Aprendiz Musical completa 20 anos deixando legado na educação de Niterói

"Quando a criança faz música em casa, sai o que tem de ruim e entra o que tem de bom", diz Diogo Moura, ex-aluno e atual professor


Amanda Ares

Comemoração do aniversário de Niterói em 2020


Um dos programas educacionais de maior destaque de Niterói, o Aprendiz Musical completa 20 anos em 2021. O que começou como um projeto sociocultural, cuja missão era formar crianças e adolescentes de Niterói através da música, se transformou em parte integrante da rede municipal de ensino, promovendo educação musical de qualidade para jovens de 10 a 24 anos, em 20 escolas municipais, garantindo o acesso à cultura e às artes.


Quem está desde o começo é Diogo Moura, 30 anos, violoncelista que se iniciou na música aos 12 anos, meio sem querer, no segundo ano projeto, em 2002. Hoje professor do Aprendiz Musical, ele conversou com o A Seguir: Niterói e diz que não se vê fazendo outra coisa.


- Eu penso que cada um tem um propósito. Amo tocar em orquestra, mas me vejo muito necessário na vida dos meus alunos - diz o violoncelista.


Como você entrou no Aprendiz Musical, e como ele te influenciou a gostar de música?


- Eu tinha 12 anos, e estudava na escola municipal José de Anchieta, no Morro do Céu. Lembro que minha prima entrou primeiro no projeto, e aí ela ganhou a blusa, e eu achei a blusa legal, e achava legal que eles ganhavam lanche quando tocavam, e eu queria a blusa e lanche. Coisa de criança. Meu primeiro instrumento foi a flauta doce.


Aos 12 anos, começando na flauta doce. Arquivo Pessoal.


Quando mudei da flauta do violoncelo, também foi por interesse, porque eu ficava em pé, e eu achava que a galera do violoncelo ficava no mole, sentado na frente…


Mas o motivo sério foi uma apresentação que nós fizemos no Oscar Niemeyer, que eu não vou lembrar o ano, em que a gente tocou uma música do Mozart, que era linda! E eu lembro que nas cordas aquela melodia era maravilhosa, e eu falei: caraca, eu quero tocar essa música! Eu achei inadmissível não ter parte de flauta, porque eu fiquei encantado pela música. Eu gostei de verdade daquela peça, e daquele arranjo. Lembro até hoje.


Culminou em querer o violoncelo. E a professora achava um instrumento mais acessível pra mim por que eu tinha um braço grande. E na flauta, eu já lia a clave de fá, que é mesma região sonora do violoncelo, então eu tinha que ir pro cello, mesmo.


Em 2009, quando fez parte da Orquestra Aprendiz. Arquivo Pessoal


Que experiências a música te proporcionou?


- Tocar a Nova Sinfonia de Beethoven era meu sonho. Eu sempre assisti orquestras que fossem tocar essa sinfonia, assistia DVD, procurava onde tinha apresentação, ia até nos ensaios, se desse. Quando eu toquei a 9a sinfonia, em Curitiba, pra onde eu fui me aventurando, sem nem lugar pra ficar, conheci muita gente legal, vi meu mundo abrindo, fiz várias amizades.


Tinha que fazer uma prova pra tocar essa música, e eu estudei muito. Tinha cinco vagas, e eu passei em terceiro lugar. Eu lembro do teatro com dois mil lugares cheio, e eu lá no palco. Nos primeiros compassos eu já estava chorando pra caramba.


Com a orquestra, já fui pra Noruega duas vezes. Na primeira vez, eu tinha 20 anos. Toquei em um concerto de Natal de uma escola de música. E em 2013, toquei em um festival de música, e fiz um curso de formação de professores. Foi lá que eu participei da criação do método viva de ensino, para incentivar crianças a se identificarem com o repertório musical, e que hoje a gente aplica no Aprendiz Musical.


Diogo à esquerda, o Violoncelo no centro de tudo. Com outros dois colegas em Oslo, Noruega, em 2010. Arquivo pessoal.


O que mudou entre o projeto Aprendiz Musical de 20 anos atrás, quando você começou como aluno, para hoje em dia?


- Na época, ele era um projeto, que veio da parceria da Secretaria de Cultura com a de Educação. Funcionava em poucas escolas, e tinha poucos instrumentos. Atendia cerca de 200 alunos. Agora, atende mais de 4 mil crianças e adolescentes. Agora tem musicalização, violino, viola, violoncelo, flauta transversa, clarineta, cavaquinho, violão, percussão, além do canto coral, e a Sala Aprendiz de formação continuada. E estamos mesmo na grade escolar.

Apresentação da Orquestra Sinfônica Aprendiz no teatro da UFF. Reprodução página Aprendiz Musical


Hoje você é músico profissional, com uma carreira estabelecida. Conhece outras histórias de colegas seus que também enveredaram pelo caminho da música?


