Sem desfiles para bilhar, Diretor da Viradouro vê samba como lição de vida

Valci Pelé conta a sua trajetória nas avenidas, sua experiência como instrutor de coreografia e fala da lei que ajudou a criar


Por Livia Figueiredo

Valci Pelé no desfile das Campeãs, Carnaval 2020/ Foto: Divulgação


Estimulado pela família desde cedo, que fazia do carnaval um grande encontro para assistir aos desfiles das escolas de samba na TV, Valci Pelé não podia imaginar que um dia faria parte desse enredo. E muito menos que esse enredo se tornaria seu ofício. O carnaval sempre foi presente na sua vida, desde a sua infância, com os tradicionais blocos de rua. Começou como folião, mas seu talento já mirava para o que o seu destino o reservava: ser instrutor de coreografia.


Era questão de tempo. No carnaval de 1987, Valci desfilou pela primeira vez como passista. Em seguida virou coordenador de alas na Caprichosos de Pilares e na Portela, onde ficou por mais de 20 anos, também sendo bailarino da comissão. Valci começou trabalhando na produção (barracão) e depois atuou diretamente no espetáculo, através da Arte da Dança do Samba. Ele foi descoberto pela sua madrinha Nega Pelé, exímia passista da Portela, que percebeu um talento genuíno nele. Não demorou muito para se tornar professor da Arte da Dança do Samba, função que exerce desde 1999. Valci foi convidado para ser coordenador da Ala de Passistas na Portela, cargo que exerce hoje na Viradouro, onde atua como Diretor Artístico do Espetáculo ViraShow. Valci está na escola desde 2017. É também coreógrafo da comissão de frente da Unidos da Ponte.


- Eu não tinha ideia de que iria fazer da Arte da Dança do Samba um ofício. Essa decisão não foi do dia para a noite. Foi um processo que se deu na medida em que meu comprometimento com o Carnaval e suas implicações cresciam. Ao longo da minha trajetória, fundei o Instituto de Cultura e Cidadania Primeiro Passo, que insere a cultura do samba e do Carnaval no cotidiano de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Cheguei a conclusão de que devia largar tudo e viver da Arte, pela Arte e com a Arte do Samba – confessa.


Tudo o que fez até hoje na área de coreografia é motivo de orgulho. Porém, se tivesse que citar uma coreografia memorável, destacaria uma da Portela, em uma ala com 100 rapazes representando Seu Zé Pelintra. Não eram bailarinos e alguns não tinham sequer noção de dança, mas o resultado foi excelente. Na Viradouro, Valci realizou sonhos, pode se projetar e se reconhecer como profissional do samba.


- Me encontrei nesta nova função de trabalhar. Tive essa oportunidade e foi um desafio, que me fez perceber um potencial adormecido em mim. O ViraShow foi um trabalho feito com marcações, vários quadros coreografados, cenário, elementos cenográficos, figurinos e que trouxe aprendizado e desejo de produzir ainda mais, como o concurso "Que Beleza", que teve como tema de abertura a Carmem Miranda. Destaco quatro quadros que pude fazer parte: a coreografia do Alabé de Jerusalém, O Circo (Crianças), as Mulatas e os Ciganos – conta.


E acrescenta: Espero que as pessoas possam acompanhar o próximo trabalho que será feito na Viradouro e minha estreia na Sapucaí como coreógrafo da Comissão de Frente da Unidos da Ponte.

Como professor, Valci define sua relação como de paternidade. Ao ministrar aulas para crianças, ele destaca que uma das partes mais prazerosas é acompanhar o seu desenvolvimento na dança e o amadurecimento pessoal, sentimento que ele classifica como transformador. Valci já escreveu dois livros: “Passo dos Sonhos” e “Manual de Dança do Samba”, ambos abordam a temática do Carnaval.


No entanto, apenas o primeiro foi lançado. O livro é destinado ao público infantil, onde Valci se apresenta como um personagem também infantil – o Cizinho – e comunica às crianças um pouco de sua arte e do fascínio exercido pela dança do samba no pé, com ilustrações especialmente criadas pelo artista Paulo Vermelho. A obra é um convite para um passeio pelos pontos turísticos históricos e geográficos da cidade do Rio de Janeiro, que se apresentam como pinturas para estimular o conhecimento à cultura do samba e sua história.


- O livro é um sentimento de paternidade, porém a diferença é que minha atuação é fundamental desde a sua gestação até o nascimento. É como se fosse um filho para o mundo. Me faz conhecer outras realidades e a força da representatividade do personagem que criei. O livro “Passo dos Sonhos” mexeu com vários sentimentos e, dos quais eu relato, destaco a capacidade que tenho para escrever e outros também podem fazer isso. Logo virá outro filho: o Manual da Dança do Samba – declara.


Como se não bastasse, Valci também ajudou na elaboração de uma lei, O "Dia do Passista'", Lei Municipal n. 4462, promulgada no dia 10 de Janeiro de 2007. A ideia surgiu do momento de valorizar, enaltecer e legitimar o segmento Passista. A Lei é Municipal, porém Passistas de outros estados incorporaram o movimento de resistência e celebração ao dia 19 de janeiro, em que é celebrado o Dia do Passista. Tal trâmite se iniciou com a sua articulação com o gabinete do então Vereador Marcelino D' Almeida, no ano de 2006.


Pela primeira vez, Valci não tem nada planejado para o Carnaval. Ele diz que segue o curso do distanciamento social e que ficará em casa assistindo os desfiles de edições passadas na televisão.

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