A pandemia e os afetos

Atualizado: Jun 22

Conheça diferentes histórias de relacionamentos impactados pela Covid-19 e a opinião de uma psicóloga sobre como manter relações saudáveis


Por Amanda Ares

Pixabay


"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura". Assim Guimarães Rosa descreveu a importância do mais nobre dos sentimentos para a sanidade do corpo e da mente. Durante o último ano, a pandemia de Covid-19 levou questões sobre saúde física e mental ao topo das preocupações, e testou também os afetos, levando as pessoas a descobrirem novas maneiras de se relacionar, de forma saudável, diante do medo da doença.


A psicóloga Bruna Richter tem atendido muitos casais que tiveram problemas para lidar com a relação durante a pandemia. Segundo ela, as relações mudaram, e o que era visto como estranho e anormal passou a ser a regra para muitos.


A relação a dois foi o porto seguro do biomédico André (25) e da contadora Laura (26) durante a pandemia. Juntos há dois anos, eles têm feito um isolamento rígido, cada um na sua casa e como ambos estão em home-office, as saídas ficaram restritas, apenas a consultas médicas ou eventuais idas ao mercado ou ao escritório. Esse estado de hipervigilância afetou a ansiedade de André, mas Laura deu apoio para atravessar a nova e sufocante rotina:


- Eu tinha muito autocontrole. Ela [a ansiedade] só bateu muito forte em outubro, quando tive uma crise de sinusite, que eu nunca tinha tido e não sabia o que era. Mas Laura e eu conversamos bastante. Não tem um dia que a gente não se fale. Mais no começo e também recentemente, a gente estava assistindo a vários filmes, séries, tudo juntos.


- A gente também marcou de jogar com amigos on-line, ou jogamos pelo celular e chamada de vídeo - completa Laura.


O casal só se viu uma única vez durante todo o ano de pandemia, mas a certeza de querer estar juntos motivou os dois a encararem esse momento como uma adversidade passageira. Eles planejam um novo encontro assim que ela terminar um tratamento dentário, que a tem exposto a um possível contato ao vírus.


- Acho que a gente se viu da ultima vez em agosto, depois da qualificação de mestrado de André. Tem que ter muita disciplina, porque entrar no Instagram e ver todo mundo saindo, em festa, deixa a gente mal… mas temos que pensar na nossa saúde e na saúde do outro - disse Laura.


Foto de Valentin Antonucci no Pexels


Houve também os corajosos - ou distraídos - que começaram a namorar dias antes de tudo começar. É o caso da Lia (32), advogada, e Lucas (28), cientista de dados na Fundação Getúlio Vargas. Eles se conheciam de bailes de zouk, desde 2019, mas se reencontraram pra valer no carnaval de 2020, e já começaram o relacionamento dentro das restrições municipais do Rio e de Niterói:


- Dia 16 foi o último dia que fui "ao trabalho", mas eu não estava acompanhando o que estava acontecendo sobre a pandemia - confessa a advogada.


O namorado passou para o trabalho remoto uma semana antes, mas também não sentia a iminência da situação:


- Eu parei de trabalhar uma semana antes dela, mas mesmo assim parecia muito distante.


Ela diz que não foi um problema para eles, no começo. Mas a mãe dela começou a estranhar:


- Imaginamos que seria por 15 dias… aí foram 15 dias, um mês, 40 dias… Aí minha mãe me chamou a atenção porque estávamos começando a namorar agora, e ela não queria que ele morasse lá -, ri.


Depois de alguns meses se encontrando de tempos em tempos, decidiram que queriam estar juntos, era hora de procurar um lugar só deles. Hoje, dividem um apartamento no Centro de Niterói. O curioso, segundo eles, é que como começaram o relacionamento dentro da pandemia, não sabem como será a vida depois que a vida voltar ao antigo normal:


- Eu acho que o que deu certo foi que começamos a pandemia muito apaixonados, então era aquela vontade de ficar o tempo todo juntos. Mas a gente já conversou muito sobre isso: como será que a gente é fora da pandemia? Não tivemos esse momento de saber como éramos antes disso. Não temos como avaliar.