- Tem vários. Eu lembro que quando eu cheguei no violoncelo, tinha um rapaz um ano mais velho que eu, Daniel Silva, que foi abrindo o caminho que eu fui trilhando depois. Ele tocou na Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem, onde depois eu toquei também, quando ele já era líder de naipe. Depois, ele passou pra UFRJ, se formou, e eu acabei entrando também. Hoje, ele toca na Orquestra Sinfônica Nacional, na UFF. Tenho muito orgulho dele, de verdade. A maioria das matérias sobre o Aprendiz Musical na época eram sobre o Daniel.


Iguais a ele têm a Leia e a Letícia, que se formaram em licenciatura na UniRio, o João Vítor Reis, bacharel em Viola Clássica na UniRio, o irmão dele, Renato Reis, também formado pela UniRio, e que agora cursa musicoterapia. O Lauro Lira é também um poço de talento, está fazendo mestrado em Portugal agora.


De aluno que virou músico profissional à professor do Aprendiz Musical. Por que você decidiu ficar no projeto?


- Sou professor no Aprendiz há 10 anos. Eu achei necessário pra mim. Eu penso que cada um tem um propósito. Não que eu não me achasse capaz de tocar em uma orquestra. Eu acho maravilhoso, é uma paixão. Só que eu me vejo muito necessário na vida dos meus alunos. Eu tenho uma empatia por eles, por que eu entendo exatamente o que eles passam. Eu olho pra eles, eu já sei se ela tá bem, se ela tá mal, se estudou, se tá inseguro. Tenho uma relação muito boa com meus alunos, e os pais deles sabem disso.


Lecionando. Arquivo Pessoal.


Em 2014, comecei a me dedicar muito mais a dar aula. Eu ia pra faculdade, e prestava atenção no que eu estava aprendendo pra passar pra eles. Não via mais aquilo apenas pra mim, via pra eles.


Que papel o Aprendiz Musical tem no caminho dos alunos?


- Quando a criança faz música na casa dela, sai o que tem de ruim e entra o que tem de bom. Quando eu vejo que meu aluno tem um pai ou mãe alcoólatra, ou dependente químico, e chega numa quarta feira, esse pai ou essa mãe não usa nada, se arruma, e vai no teatro ver o filho tocar, ali eu fico em paz, por que meu aluno teve um dia de paz.


Eu não sei exatamente quantos alunos eu tive, porque muitos ficam só um ano, ou dois, e saem, mas o importante é eles fazerem, experimentarem. Talvez isso nem seja o que eles queiram fazer, mas é bom pra criança. Eu era lutador de judô, disputei a copa rio internacional. Magrinho, frágil, quase quebrei o pescoço, mas tava lá lutando. Hoje, estou feliz na minha profissão. Eu tenho ex-aluno que me cumprimenta na rua com macacão do estaleiro. Fico muito feliz, nem sei de onde vem tanta felicidade.


Os alunos recebem o instrumento, ou algum tipo de bolsa para participar?


- Sim, depois que os pais assinem um termo de responsabilidade, eles podem levar o instrumento pra casa, e quando ele comprar o dele, ou não quiser mais fazer, ele devolve. A bolsa é só para quem toca na Orquestra Aprendiz. Os alunos começam na escola, e quando crescem, vão sendo convidados a integrar a Sala Aprendiz, para ter aula com outros professores, com mais tempo de aula.


O projeto atualmente conta com aulas de oito instrumentos, incluindo violino. Reprodução Internet/ Aprendiz Musical.


Depois, tem a Orquestra Guerra Peixe, a Orquestra Interculturalidades, a Orquestra Popular Aprendiz, o Coro, e por fim a Orquestra Sinfônica Aprendiz, que é de alto nível. E como ela tem demandas de apresentações, elas recebem essa bolsa.


Como faz para se inscrever, e quais os critérios para participar?


- Tem que ser aluno da rede municipal de ensino. Caso não seja, mas se ela tiver um instrumento que tenha na escola e quiser participar, pode também. No começo do ano, você se inscreve na própria escola. As vagas são preenchidas de acordo com a quantidade de instrumentos que cada escola possui. Quem ficar excedente, fica em uma lista de espera.


Segundo o site da escola, os interessados devem preencher documento de matrícula fornecido pelo Programa e apresentar cópia de documento de identificação com foto (RG, CNH ou passaporte) e cópia do comprovante de residência recente. Se o aluno for menor de idade, também precisa apresentar cópia do documento de identificação do responsável legal.


Dúvidas podem ser enviadas pelo e-mail aprendizmusica.secretaria@gmail.com ou pelo telefone, (21) 2621-4453. A Sala Aprendiz, sede do projeto, fica a Rua Saldanha Marinho, 217, no Centro de Niterói.