A inspiração entre frutas, verduras e legumes: a paixão de uma moradora de Niterói pela feira livre

Atualizado: Set 9

Cria de Niterói, Betina Sanches conta a sua relação com as feiras, o incentivo aos pequenos produtores e a ideia de combinar looks


Por Livia Figueiredo

Betina Sanches / Foto: Arquivo Pessoal


A paixão por feiras de bairro começou quando tinha 21 anos. Morava em São Francisco. Era praticamente religioso ir à feira toda semana e, quando não ia, era como se algo estivesse fora do lugar. Gostava de ver as barracas de frutas, verduras e legumes. A barraca de biscoitos. O pastel com caldo de cana. As cores e o pregão da feira. Aos poucos, começou a descobrir as histórias não contadas que permeavam a vida dos feirantes.


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A combinação dos looks


Betina Sanches tem 28 anos e há sete incorpora na sua rotina a ida às feiras. Com o tempo, ela percebeu que poderia tornar o passeio ainda mais agradável, mais divertido e mais criativo, digamos assim. Foi quando decidiu pensar em combinações de roupa que dialogassem, de alguma forma, com as barraquinhas das feiras. Tudo começou em 2016, quando trabalhava em uma empresa na Tijuca.


- Toda sexta tinha uma feira da rua, a feira da Garibaldi. Foi quando começou todo esse fascínio. Eu ia para a feira todas as sextas, andava por todas as barracas, conhecia todos os feirantes... Me vestir diferente, colorida e criativa sempre foi parte da minha personalidade e forma de expressão. Comecei a tirar foros na feira toda sexta, despretensiosamente, só para “alimentar" o Instagram. Fez tanto sucesso que eu comecei a fazer disso uma rotina e pensava nos meus looks de sexta para ir à feira. Fiquei tão apaixonada que cheguei a comprar alguns itens inspirados nesse tema, como uma bolsa de saco de batata e brincos de frutas... tudo para combinar com o cenário. Eu fiquei tão amiga de alguns feirantes que eles me ajudam a produzir fotos - conta.

Quando o feirante te ajuda a combinar o look / Foto: Arquivo Pessoal

Apesar de acreditar que muitos hábitos da sua vida são "hereditários", esse não se enquadraria nessa categoria. Betina não tem muitas recordações de ir às feiras quando era criança, não é algo que fazia parte da sua rotina. Ela diz que foi algo que construiu sozinha, por pura identificação.


- Eu sou uma pessoa bastante independente, saio sozinha e vou para todo e qualquer tipo de lugar. Na feira normalmente vou com amigos, mas se não aparecer ninguém, eu vou sozinha mesmo. Quando viajo, costumo procurar e frequentar feiras também, por vários cantos do mundo!

Feira inka em Lima / Foto: Arquivo pessoal


Todas as feiras


Betina já foi a feiras em Lima, no Peru, em Bogotá, na Colômbia, no México... Costuma cavar feiras por toda cidade que transita, desde as de bairro, como a da Lopes Trovão, em Icaraí, até uma Babilônia Feira Hype, com estrutura maior, que fomenta novas marcas.


- Eu gosto muito da proposta da Junta Local, que é um coletivo de pequenos produtores, em sua maioria com produtos orgânicos. Atualmente, não perco um domingo na feira da Glória, que para mim ressignificou essa categoria. Antes da pandemia já fui a feiras bem legais, como uma rota de comidinhas que teve no campo de São Bento e uma de pequenas marcas no Reserva Cultural. Hoje sinto que o Rio absorve mais essa cena, oferecendo muita coisa nesse ramo, com diferentes propostas. Com a pandemia, o legal da feira é que, com as regras de não aglomeração, passa a ser uma boa opção de passeio a céu aberto.


No Rio, gosta de ir à feira da Glória, que funciona aos domingos. À Praça XV, de antiguidades, à do Lavradio, ou à da Rua Frei Leandro, no Jardim Botânico, aos sábados. Às sextas, ela costuma ir à da Tijuca. Também gosta de ir à do viaduto de Madureira e até a locais mais inusitados, como o ônibus sacolão.

No ônibus sacolão / Foto: Arquivo pessoal

Dia de pastel na feira / Foto: Arquivo pessoal


Creme no palito na feirinha de Cabo Frio, almoçar pastel na feira. Tudo faz parte da sua memória afetiva. Mas tem uma lembrança que ela guarda em um canto especial:


- Teve um ano em que celebrei meu aniversário em uma feira. Comemorei com todos os feirantes. Ganhei bolo de biscoito e uma melancia. Foi muito divertido!

O dia em que a Betina comemorou o aniversário na feira / Foto: Arquivo Pessoal



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A consciência alimentar

Para além do meio ambiente, de pensar em reduzir o consumo, Betina diz que acredita que existe cada vez mais uma preocupação com o que ingerimos, o que compramos, e onde investimos o nosso dinheiro e como essas pequenas atitudes retornam de alguma forma para a gente. Ela diz que a tendência das feiras, o retorno e todo o hype envolvido podem também ter relação com o fato de os produtos serem mais artesanais e de pequenos produtores serem mais autênticos e mais "puros", seja pelo modo de fazer, pela confecção da embalagem ou pelo processo que envolve toda a concepção de um produto.

Betina e os feirantes / Foto: Arquivo Pessoal


- Eu gosto porque sinto que estou ajudando um pequeno produtor, tenho mais controle e consciência do que estou consumindo. Também acho que tem um charme a mais, por ser mais caseiro. Isso tudo também porque eu já tive uma confeitaria e fiz algumas feiras pelo Rio e por Niterói. Isso me deu uma visão de todos os lados, além de consumidora. Sei o que quem produz passa, sabe? Isso também me fez ter uma visão diferente e valorizar mais o trabalho dos pequenos produtores.