Kelly Sikkema on Unsplash


A pandemia revelou, também, aspectos negativos que muitas vezes são relevados, aliviados pela rotina agitada do dia a dia ou esperança de que as pessoas mudem.

Foi o que aconteceu na relação de *Olga. Ela namorava havia dois anos com João*.


Segundo ela, a vida dos dois era bem diferente: ela trabalhava para ajudar a família, e pagar as próprias contas; ele não precisava, e não entendia o porquê da namorada se esforçar tanto. A pandemia fez com que ela saísse do apartamento que dividia com amigas no Rio e voltasse para a casa da família, na região serrana, o que afetou a comodidade da relação para João*, que não foi visita-la durante todo o período, a pesar de ter carro.


- Eu tenho avós idosos, e não podia ficar indo pro Rio de ônibus porque eu teria a possibilidade de pegar Covid e não queria ser um risco para eles, já que eu os vejo diariamente. Ele, por ter uma condição muito boa, tem casa de veraneio na cidade, mas falava que não queria vir por preguiça.


Se sentindo deixada de lado e sem apoio, ela decidiu terminar. Mas João não aceitou bem o término, e pela primeira vez durante toda a pandemia, finalmente saiu do Rio para encontrar a (agora ex) namorada, e passou a persegui-la:


- Ele me ligou 145 vezes em um dia! E 165 vezes pra minha mãe. Ligou pros meus amigos, criou um perfil fake pra falar comigo porque não aceitava o término. Tive que abrir um processo de restrição e bloquear ele em tudo.

Frank Vessia on Unsplash


Ela contou, ainda, que era alertada pelos amigos sobre a forma como João a tratava. Ela se diz contente de ter finalmente percebido, e agora, vive com o coração mais leve:


- Demorei dois anos pra ter essa visão. Mas foi ótimo, estou muito orgulhosa de mim!


Foto de Alex Green no Pexels


Felizmente, houve términos mais amenos e acertados, como o de Bia e Léo (nomes fictícios), que já namoravam quatro anos antes da Pandemia começar, e tentaram por alguns meses manter um relacionamento à distância, porém as divergências sobre como se comportar frente às restrições fez com que o casal decidisse seguir caminhos diferentes:


- Tínhamos um relacionamento muito saudável. Na Pandemia, tive crises de ansiedade. Tinha medo de sair, de alguém da minha família pegar. Brigava pra ninguém sair, inclusive com ele e alguns amigos próximos, que não se cuidavam tanto.


A decisão de terminar veio algumas semanas depois, após algumas discussões motivadas por quebras de protocolos:


- No aniversário do pai dele, ele me mandou uma foto dos dois, em que ele estava com a mesma roupa do trabalho, não teve o cuidado de proteger a família, e brigamos. Terminamos em junho, mas continuamos amigos, nos falamos sempre - conclui.

Mika Baumeister no Pixabay


Alguns mais corajosos conseguiram sair de relações e construir novos laços durante 2020, como Clarice*. A jovem psicóloga terminou um relacionamento antigo em março e precisou se mudar e morar sozinha. Passados alguns meses, resolveu fazer algo novo e instalou um aplicativo de encontros, e lá conheceu novas pessoas:


- Não me separei por causa da pandemia, mas por outras razões. Quatro meses depois, baixei um aplicativo e conheci uma pessoa, com quem namorei seis meses.


Como mora no interior de São Paulo, Clarisse e a então namorada tinham que viajar para se encontrar. Em algum momento, a relação sofreu o impacto, e também chegou a um fim. Mas a psicóloga gosta mesmo é de se apaixonar e, atualmente, conseguiu encontrar alguém com a mesma sintonia e que mora mais perto.


