Moradores de comunidades de Niterói relatam dificuldades no combate à pandemia

Atualizado: Jan 21

Queda de renda familiar e insegurança alimentar são algumas da preocupações de quem vive nos endereços menos nobres da cidade

Por Amanda Ares

Walkíria Nictheroy em sua campanha corpo a corpo no Palácio, onde mora. "As vezes me sinto estranha por usar máscara". (Foto: Rebeca Belchior)


A vereadora Walkíria Nictheroy (PCdoB) mora com a afilhada, a artista plástica Carla Santana (23), no morro do Palácio, no Ingá. Ela se mudou de São Gonçalo para a comunidade durante o curso de licenciatura na UFF, há sete anos, e fez dali sua casa. Apesar da identificação com o lugar, durante a pandemia do novo coronavírus, sua vida se tornou muito diferente da de seus vizinhos e amigos. “Foi um processo difícil pra mim, porque eu tava trancada em casa, e via a igreja fazendo culto, o pagode da galera, gente descendo sem máscara”, conta.


Walkíria é professora de ensino fundamental, e seu trabalho se adaptou ao ensino remoto apesar das dificuldades com o modelo. Infelizmente, para muitas crianças do Palácio, nunca foi possível acompanhar o ano letivo via internet. Na última semana, a vereadora participou da reunião da comissão de educação, que debateu a volta às aulas na cidade, e apontou a discrepância da vida escolar dos alunos da rede pública, especialmente na favela: “Na favela não existe isolamento social. A criança não vai pra escola, mas a mãe dela vai ao baile no fim de semana”. Ela pontuou, ainda, que a rotina escolar previne a exposição de meninos e meninas favelados a riscos e situações degradantes, como o de serem recrutados pelo tráfico. “As crianças ficaram ociosas e sem ter quem olhe”.


A percepção da pandemia na favela também é diferente da que se tem "no asfalto". O monitoramento feito pela Prefeitura divide os casos por bairros, não por microrregiões. Como a maioria dos infectados pela Covid-19 são assintomáticos ou têm um quadro semelhante ao da gripe, a rotina atribulada de quem não pode se isolar acaba causando uma baixa de diagnósticos, o que influencia na falsa sensação de segurança nessa área. “Quando saiu a amostragem do contágio de Niterói, quase não tinha casos no Palácio. Na primeira semana de lockdown, teve um pagode na minha rua.” Walkíria diz que é uma das poucas a usarem máscara e fazer isolamento, e que isso a isola das pessoas na própria favela onde mora. “Com esse clima de vida normal, é até difícil falar do que mudou. Às vezes, eu me sinto meio boba por andar de máscara na rua”, e brinca: “Já me chamaram de colonizada”.


Uma consequência comum da pandemia para os niteroienses moradores de periferia é a queda brusca na renda familiar, e a insegurança alimentar. Os programas municipais e federal de auxílio remediaram a situação momentaneamente, mas o desemprego em alta e a demora na vacinação podem deixar um legado cruel: “Quando acabar o auxílio emergencial, a gente vai ter um pico de miséria, por que é isso que tem garantido a subsistência das pessoas”, alerta a vereadora.


É com o auxílio do programa Renda Básica Temporária que a doceira Daiane Silva, de 30 anos, mantém a dispensa cheia, na casa alugada no Preventório (Charitas) onde moram ela, o esposo e os filhos, Gabriel (2) e Samuel (6). A única renda da família de quatro pessoas é a do marido, que é porteiro, que só não foi demitido por ser saudável: “A empresa em que ele trabalha acabou dispensando os funcionários do grupo de risco”. Porém, a inflação no preço dos alimentos faz com que o salário e o auxílio alimentação não rendam. “Você chega no mercado, o arroz tá 20 (reais), o óleo tá 10 (reais)... acabou, né? Então o Alelo (cartão do programa de Renda Básica da Prefeitura) dá pra complementar bem, comprar uma carne, os remédios deles, o remédio da alergia do Samuel…”.


