Alunos do Pedro II de Niterói se destacam em concursos e provas internacionais

Atualizado: Fev 24

Além de Luã, que ganhou bolsa em Cambridge e é aluno do Pedro II no Barreto, colégio público tem outras conquistas


Por Livia Figueiredo

A unidade do Colégio Pedro II no Barreto, em Niterói / Foto: Divulgação


Os estudantes aprovados para cursos em Cambridge e em outras universidades no exterior refletem a bagagem de um vasto repertório cultural do Colégio Pedro II de Niterói. As vivências que a experiência de um curso internacional proporcionam são múltiplas. É o caso do concurso de redação do Programa de Educação Imersiva (Immerse Education Program), que mudou o rumo dos estudantes do Colégio Pedro II o Barreto, em Niterói. É o momento de colher frutos e agarrar a oportunidade.


A aprovação no concurso conferiu aos estudantes bolsas de descontos e a oportunidade de estudar na renomada Universidade da Inglaterra em julho deste ano. Uma das estudantes aprovadas, Louise Willner, de 17 anos, ficou surpresa com o engajamento das pessoas com a campanha de financiamento coletivo. A estudante do 3° ano conseguiu bater a meta de 20 mil, custo necessário para viabilizar sua viagem. Ela diz que no final do curso será feita uma simulação diplomática, o que é muito bom para a sua área, já que planeja cursar Relações Internacionais.


Leia também: Estudantes do Colégio Pedro II são aprovados na Universidade de Cambridge


Outro caso recente é o estudante Luã Nascimento, que foi aprovado para o curso de verão em Engenharia na Inglaterra. Morador do Barreto, o jovem já conseguiu arrecadar quase 70% do valor da vaquinha para poder viajar. Ele é bolsista do Programa de Vocação Científica (PROVOC) do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). O desejo de estudar na Universidade de Cambridge vem desde quando tinha oito anos de idade e é justamente desde essa época que ele vem demonstrando gosto pelos estudos.

Leia também: Vaquinha para jovem de Niterói estudar em Cambridge já arrecadou quase 70% do valor


Já a estudante Catharine Herrera candidatou-se a 11 universidades nos Estados Unidos em 2018, sendo aceita em três delas, com bolsa integral. Ela diz que nunca imaginou ter acesso a uma educação de tão alta qualidade e repleta de oportunidades acadêmicas significativas. Ela diz que pretende se profundar na área de educação pública e desenvolver estudos sobre a área no Brasil.


- No Pedro II conheci a importância da educação pública. Estive em contato com jovens de diversas realidades socioeconômicas, que não teriam tido acesso a um ensino de qualidade se não tivessem passado por lá. E é justamente por reconhecer como privilégio a oportunidade de ter estudado em uma instituição como o Pedro II que quero trabalhar na perspectiva de ampliar essa realidade para muitos jovens. Fui contemplada com a King Scholarship, uma bolsa integral de estudos em Dartmouth, destinada a alunos que desejam mudar a situação de pobreza e desigualdade social em seus países de origem - afirmou a estudante.


Além do incentivo às inscrições dos estudantes que demonstram interesse, docentes, servidoras do Setor de Orientação Educacional e Pedagógica (SOEP) e Direção do CPII de Niterói ajudam no processo de candidatura da vaga elaborando cartas de referência e ajudando no preenchimento de formulários. Nos casos em que o colégio custeia os gastos com a atividade, os estudantes são acompanhados por docentes.


Construção coletiva


As incertezas decorrentes do avanço da calamidade sanitária trouxeram diversos desafios para as escolas, em meio a um cenário de incertezas. Segundo a professora do Colégio Pedro II, Mariana Quadros, um destes desafios é a elaboração de atividades pedagógicas que garantam a participação de todos os estudantes, já que há alunos que não têm conectividade suficiente para a realização de atividades que demandem o consumo de muitos dados. Por isso, a instituição divulgou editais de auxílio emergencial, mas ainda há limitações em relação ao acesso a recursos considerados muito "pesados".


As atividades letivas da escola retornaram em fevereiro de forma remota. A decisão foi motivada devido à força da segunda onda, que contribuiu para que a retomada das atividades no campus se revelasse como insegura.


- Nesse cenário, precisamos propor exercícios e apresentar materiais que sejam ricos, mesmo que não usem todos os recursos tecnológicos disponíveis. Outro desafio é a retomada das trocas entre os estudantes, sem as quais a relação de ensino-aprendizagem não se constrói de forma eficaz. Não estou me referindo às conversas que os jovens realizam por meio de redes sociais. Elas existem independentemente da escola. Falo dos debates, da defesa de pontos de vista, ou seja, de práticas que favoreçam a revisão, ampliação, modificação, construção das hipóteses ou dos saberes desenvolvidos durante a realização individual das atividades. O conhecimento é uma construção coletiva. E precisamos transpor para o ambiente virtual a socialização do saber – explicou a professora.


