A situação está ficando crítica nos hospitais de Niterói, diz médica

A população precisa se conscientizar dos riscos desta doença, que é nova e pode levar a óbito, diz sobre a Covid


Por Livia Figueiredo

Crescentes casos de pessoas contaminadas com Covid levam à superlotação de leitos hospitalares / Foto: Reprodução da internet


“A população precisa se conscientizar que é uma nova forma de convívio. Isso não é para sempre. Mas, para que a gente possa viver em contato com aqueles que amamos, a gente precisa respeitar as regras.” Andréa Jorge é anestesista, médica do Hospital Antônio Pedro e de algumas unidades da rede privada em Niterói. Com os índices cada vez mais altos de ocupação dos leitos hospitalares dedicados ao tratamento da Covid, ela reforça que a desinformação e o estímulo à negação da doença são alguns dos principais fatores que contribuem para o crescimento do número de pacientes infectados. Com a situação cada vez mais crítica e os hospitais superlotados, a médica faz um pedido para que a população reflita e se conscientize sobre o quão grave é a situação que estamos vivendo.


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Em entrevista exclusiva ao A Seguir: Niterói, Andréa fala sobre os principais cuidados que as pessoas devem adotar neste momento, sobre a sua rotina nos hospitais, e as recorrentes queixas que escuta dos pacientes:


Como você enxerga a situação dos hospitais e o crescente índice da ocupação hospitalar em Niterói?


-A situação está começando a ficar crítica em termos de ofertas de leitos em hospitais públicos e privados. O que está acontecendo é que os hospitais estão começando a receber um maior número de pacientes com Covid, tanto de pacientes que precisam ficar internados em enfermarias, como aqueles que precisam ficar em UTI. O que eu presencio no Hospital Universitário Antônio Pedro é que, até alguns meses atrás, o CTI que tinha 14 leitos dedicados a pacientes com Covid, estava com dois internados e o restante dos leitos era destinado a outros tipos de doenças. Agora, a relação se inverteu. O CTI Covid tem 10 leitos ocupados e o CTI geral tem 4 a 5 leitos para as demais doenças. O número de pacientes internados por Covid aumentou tanto nos hospitais públicos quanto nos privados. Hospital Icaraí, CHN, Niterói D’or são exemplos.


A gente tem um protocolo de testagem nos pacientes que são submetidos às cirurgias eletivas e o índice de PCR positivo, mesmo quando assintomáticos, é muito grande. Essa semana começou um plano de contingenciamento no Hospital Antônio Pedro. São realizadas somente cirurgias de alta complexidade, como cardiovascular, torácica e as oncológicas, principalmente câncer de mama. As cirurgias de urgência são realizadas quando necessário, assim como os procedimentos obstétricos. Isso porque está havendo uma necessidade de oferta de leitos livres para absorver esse crescente número de pacientes com Covid.


Quais são os principais cuidados que as pessoas devem ter nesse momento?


-O principal cuidado que as pessoas devem ter nesse momento de aumento de número de casos é manter as recomendações que desde o início da pandemia têm sido feitas. Primeiro, a população precisa se conscientizar que existe uma doença que, na maioria das vezes, não é fatal, mas num grupo de pacientes ela pode levar à morte. Essa doença existe e não se trata apenas de uma “gripezinha”. O fato de você estar contaminado e não estar apresentando nenhum sintoma não significa necessariamente que o outro que você pode contaminar vá evoluir da mesma forma. Ele pode evoluir e chegar ao óbito.


As recomendações seguem as mesmas: manter certo distanciamento, utilizar a máscara, evitar ambientes cheios, festas, enfim, tudo o que está sendo falado na mídia. É o que precisa ser feito. Só assim os hospitais vão ter condições de absorver aqueles pacientes que vão precisar de internação. Porque, na verdade, vai demorar até que a gente tenha a vacina. Ela não vai chegar de forma rápida. Ainda vamos viver com a presença do vírus entre nós durante algum tempo. Então, para que possamos viver em contato com aqueles que amamos, precisamos respeitar as regras.


A que você atribui o aumento dos casos de Covid? Acha que tem relação com a flexibilização?


-Na minha opinião, a flexibilização não foi a responsável pelo aumento de número de casos. O aumento de número de casos de Covid está acontecendo pela dificuldade de conscientização da população em relação à alta capacidade de contágio dessa doença. Isso também tem relação com a estratégia governamental para controlar a pandemia, o que estimula uma parte da população a negligenciá-la. Nos feriados as pessoas viajaram, durante as eleições houve muita aglomeração. As pessoas estão indo à praia sem usar máscaras, além de se reunirem para festas... O aumento dos casos não decorreu da flexibilização e, sim, de uma ausência de política direcionada à conscientização da população.


Como é sua rotina de trabalho?


-Passo o dia inteiro usando a máscara N95. Eu trabalho como anestesista no centro cirúrgico e algumas vezes, no Hospital Universitário Antônio Pedro, sou chamada para realizar intubação dos pacientes com Covid no estágio mais grave da doença, em que eles precisam ser acoplados a um ventilador para manter a oxigenação corporal. A minha especialidade é a que tem maior expertise nessa técnica de intubação. Nós fomos muito solicitados no primeiro período da doença, no seu pico, e agora voltamos a ser solicitados por conta do aumento da demanda.


Eu ainda faço alguns procedimentos cirúrgicos eletivos, tanto na clínica privada, quanto no hospital público, seguindo o protocolo de recomendação do Ministério da Saúde e do próprio Hospital Antônio Pedro. Cirurgias em que o paciente não foi testado, ou quando eu vou intubar o paciente, uso o EPI completo, que é o equipamento de proteção individual. Além disso, utilizo o face shield, duas máscaras, duas luvas, capote impermeável... Tomo todos os cuidados com a técnica de intubação. Na hora em que eu vou fazer refeições, sento isolada dos meus outros colegas, faço a limpeza do local em que eu vou me alimentar e lavo diversas vezes as minhas mãos, uso álcool 70 o dia inteiro. Quando eu chego à minha casa, meu rosto está sempre marcado, por conta da máscara.


Quais são as principais queixas que você costuma ouvir de pacientes em relação ao enfrentamento da doença e no momento em que eles descobrem que foram contaminados?


-A principal queixa que eu ouço dos pacientes é a dificuldade do atendimento público, muitas vezes de acesso a algum local em que eles possam ter a orientação do que fazer; dificuldade na realização dos exames de testagem, principalmente ao RT-PCR; dificuldade para internação quando necessário, principalmente em unidades de terapia intensiva. Eu percebo a população perdida, sem orientação em todos os sentidos, seja sobre a gravidade do momento que estamos passando, seja com relação à necessidade de seguir as recomendações de segurança no dia a dia ou até mesmo em relação a qual local se deve procurar ajuda quando começar a sentir os sintomas ou se tiver contato com alguém contaminado. Principalmente a população mais vulnerável. Essa é a que mais sofre nesse período de pandemia.


Vi pacientes com muita falta de ar por conta dessa doença. Estamos falando de uma doença nova, em que os sintomas se misturam muito, então fica difícil você conseguir um diagnóstico preciso. Qualquer sintoma gripal pode ser Covid. As pessoas precisam ter isso em mente. Um estado gripal, principalmente agora que os casos de contaminação estão aumentando, pode ser Covid. Precisa ser investigado. A pessoa precisa ser afastada do convívio social. Espero que os políticos e a nossa Secretaria Municipal de Saúde se empenhem, como fizeram no início, para evitar uma disseminação maior dos casos, como já está acontecendo.

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