Niteroiense expõe no MAR relações ancestrais entre África e Brasil

Memória, esquecimento, escavação e descoberta são alguns dos temas presentes na exposição em cartaz no Museu de Arte do Rio


Por Livia Figueiredo

"Outros fundamentos" (2017-2019) / Foto: Aline Motta


Debruçando-se sobre vestígios documentais de sua própria família, Aline Motta se dedica a mapear narrativas ancestrais que permeiam as relações entre África e Brasil, no passado e no presente. Para isso, ela parte de relatos e documentos originais para produzir leituras de episódios apagados pela história, entre a ficção e a realidade. É esse o pilar da exposição “Memória, Viagem e Água”, exibida no Museu de Arte do Rio (MAR) até junho deste ano.


Nascida em Niterói, a artista, de 45 anos, passou toda sua infância e adolescência na cidade, e entre as memórias afetivas, ela cita paisagem com a entrada da Baía, os contornos da cidade do Rio de Janeiro do outro lado com seus prédios e montanhas, e a ponte Rio-Niterói, construção que ela define como “arquitetônica monumental”. São esses elementos que contribuem para parte de sua poética e se fazem presente até os dias de hoje.


Memória, esquecimento, escavação paciente e descoberta são alguns dos temas abordados nos vídeos instalações que compõem a mostra. A exposição, que reflete as possibilidades do sensorial, através de relatos, do barulho das ondas do mar quebrando, o som da feira livre, os cânticos africanos e o samba que ressoam no intervalo da passagem do tempo. “O que pode o vento molhar, a chuva molhar, a água dos rios molhar? O que pode o tempo apagar, a violência manchar?” Essas são algumas das questões levantadas pela mostra.


Três anos após realizar a instalação e de ter lançado seu livro, "Escravos de Jó" (2016), a artista segue interessada nas histórias ligadas à escravidão negra e de como sua família, de um lado portuguesa e, de outro, africana e afro-brasileira, é atravessada por essas relações desiguais que definem as particularidades da sociedade brasileira. Seu fio condutor é um pequeno acervo de retratos fotográficos familiares. São pessoas com quem teve ou que ainda estabelece alguma relação de proximidade física, seja sobre quem já ouviu falar ou sobre quem está presente em documentos que hoje pertencem aos arquivos públicos e circulam pela internet.


Em seu resgate ao passado, Aline encontra outros nomes de pessoas, como sua bisavó, Mariana (1888-1960), além de nomes de ruas, produtos do comércio, notícias da imprensa e eventos históricos que se conectam. Tais descobertas indicam o modo que a artista encontrou para lidar com as questões étnicas-raciais em sua família, numa tentativa de busca incessante para melhor entender os efeitos da sua história no presente. Essa vontade de saber a engaja em viagens nas quais conhece pessoas e localidades, matéria prima que resume a sua trilogia de vídeo instalações que fazem parte da mostra.


Os fatos coletados em sua pesquisa parecem antecipar os finais, dada a raridade das fontes, mas a artista subverte a linha cronológica do tempo e faz do epílogo os primeiros capítulos de projetos de longa duração. Documentos, papéis, certidões de batismo e nascimento revelam-se rarefeitos, desfazendo-se em água, desbotadas pelo tempo, tornando transparentes as histórias de vidas paralelas que o colonialismo insistiu em apagar.


Em entrevista ao A Seguir: Niterói, Aline Motta fala sobre o processo criativo da mostra “Memória, viagem e água”, sobre sua relação com Niterói e as principais referências do seu trabalho artístico.


A Seguir: Niterói: Para começar, poderia falar um pouco sobre sua relação com Niterói? Você é nascida na cidade e se mudou para São Paulo. Como avalia a cena cultural de Niterói? O que guarda na memória afetiva?


Aline Motta: Morei toda a minha infância e adolescência em Niterói e a relação da cidade com suas águas, principalmente a Baía de Guanabara, marcou minha vida para sempre. Olhar todos os dias para aquela paisagem com a entrada da Baía, os contornos da cidade do Rio de Janeiro do outro lado com seus prédios e montanhas, e uma construção arquitetônica monumental, que é a ponte Rio-Niterói, acabaram por se fazer presentes em todo o desenvolvimento da minha poética.


Você parte de relatos e documentos originais para produzir leituras de episódios apagados pela história. Conte um pouco sobre o processo criativo.


É um processo muito íntimo e pessoal, mas que procura alcançar contextos coletivos em grande medida. Como eu costumo dizer, é a história da minha família, mas poderia ser também da sua.


Quais são as principais referências do seu trabalho artístico?


As referências são amplas e variadas, fica até difícil nomeá-las, porque são um reflexo da minha formação um pouco heterodoxa em direção às artes. Acho que eu faço um trabalho realmente interdisciplinar que agrega diferentes áreas do conhecimento e saberes. Apesar de não estar ligada formalmente à academia, faço muita pesquisa em História e Antropologia, principalmente sobre o período de pós-abolição e o início da República. Esta pesquisa em torno da virada do século XIX para o XX aparece em muitas das minhas obras, porque acredito que seja crucial para o entendimento do momento histórico e político que vivemos hoje.


Alguns dos temas abordados em sua mostra são a memória, o esquecimento e a descoberta. Qual papel que a memória desempenha em um mundo cada vez mais imediatista? No que tange à memória, qual a importância, em sua opinião, de recuperá-la traçando paralelos com questões tão atuais?


Formas de recontar, recriar, reimaginar o que vivemos é guardar a memória, é passá-la adiante. É ter sustentação, fundamento e um sentido de coletividade, que nos faz não desistir da vida, mesmo neste momento em que a descartabilidade e perversidade das políticas públicas deste governo apontem em direção contrária a isso.

"Outros fundamentos" (2017-2019)/ Foto: Aline Motta


A mostra é uma sensível homenagem às suas raízes e, pelo que pude apurar, esse desejo pelo passado está muito presente na sua obra. Para você essa busca é uma forma de autoconhecimento?


Acho que a palavra não é "autoconhecimento", porque isso envolve diferentes processos cognitivos, que, às vezes, estão ligados à expressão artística, às vezes não. Acho que ofereço uma chave de interpretação sobre o que eu e meus antepassados viveram, com a qual muitas pessoas se identificam. Ao mesmo tempo em que abordo temas bastante difíceis, procuro não fugir das contradições inerentes ao processo. É um caminho que recusa à banalização e visibilização apenas de nossas dores, e aponta para formas sutis de resistência, que nos mantém vivos e pulsantes em nossa capacidade de criação de mundos e reinvenção contínua de possibilidades de existência.


Fale um pouco sobre a trilogia de vídeo-instalações presentes na exposição: "Pontes sobre abismos" (2017), "Se o mar tivesse varandas" (2017) e "Outros fundamentos" (2017-2019).


São três trabalhos em vídeo que estão em exposição em uma única sala do Museu de Arte do Rio e podem ser vistos em sequência. É como se fosse um único filme de meia hora dividido em 3 partes. É uma sala escura, como se fosse uma sala de cinema com 6 telas bem grandes, que procura criar um ambiente imersivo. Fiquei muito satisfeita com o resultado e agradeço a equipe do museu pelo cuidado em relação ao meu trabalho durante todas as etapas de montagem desta exposição.