A mulher na política em Niterói: em 84 anos, apenas 13 vereadoras (2% do total)

Câmara Municipal tem somente uma mulher, a vereadora Verônica Lima, do PT, e 20 homens

Por Livia Figueiredo


A vereadora Verônica Lima, do PT, a única vereadora da cidade


No plenário da Câmara Municipal é preciso olhar com atenção para perceber que no meio de todos os homens que representam a cidade, 20, existe uma mulher: Verônica Lima, do PT, a única Vereadora da cidade neste final de mandato. Para ser justo com a cidade, em 2016 Niterói elegeu duas mulheres, a outra era Talíria Petrone, do PSOL, que nas eleições de 2018 se elegeu Deputada Federal e está em Brasília. Para o registro da História, cabe dizer que, desde 1936, entre aproximadamente 835 vereadores, apenas 13 eram mulheres, o que equivale a menos de 2% de representatividade, conforme conta o diretor de Arquivo da Câmara.


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Com pouco reconhecimento, as mulheres lutam cada vez mais para conquistar espaços na sociedade. Na terça feira (3/11), foi celebrado o dia do direito de voto da mulher no Brasil, instituído pelo então presidente Getúlio Vargas. Porém, o voto feminino só se tornou irrestrito e amplo em 1934. Antes, apenas mulheres casadas e com autorização do marido, solteiras com renda própria ou viúvas podiam votar. Apenas em 1982 Niterói elegeu a sua primeira vereadora, Sônia Saturnino Braga, que exigiu banheiros femininos na Câmara e trouxe para a cidade uma Delegacia da Mulher.


Assim como no âmbito da representatividade, o reconhecimento da contribuição das mulheres na sociedade foi tardio. Mas, de uns tempos para cá, há um avanço neste sentido, como é evidenciado pelas homenagens a mulheres pela Câmara. Segundo o diretor de Arquivo da Câmara de Vereadores, Rubens Carrilho, nessa legislatura - de janeiro de 2017 até hoje - foram em torno de 293 homenagens a mulheres, entre moções, indicações e medalhas. De acordo com Carrilho, as medalhas concedidas pela Câmara de Vereadores giram em torno de uma ou duas por legislação.

Rubens Carrilho, diretor de Arquivo da Câmara Municipal, em seu local de trabalho / Foto: Reprodução da internet


Segundo o diretor de Arquivo, quando ele pensa em possíveis homenagens a mulheres da cidade, dois nomes vêm à sua mente: Aída dos Santos e Helena Casimira. A primeira, ex-atleta de atletismo, especialista no salto em altura, que participou dos Jogos Olímpicos de 1964, sendo a única mulher da delegação brasileira. Filha de um pedreiro e uma lavadeira, Aída se tornou uma heroína do atletismo brasileiro, embarcando para Tóquio sem técnico, sem uniforme e sem qualquer estrutura.

-Através do seu espírito esportivo e muita garra, foi concedido o título honorífico de cidadã benemérita de Niterói à brilhante atleta Aída dos Santos, que, com muito vigor, superou todas adversidades da vida e ausência de estrutura esportiva na época. Ela tornou-se um exemplo por todos os seus méritos e sua dedicação no aperfeiçoamento e crescimento como atleta. O autor desse título foi João Geraldo Galindo e o decreto legislativo é de novembro de 2002 – conta Rubens.

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A segunda, Helena Casimira, já falecida, foi viúva do Manuel José Bessa. Ela vivia num sítio onde atualmente é o Hospital Santa Cruz. Rubens conta que ela cedeu a maioria das áreas do centro de Niterói para fazer as instalações. “Muito atuante para época, Helena sempre fazia questão de dar sua opinião, sempre a frente do seu tempo. Do século XIX, eu diria ela foi uma das principais colaboradoras da nossa cidade” – afirma o diretor de arquivo.


Entre outras homenagens, ele destaca o Título de Cidadã Niteroiense dado pelo vereador Donald Guimarães, então presidente da Câmara, à Maurina Dunshee de Abranches, condessa Pereira Carneiro, e a medalha Leila Diniz. Maurina Abranches foi uma empresária brasileira, diretora do Jornal do Brasil de 1953 até o seu falecimento, em 1983. Já a atriz Leila Diniz é reconhecida como uma das principais figuras que combateram a repressão e o machismo no país, deixando sua marca ao quebrar paradigmas no que se refere aos costumes da sociedade brasileira da época. Ela iniciou sua carreira aos 17 anos como atriz no teatro e devido à sua história e ao seu legado, recebeu como homenagem uma medalha com seu nome.

A Prefeitura chegou a anunciar que instalaria uma estátua de Leila Diniz na Boa Viagem, mas o projeto não se concretizou. Segundo o presidente da Fundação de Arte de Niterói (FAN), André Diniz, ainda há possibilidade de a homenagem acontecer, caso seja de interesse da próxima gestão.


-Tínhamos, no passado, pensado em homenagear também a Leila Diniz, mas acabou não acontecendo. Como o governo está no fim, esperamos que na próxima gestão, se for de continuidade, essas homenagens aconteçam – declarou André.

De acordo com Rubens, o fluxo das homenagens funciona da seguinte forma: as pessoas chegam com indicações, munidas do currículo e dos documentos necessários. Essa proposta passa por duas sessões de discussão e depois é aprovada pelo plenário ou não.


-Têm os títulos beneméritos, os niteroienses... Geralmente as sugestões partem dos vereadores, da assessoria deles, que indicam alguma diretora de colégio, uma funcionária, mas ainda há a possibilidade das sugestões oriundas do público – conta o diretor de arquivo.


Rubens é um estudioso e profundo conhecedor da história local. Nascido em Niterói, ele entrou para a Câmara em 1980. Ao longo de 40 anos, passou pelo almoxarifado, atuou como assessor legislativo e foi do setor de compras, até chegar ao arquivo, onde atua há 13 anos.


Técnico em Arquivologia, Rubens é formado em Publicidade e é um grande apaixonado pela História de Niterói e do Brasil. Apesar de nunca ter concluído a graduação, ele chegou a cursar o primeiro período da faculdade de História. Esse interesse pela história local surgiu ao longo dos anos trabalhando na Câmara e não se restringe apenas ao ambiente de trabalho. Em casa, Rubens possui um enorme acervo de livros sobre a História de Niterói. Ele conta que, sempre que possível, vai a sebos e livrarias da cidade em busca de novas histórias.


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