A autônoma Daiane Silva criou uma marca de doces para festas vendia em lojas no centro e zona sul de Niterói. O trabalho decaiu muito com a pandemia, e hoje ela depende do benefício renda básica. Foto: arquivo pessoal


O filho mais velho do casal tem bronquite e está desde março estudando no modelo remoto. Por causa do problema respiratório do menino, a mãe não o deixa brincar na rua. Para ajudar a ter uma rotina saudável de estudos, a mãe contratou uma explicadora. “Eu, como mãe, ensino em casa, vou estimulando ele, mas ele realmente precisa de um acompanhamento a mais, por causa da idade dele. Ele fica entediado.” O trabalho têm dado resultado: “ele desenvolveu bem. Ele já faz o S, reconhece algumas letras que ele não reconhecia antes.” Mas Daiane recebia a Renda Básica Emergencial, do governo federal, cuja última parcela foi paga em dezembro. Prevendo o fim do subsídio, ela investiu na divulgação da sua marca de doces de festa, a Dai Silva Doces (@daaiisilvadoces). “Agora que cortou, eu tenho que voltar a focar nas encomendas pra conseguir manter”.


Samuel (6) e Gabriel (2), de máscara em uma das poucas ocasiões em que saíram de casa. O filho mais velho de Daiane faz parte do grupo de risco da doença. Foto: arquivo pessoal

Na Zona Norte da Cidade, o casal de artistas Edvan Miranda (29) e Thallita Flor (25) fazem malabarismo com o dinheiro que vêm chegando de forma irregular. Edvan é professor de elétrica no curso técnico do projeto Grael, e vem trabalhando em regime remoto. Porém, problemas antigos no morro tornam a rotina insalubre: “No início da pandemia nós ficamos duas, três semanas sem cair água… ou caía pouquinha, sem força”. O carro da Prefeitura passa toda semana avisando da importância de lavar as mãos, roupas e alimentos. Entretanto, esses cuidados simples não são possíveis para as famílias na localidade: “Como você vai cuidar da sua saúde por causa de um vírus se você não tem água pras suas atividades normais?”, questiona.


As outras fontes de renda do casal foram reduzidas a zero durante muitos meses. Thallita é chef e dona da marca Banana Buffet, e desde março não faz eventos. A saída foi usar o tempo ocioso para colocar sua experiência no papel, que resultou em dois e-books sobre culinária vegana, à venda na página da ativista (@bananabuffet, no instagram). O casal também foi prejudicado pela paralisação abrupta da economia criativa. Juntos, eles são Tita e Forrobodó, da Cia Mala de Mão de Arte do Palhaço, que também não trabalham nas ruas da cidade desde março. E as dívidas foram se acumulando.


Só após muitos meses de insegurança, conseguiram recursos de alguns editais da área da Cultura, como o Prêmio Éricka Ferreira, municipal, e de um de um banco privado, além de alguns cachês de trabalhos para a Secretaria de Cultura de Niterói, que esperavam ser depositados. Assim, conseguiram manter o imóvel do buffet mesmo com dificuldade. “A Lei Aldir Blanc nos ajudou a colocar as contas em ordem, a pagar dívidas como luz, cartão… Porque a gente mesmo não conseguiu produzir nada de forma autônoma, nem na cultura, nem evento, buffet nem nada.”


Divulgação do Festival de Teatro Infantil e Comunitário online, umas das alternativas para se manter trabalhando


Outro problema, segundo o morador, foi a negligência da Prefeitura quanto a região em específico. Para as cerca de 15 famílias moradoras da área menos povoada da Teixeira, os kits de limpeza e a desinfecção com quaternário de amônia nunca chegaram. “A rua debaixo recebeu [o kit], e pedi minha prima pra buscar pra mim”. Edvan atribui os problemas à uma falta de atenção que já vem de décadas: “A Prefeitura fez um planejamento, mas problemas históricos não vão ser resolvidos durante uma crise. Esse problema de falta d’água existe desde que eu nasci.”, desabafa.


A esperança de muitos é mesmo a vacina, encarada como a única forma de enfrentar a crise financeira que promete se agravar ao fim dos auxílios de emergência. Daniane, do Preventório, se diz ansiosa: “Vem, vacina, que eu tô pronta!”