalar ou em ensaios clínicos, devido aos riscos de problemas cardíacos.


Em 23 de julho, o Hospital Israelita Albert Einstein, em conjunto com outras instituições brasileiras, publicou na prestigiada revista científica The New England Journal of Medicine 4 o resultado do maior estudo nacional, até então, com a hidroxicloroquina. As conclusões foram cristalinas: “A hidroxicloroquina, utilizada ou não em conjunto com o antibiótico azitromicina, não tem qualquer efeito no tratamento de pacientes internados com quadros leves e moderados da Covid-19 e ainda oferece risco de arritmia cardíaca e lesões no fígado”.


Embora sejam produtos licenciados para o tratamento de outras doenças, os estudos, testes e ensaios clínicos realizados com rigor científico comprovam, até agora, que esses medicamentos são, portanto, ineficazes para a Covid. “As evidências disponíveis sobre benefícios do uso de cloroquina ou hidroxicloroquina são insuficientes, a maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício, e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento.” Esse é o posicionamento do Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).


De fato, a OMS anunciou em 17 de junho do ano passado que estava encerrando o segmento dedicado à hidroxicloroquina do Solidariedade, um dos maiores ensaios randomizados com grupo controle do mundo sobre terapias para Covid, coordenado pela própria OMS e envolvendo quase 13 mil pacientes em 500 hospitais de 30 países.


No Brasil, os testes são liderados pela Fiocruz, com a participação de 18 hospitais. O grupo executivo do estudo e seus principais investigadores tomaram a decisão com base em evidências do Solidariedade, do grande ensaio Recovery, coordenado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, e da revisão de outros trabalhos sobre a hidroxicloroquina da Biblioteca Cochrane, uma coleção de bancos de dados de alta qualidade que auxilia na tomada de decisões em saúde. Os resultados mostraram que a hidroxicloroquina não resultava na redução da mortalidade de pacientes hospitalizados com Covid, quando comparada com o tratamento padrão.


Com base nesses e em outros estudos, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou, em 30 de junho, um informe com esclarecimentos sobre os medicamentos para Covid. A mensagem era clara: “A Organização Mundial da Saúde (OMS), a FDA, a Sociedade Americana de Infectologia (IDSA) e o Instituto Nacional de Saúde Norte-Americano (NIH) recentemente recomendaram que não seja usado cloroquina, nem hidroxicloroquina, para pacientes com COVID-19, exceto em pesquisas clínicas, devido à falta de benefício comprovado e potencial de toxicidade.”


Em consenso com a SBI, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia publicaram um artigo que afirmava não haver indicação para o uso de rotina de hidroxicloroquina e cloroquina, entre outros medicamentos, no tratamento da Covid. A mesma posição havia sido defendida pela Sociedade Brasileira de Virologia.


O Conselho Nacional de Saúde (CNS), que tem a missão de fiscalizar, acompanhar e monitorar as políticas públicas de saúde no país, também tem se posicionado, desde o início da pandemia, contrário à indicação desses medicamentos. Em 19 de janeiro deste ano, o CNS pediu ao Ministério da Saúde a revogação de qualquer instrumento (nota técnica, nota informativa, orientações, protocolos ou ofícios) que incentive o uso de medicamentos para Covid-19, sem eficácia e seguranças comprovadas e aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).


Remando contra a maré estavam duas entidades de peso: o Conselho Federal de Medicina (CFM), que emitiu um parecer considerando o uso da cloroquina e hidroxicloroquina em condições excepcionais para o tratamento da Covid; e a Associação Médica Brasileira (AMB), que em nota oficial de 19 de julho do ano passado defendeu a autonomia do médico para prescrever esses medicamentos, se assim julgar pertinente.


No entanto, a AMB mudou o discurso. Em boletim do seu Comitê̂ Extraordinário de Monitoramento Covid-19, publicado nesta terça-feira, 23 de março, a AMB defendeu o banimento desses medicamentos: “Infelizmente, medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de beneficio no tratamento ou prevenção da COVID-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença, sendo que, portanto, a utilização desses fármacos deve ser banida”.


Veja o boletim da AMB: Boletim 02/2021 - Comitê Extraordinário de Monitoramento Covid-19 (CEM COVID_AMB) - AMB

A defesa da hidroxicloroquina para a Covid-19, fica claro, indicava um alinhamento mais político do que científico. E é aí que mora o perigo. Durante uma pandemia, se nos afastarmos da Ciência caímos na lógica do absurdo, assim como na história de Alice, no país das maravilhas.


Geraldo Cantarino é jornalista, nascido em Niterói, formado pela Universidade Federal Fluminense. Tem Mestrado em Documentário para Televisão pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres. Trabalhou no Globo Ciência, da Rede Globo, e na TV Bandeirantes. Na Inglaterra, atuou como fotógrafo e tradutor. É autor de quatro livros, entre eles “A ditadura que o inglês viu”, que reúne documentos sigilosos do arquivo oficial do Reino Unido, em Londres, com a visão britânica dos primeiros 15 anos da ditadura no Brasil. (www.cantarino.com)