A psicóloga Bruna Richter conta que muitos casais tiveram problemas para lidar com a relação durante a pandemia. Segundo ela, a nova realidade foi impositiva, obrigou as pessoas a situações fora de sua área de conforto, como convivência diária de casais que trabalhavam fora, ou distância excessiva, que pode gerar um afastamento se ambos não souberem se reorganizar.


Casais devem encontrar um equilíbrio entre as individualidades e o relacionamento. Foto de Matheus Viana no Pexels


Segundo ela, casais que já tinham relacionamento à distância saíram na vantagem por já estarem habituados a rotinas diferentes e a se encontrarem menos. O que era visto como estranho e anormal passou a ser a regra para muitos. Ela comenta:


- Por isso, normalidade tem que ser questionada tão constantemente. Porque o que pra gente não era normal, passa a ser.


Ela percebe que as pessoas estão inventando novas formas de se relacionar, que existem aqueles que já se relacionavam se maneira virtual, mas também quem se via sempre e agora não conseguem se encontrar. O segredo, é entender que existem três níveis em um relação:


- Por conta da pandemia, casais estão descobrindo a potência que é se relacionar mantendo a individualidade de cada um. Existem três pessoas dentro de uma relação: o um, o outro e o entreponto.

É importante momentos para fazerem algo juntos. Foto de cottonbro no Pexels


Ela aconselha casais que vivem na mesma casa a respeitarem o espaço individual dentro das horas do dia. Entretanto, também é importante organizar momentos em comum, que reforce os laços, e mantenha alguma leveza e equilíbrio entre o casal, mesmo diante de um problema tão grande. O mesmo vale para os que se relacionam a distância.


- Que você tire algum tempo para você. Se possível, que saia um pouco da casa, com segurança, ou tire tempo só pra si. Essa falta de disponibilidade pra si mesmo, faz com que os seus interesses se percam nos interesses do outro.


Bruna comentou sobre a dificuldade de alguns para manter regras de isolamento social, e diz que, no geral, os casais concordam em como se comportar na pandemia: ou ambos se cuidam, ou não se cuidam. E isso pode sim gerar atritos que nada tem a ver com a relação em si.


- Tem coisas sobre as quais a gente consegue ceder, consegue negociar… mas em saúde, é uma área difícil de sustentar. É um momento crítico, e são coisas que não negociáveis.


Sobre os aplicativos de encontros, que foram a saída de muitos, ela comentou que a busca pela conexão virtual é uma alternativa de se manter em contato com alguém, mas em segurança, pois a pesar das medidas se segurança, não é possível saber até que ponto a outra pessoa está se cuidando ou se expondo.


- Vejo que os novos relacionamentos estão sendo pautados por esse medo, essa insegurança.


Às vezes, rompimentos são inevitáveis. A psicóloga explica que a convivência faz com que se descubra coisas no outro que se desconhecia, e que podem ser prejudiciais tanto pra si quanto pra relação, e quando isso acontece, o padrão do relacionamento acaba mudando. São fraquezas, manias, que antes podiam ser dissipados com a rotina e conversados depois, mas o convívio constante motivado pelo isolamento social, não permite esse espaço.


Ela conclui reforçando a importância de se entender a diferença entre o indivíduo e o casal para manter o equilíbrio na relação. O "eu", ou "outro" e o "entre-ponto" são distintos, e respeitar os limites e vontades individuais é fundamental para uma relação saudável.


- Desde crianças, escutamos muito sobre o amor romântico, em que encontramos a nossa cara metade, a tampa da panela, em que viraremos um. Só que essa coisa do um não é saudável, porque é prejudicial pra individualidade. O que é construído em comum é importante, assim como também o que é construído individualmente. Isso é muito importante, porque se não, cria uma dependência, em que só com o outro você consegue fazer algo, ser feliz.


* Os nomes dos entrevistados foram alterados para preservar sua privacidade.