Artistas de Niterói tiveram de se recriar para sobreviver na pandemia

Atualizado: 31 de Dez de 2020

2020 foi difícil para todos, mas artistas ainda não puderam voltar a fazer shows fora do mundo virtual

Por Livia Figueiredo

Edison Matos, fundador da Sinfônica Ambulante, grupo que reúne músicos das mais variadas influências, com a proposta de levar a arte aos espaços públicos / Foto: Paulo Márcio Gomide


O mercado do entretenimento entrou em suspensão. Shows tiveram que ser adiados para sabe se lá quando. Peças de teatro, séries de TV, filmes, exposições em museus. A arte que sempre resguardou e trouxe conforto teve que ser reformulada para a nova realidade. Em uma área que preza tanto pelo contato pessoal com o público, se adaptar às novas possibilidades e se reinventar em um cenário jamais esperado foi um desafio. Vence quem, dentro das condições que estão ao alcance, faz o bom uso das ferramentas de interação e da criatividade.


Veja vídeo do A Seguir: Niterói sobre o quanto 2021 depende de cada um de nós


O músico e fundador da Sinfônica Ambulante, Edison Matos, 35 anos, é um desses artistas que, mesmo com todas as adversidades, conseguiu encarar o desafio recorrendo às alternativas possíveis para o momento. Na Oficina de Música da Sinfônica, ele atua como professor das turmas de saxofone. Para se adaptar a todos os desafios e obstáculos impostos pela pandemia da Covid e pelas normas de distanciamento social, as estratégias tiveram que ser repensadas e a oficina acabou sendo reformulada para o formato virtual. As turmas antigas foram mantidas - alunos que aprenderam e tocaram no carnaval deste ano marcaram presença – como também houve espaço para a abertura de uma nova turma, a de nível Iniciante, muito aguardada pelo público.


Edison relata que essa turma começou com alunos iniciantes, já no formato on-line durante a pandemia, e muitos deles ainda estavam escolhendo o instrumento que queriam aprender. Entre eles: saxofone, trombone, flauta transversa, trompete ou bateria. As aulas foram adaptadas tanto para vídeos e tutoriais exclusivos para os alunos no YouTube, quanto para encontros fixos semanais com os respectivos professores de cada instrumento/turma.


Enquanto os alunos tiveram que se acostumar com a plataforma, os professores também foram obrigados a lidar com um enorme desafio em mãos: em meio a tantas distrações, cativar a atenção dos alunos. O resultado é gratificante depois de ver os alunos aprenderem, ao longo do ano, a como segurar um instrumento e conseguir tirar o primeiro som até aprender a tocar as primeiras músicas do repertório da Sinfônica Ambulante.


- Muito dos músicos niteroienses trabalham ao mesmo tempo com diversos projetos musicais. No meu caso, além dos meus projetos solo de música instrumental e com a Sinfônica Ambulante, tocava como músico freelancer de inúmeras bandas da cidade. Inicialmente, todos os trabalhos com shows ao vivo foram suspensos, de roda de samba a banda baile. Tudo parou: casamentos, formaturas, barzinho, casas de festas e teatros. Tirando algumas poucas lives que fiz, fui voltar a tocar num evento de casamento apenas no dia 19 de dezembro – ressalta Edison.


Edison conta que seu trabalho como professor de música salvou o ano e os boletos. Devido à impossibilidade de fazer shows e eventos regulares de música, foram as aulas on-line de saxofone, flauta e musicalização infantil que seguraram as pontas durante praticamente o ano inteiro. Pelas suas contas, foram de 36 a 37 semanas de aulas virtuais, gravadas e ao vivo por videoconferência no Zoom, Google Meet e YouTube, para adultos e crianças.


- Tive novos e antigos alunos que já não estavam mais em Niterói e fizeram aulas da cidade do Rio, Búzios, Maricá e até São Paulo. Ainda fui presenteado com a oportunidade única de ter mais contato com o mestre Hamilton de Holanda. Além de músico espetacular, ele é um grande professor, incentivador e pensador da nossa música! E, particularmente neste ano, tive a sorte de poder participar de suas aulas/dicas/lives e às vezes só um bate-papo que melhoraram não só minha performance como músico e professor, mas como pessoa. Só tenho a agradecer - complementa o músico.


Turma de Saxofone da Sinfônica Ambulante / Foto: Divulgação


Formado em Cinema e Audiovisual e mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF, Felipe Ferreira de Almeida, de 31 anos, teve que se readaptar, assim como outros tantos da sua profissão, tão prejudicada pela pandemia. Ele conta que, durante a graduação, foi descobrindo uma afinidade maior com as artes plásticas/visuais do que propriamente com o cinema e, como forma de driblar as dificuldades do setor audiovisual, vem participando de exposições coletivas já há alguns anos.


- Tive duas exposições individuais: uma em 2018, no Centro de Artes da UFF, e outra em 2019, no Sesc São João de Meriti, no Rio. Com a pandemia as oportunidades de exposições e editais foram drasticamente reduzidas. Cheguei a me inscrever em um edital emergencial do estado, mas a classificação do projeto não foi suficiente para obter o benefício. É muita gente precisando para poucos contemplados, de fato. A produção de trabalhos novos nesse período tem sido bem baixa, até porque não tenho tido muita energia para isso, mas agora com o final do ano estou tentando voltar a uma "rotina de ateliê" – explica.


Felipe conta que participou recentemente de uma iniciativa de exibição de vídeos curtos online, pelo Instagram. Esses pequenos projetos acabaram trazendo certo ânimo para se debruçar em novos rumos, dentro do que pode ser feito nesse período. “Ainda assim, infelizmente não tenho muita esperança que o sistema de arte vá aprender alguma coisa com esse momento que estamos passando ou que as relações profissionais serão melhores no futuro”, desabafa.

"O Oitavo Dia", segunda exposição individual do artista plástico Felipe de Almeida, na unidade do Sesc de São João de Meriti, no Rio / Foto: Divulgação


Formada em Cinema pela UFF, Mariana Ramos já transitou em diversas áreas do audiovisual: depois de passar pela produção, direção, agora ela é roteirista. À via de regra, boa parte da sua vida profissional foi como freelancer, algo muito comum dentro da área. Há três anos, ela é diretora de uma produtora, baseada em Niterói, conhecia como Terra Bruta. Com o editorial focado em outras vozes e perspectivas narrativas, os conteúdos realizados por sua produtora já circularam em festivais, plataformas de streaming e canais de TV. Atualmente, a produtora trabalha uma cartela de projetos voltadas para TV no formato de séries em live-action, animação e documentário.


- Eu ainda faço freela para complementar a renda, mas meu trabalho principal é na empresa. Como ela é de pequeno porte, ficamos um pouco à mercê. Quem voltou realmente a trabalhar nessa época foram empresas de grande porte, que possuem maiores condições de implementar os protocolos e que trabalham com projetos de valores maiores também. A gente tinha conseguido o Edital de Fomento ao Audiovisual de Niterói, mas não recebemos até hoje. No momento estou trabalhando com outras coisas, como por exemplo, alguns trabalhos de tradução. Acho que isso está associado a uma tendência também dos profissionais de se tornarem cada vez mais multitarefa pela questão da precarização do setor. Há um acúmulo de funções dos profissionais do setor cultural – conclui.

O diretor de fotografia Guilherme Rezende Jr. ecom a diretora e roteirista, Renata Spitz durante a gravação da série "O Vampiro de Niterói", uma co-produção UOL e Terra Bruta/ Foto: Mariana Ramos