A expectativa de que o cenário epidemiológico permitiria o retorno presencial em alguns meses fez com que a escola pensasse em algumas soluções, entre elas o investimento em atividades que possibilitassem a manutenção do hábito de estudos dos alunos, chamadas "de apoio cognitivo e emocional". Elas não compuseram o ano letivo, salvo para os estudantes da terceira série do ensino médio. Entre os desafios também está o gerenciamento de questões emocionais como as frustrações, angústias e perdas relativas à ausência dos encontros que ocorriam no campus.


- A escola não é apenas um prédio, mas nesse prédio um mundo de relações se estabelecia. Elas fazem falta para os estudantes e para os servidores. Por isso, no campus, propusemos um projeto, chamado "Sentimento do mundo", com o objetivo de resgatar os laços dos estudantes com a escola e repensar o tempo presente, tão difícil mas potencialmente enriquecedor – destacou Mariana.


Coordenador pedagógico da equipe de português do CPII desde 2019, Everardo Cantarino diz que a produção escrita é um processo de longo prazo, que deve ser iniciado na Primeira Série do Ensino Médio. Essa preparação envolve uma série de aspectos, pensando no Enem que tem como gênero de redação um texto dissertativo-argumentativo.


- A gente trabalha na Primeira Série do Ensino Médio de forma mais livre, com diversos gêneros literários e, a partir da Segunda Série, a gente foca numa questão mais argumentativa, com um vasto modelo de textos argumentativos, como cartas, editoriais, o que de certa forma já ocorre naturalmente na Primeira Série com os textos publicitários, ou através de outros gêneros que buscam persuadir e despertar o interesse de quem está lendo. Já há uma intenção ali, compreendê-la é fundamental nesse processo de construção de um texto argumentativo. Já na Terceira Série fazemos um trabalho mais direcionado para o vestibular, sobretudo para o Enem. - pontuou.


Atividades extracurriculares


O estímulo às atividades extracurriculares é um dos fatores que colocam os estudantes em contato com oportunidades que talvez não teriam em outro contexto. Além de projetos internos em todas as áreas do conhecimento, os estudantes participam de competições e olimpíadas em outros estados, países e continentes. Também fazem estágios em diferentes áreas e instituições, como a FioCruz e o Museu Nacional e desenvolvem projetos sociais. Diretora da unidade do Colégio Pedro II, em Niterói desde novembro de 2017, Mônica Coimbra diz que sempre carregará muito aprendizado da instituição.


- Destaco a experiência de trabalhar intensamente em prol da minha comunidade escolar tentando atender - sempre dentro do que é possível fazer, naturalmente e com celeridade - às demandas recebidas. Devo registrar que conto com uma equipe de excelência de servidores técnicos e docentes, com merecido destaque a minha diretora pedagógica, professora Natália Braga, com quem trabalho em parceria absoluta no encaminhamento das questões pedagógicas - sublinhou.


De acordo com a diretora, a escola tentou oferecer as condições mínimas de tecnologias digitais necessárias para que todos os estudantes pudessem ter acesso ao trabalho remoto. Paralelamente, o Campus Niterói do CPII realizou diversas ações socais de doação de EPIs produzidos por estudantes e cestas básicas compradas por meio de campanhas promovidas pela Direção, com o apoio de servidores técnicos e docentes, do sindicato dos servidores do CPII (SINDSCOPE), da associação de docentes do CPII (ADCPII) e da comunidade externa.


- Ainda enfrentamos a dura batalha de prover condições de acesso a todos. Agora, contudo, temos condições mínimas para dar continuidade ao nosso trabalho e creio que, em breve, poderemos resgatar a credibilidade que possa ter sido afetada pelo atraso na oferta de atividades com contabilização de carga horária para todas as séries – afirmou a diretora.


Formação Integral


Em 2018, a escola apareceu entre as instituições públicas de ensino com o melhor desempenho no vestibular do Enem. Mônica explica que isso está muito relacionado com a estrutura departamental do CPII, que muito contribuiu para o resultado. Ela explica que a escola é dividida em departamentos pedagógicos responsáveis por coordenar o trabalho em todos os campi, o que confere uma certa unidade ao tratamento dos conteúdos e garante que os objetivos de cada disciplina sejam alcançados com sucesso.


- Acreditamos na construção coletiva e isso requer muito tempo e dedicação. Realizamos inúmeras reuniões pedagógicas das quais tiramos entendimentos de como o trabalho deve se dar. Isso nos garante o comprometimento com o que foi acordado. E, acima de tudo, está o compromisso com a formação integral de nossos estudantes. Isso lhes proporciona ferramentas para uma visão crítica das questões com as quais são confrontados. Esse é fator primordial para o bom desempenho em qualquer tipo de avaliação, pois contribui para a formação de indivíduos íntegros e socialmente atuantes – concluiu.