Andrea Grael é medalha de ouro em preservação ambiental

Veterinária e velejadora de Niterói fala das pequenas atitudes individuais que podem contribuir para a sustentabilidade do planeta

Por Livia Figueiredo

Andrea fazendo mais uma coleta de lixo na praia / Foto: Acervo pessoal


Sempre quando vai velejar Andrea Grael, mãe da medalhista Martine e do atleta olímpico Marco Grael e mulher do campeão Torben Grael, volta com seu barco repleto de lixo coletado no mar. O motivo? Ela diz que simplesmente não consegue passar pelo lixo sem pensar nas consequências que um plástico, uma tampa ou qualquer tipo de resíduo podem provocar nos seres marítimos que ali vivem. Porém, o cuidado não se restringe apenas ao mar. Veterinária, Andrea mantém uma rotina bem rigorosa quando se trata de preservar o meio ambiente. Em casa, nada de produto de limpeza industrializado. Papel higiênico também é raro. Quando vai levar os cachorros para passear e sempre quando vai caminhar pela orla, procura coletar o lixo que encontra na areia.


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Mas não para por ai: ela reutiliza o saquinho do pão, transforma resíduos domésticos em adubo. Passeia pela cidade é de bicicleta. Até nas idas ao mercado, sempre, claro, acompanhada de sacolas retornáveis. “Eu carrego até 20kg de compras na bicicleta”. Carro, só para situações de extrema necessidade.


Em entrevista ao A Seguir: Niterói, a ambientalista ressalta que a preocupação com os resíduos, principalmente aqueles que são depositados no mar, vem de muito tempo. Andrea é praticante do esporte da vela e é veterinária de formação. Duas vertentes que dialogam e que muito se complementam. Durante a prática da vela, ela conta que é possível ver nitidamente a contaminação do mar.


- Esses resíduos que estão no mar interferem tanto no prazer de desfrutar a natureza através do esporte da vela, como também na questão ambiental. Com o conhecimento dos seres aquáticos que possuo, tenho plena consciência do quanto que os resíduos e a poluição prejudicam todos os animais marinhos que vivem ali.

Andrea Grael ao lado de uma tartaruga marinha / Foto: Acervo pessoal


Em Niterói, as tartarugas marinhas costumam fazer visitas constantes. Não é muito incomum elas aparecerem para dar as caras e pegar de surpresa os banhistas que passam por lá. A ambientalista diz que o número de animais acometidos pelas consequências dos resíduos e da poluição é enorme e alerta também que o lixo deixado pelos pescadores, como as redes e as linhas de pescas abandonadas, é extremamente agressivo à vida marítima.


Diferente do que muitos imaginam, Andrea alerta que o lixo observado nas praias não necessariamente tem como origem o resíduo depositado pelos banhistas, que levam alimentos e bebidas para as praias, ou de pessoas que frequentam a orla e os quiosques. Além desse, há também uma parcela de resíduo que chega pela própria água do mar, com as marés e os ventos. Esses resíduos vêm de inúmeras origens, como através dos rios de várias cidades que desembocam na Baía de Guanabara.


- Funciona assim: cada rio das cidades que estão às margens da Baía de Guanabara possui uma quantidade de poluentes enorme, o que acaba também sendo um fator que contribui para essa contaminação. Paralelo a isso, há um descaso com a maioria das cidades que cercam a Baía de Guanabara. Niterói está fazendo um esforço e já evoluiu muito, mas ainda assim nós temos um número assustador de cidades que não possuem o saneamento básico, que deve ser visto como algo primordial – explicou.


O ato de coletar o lixo das praias pode causar estranheza em alguns e solidariedade em outros. Dependendo de como as pessoas se identificam com as questões ambientais, a recepção é a mais variada possível. Algumas interpretam a cena com certo constrangimento, já outras, se solidarizam, gerando uma corrente do bem.


- Eu tenho impressão que a atitude de fazer esse movimento inspirou muitas outras pessoas. Volta e meia eu escuto: “Nossa, Andrea, sempre que eu vejo um lixo eu lembro de você e acabo catando”. Eu adoro escutar esses retornos. É sinal de que conseguimos contaminar alguma pessoa para o bem.

Andrea Grael coletando lixo nas areias das prais / Foto: Acervo pessoal


Além do descaso das autoridades com o saneamento básico, a veterinária cita a maneira imprópria da coleta de lixo das cidades que circundam a Baía de Guanabara e faz uma crítica à falta de técnica. “Isso na verdade é um problema de esfera nacional. Você conta nos dedos o número de cidades que possuem uma coleta de lixo exemplar”, afirmou.


Outro problema que ela sublinha é a falta de cidadania, que como consequência, contribui para o deslocamento de responsabilidade. Ela diz que as pessoas tendem a atribuir toda a culpa ao governo e não se responsabilizam pelas pequenas ações que podem fazer toda a diferença.


- Atitudes erradas começam a partir do consumo. As pessoas, de modo geral e digo até de amigos próximos a mim, não são capazes de levar a sua garrafinha de água na bolsa e acabam comprando a garrafa pet em algum lugar. Não pensam o que pode ser mudado dentro da própria casa para evitar o consumo de tantos produtos e tantas embalagens.


A conscientização também está relacionada à educação que, segundo Andrea, deve ser reavaliada para que alcance toda a população e não apenas as camadas privilegiadas. Ela diz que não é possível exigir de uma pessoa que está lutando para sobreviver o destino do lixo, já que ela tem questões, muitas das vezes, ainda mais graves para resolver.


O que fazer em casa


Além de evitar ao máximo o uso de descartáveis, Andrea também adota outras formas de amenizar o alto consumo de lixo dentro da sua própria casa, como por exemplo, na seleção dos ingredientes que costuma utilizar para limpeza da casa. Ela diz que usa produtos que resultam em uma ação bastante eficaz e que não contém resíduo tóxico, aquele que costuma ir para o esgoto como contaminante. Alguns dos ingredientes que ela utiliza são bicarbonato, limão e vinagre. Este último passou a ser utilizado como amaciante de roupa, que cumpre bem a sua função de higienizante. Ela também utiliza o vinagre para eliminar os odores de quem tem animais em casa.


Outra atitude é o uso racional do papel higiênico, que foi reduzido drasticamente em sua casa. No lugar do papel, Andrea diz que a família usa o bidê ou a ducha higiênica, junto de sabão e toalha.


- Aqui em casa temos composteira, onde destinamos resíduos orgânicos. Fazemos a separação de resíduos sólidos, otimizamos o consumo de água, usamos produtos que eliminam o consumo excessivo de embalagens, usamos esponja orgânica para pia de cozinha e banheiros (bucha vegetal), recusamos embalagens e mudamos o consumo de produtos que ofereçam embalagens não poluentes. Não consumimos plástico, nem isopor, e evitamos o empacotamento desnecessário. Até evitamos a mania de presentinho na família.


A tríade que deu certo


O estímulo de cuidar do meio ambiente, segundo Andrea, está muito atrelado ao resultado que as pequenas atitudes cotidianas proporcionam. Além de poder desfrutar da biodiversidade: animais que só existem por aqui, plantas, flores e frutas que poucas pessoas conhecem.


- Eu acho que quando conseguimos tomar conta desse conjunto todo, alcançamos o bem estar. É muito bom você estar em um ambiente que recebe esse cuidado e você encontra tudo limpo. A saúde ambiental para mim é muito importante. Ser veterinária, ambientalista e velejadora é uma tríade que me faz olhar o mundo de uma forma um pouco diferente. E a gente até consegue curtir mais. O meu objetivo é tentar fazer com que eu seja um agente contaminante, no bom sentido da palavra. Eu quero "contaminar" as pessoas que vivem a 100 metros de mim e que essas pessoas possam "contaminar" outras que vivem a 100 metros delas e assim por diante. Como um efeito em cadeia.


Estímulo às crianças


No clube onde costuma velejar, é feito um grande incentivo à limpeza e às ações que podem ser sustentáveis por parte das crianças, como uma forma de ensinar desde cedo a preservação ambiental, a coleta de lixo, os efeitos que os resíduos provocam no bioma.


- A gente tem incentivado as crianças a visualizaram e se incomodarem com o lixo marinho. Elas têm observado como o lixo pode prejudicar as tartarugas, os peixes entre outros animais marinhos. O entendimento prévio é primordial. Tudo que a gente conhece a gente tende a gostar mais e cuidar mais. O lema básico para a gente cuidar do meio ambiente é tomar conhecimento desse ambiente. Observar o que tem em volta da gente. Eu vejo poucas pessoas com conhecimento das aves que existem em seus bairros.


E deixa a sugestão: isso pode servir até como exercício de escola. Cada criança podia levar para a escola o que observa das aves que fazem parte do ecossistema do seu bairro ou até de outros animais.


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