As pedras no meio do caminho para os ciclistas em Niterói

Atualizado: Jun 9

Estrutura cicloviária da cidade precisa de integração, dizem especialistas


Por Júlia Cruz*


Jovem passeia de bicicleta na Praia de Icaraí. Foto de Gustavo Stephan


Não basta ter mais de 40 quilômetros de estrutura cicloviária espalhados pela cidade. É preciso interligar os trechos destinados a ciclistas e tornar o trânsito menos agressivo, dizem quem dá suas pedaladas por aqui, vive ou estuda o mercado das duas rodas. Niterói tem ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas e calçadas compartilhadas que permitem hoje uma melhor mobilidade por bicicleta, mas ainda há muito a fazer.


O projeto de transformação de Niterói em uma cidade mais ciclável se deu na última gestão do prefeito Roberto Silveira (PDT), entre os anos de 2009 e 2012, segundo a doutora em Ciência Política e professora do Programa de Mestrado em Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) Fátima Priscila Morela Edra. Ela afirma que o projeto foi mais bem estruturado na gestão seguinte, de Rodrigo Neves (PDT, 2013-2020), com a criação do programa Niterói de Bicicleta.


Claudio Santos vende bicicletas em Niterói há 37 anos e, para ele, é possível perceber a diferença na ciclomobilidade na cidade.


- Quem acompanhou a cidade nos últimos 20 anos sabe que o avanço foi nos últimos oito. Antes desses últimos oito anos, Niterói não era uma cidade amiga da bicicleta, ela era apenas uma cidade como outra qualquer. Hoje não, a gente percebe que é uma cidade muito mais ciclável - conta o vendedor.


A falta de interligação entre as estruturas cicloviárias, porém, obriga os ciclistas a dividirem a rua com carros e motos, e o medo de acidentes os afastam do asfalto. Os estudantes João Pedro Freire, de 22 anos, e Letícia Pita, de 21, dizem que a falta de estruturas cicloviárias os impede de pedalar para lugares mais distantes, mantendo-se em áreas de concentração de ciclovias e ciclofaixas, como os bairros do Centro e Icaraí.


Fátima Priscila Edra afirma que não é necessário somente interligar os trechos, mas também mudar a cultura de Niterói, atualmente muito focada no rodoviário, para que políticas públicas a favor da bicicleta sejam aceitas pelos moradores, como tirar vagas de carro e implantar ciclovias ou ciclofaixas.


O coletivo de ciclistas urbanos Pedal Sonoro atua realizando pedaladas em Niterói desde 2013, além de ter papel institucional na cidade, colaborando, pressionando governantes e dialogando com a Prefeitura pelo direito dos ciclistas. Marcelo Santos, integrante do Pedal Sonoro, defende o conceito de humanização das cidades como parte da cultura cicloviária.


- O carro, além de ser uma arma na mão de maus motoristas, ele distancia as pessoas, a bicicleta aproxima. Você tem uma outra visão da cidade quando você tá pedalando. Você tem mais contato físico com as pessoas e garante também a segurança pública, pois mais gente na rua inibe a ação da violência - acrescenta Marcelo.


O Pedal Sonoro teve participação ativa nas eleições municipais de 2020. Candidatos a prefeitos e vereadores, incluindo o Prefeito Axel Grael (PDT), podiam assumir o termo de compromisso do coletivo com o desenvolvimento da mobilidade ativa em Niterói. A mobilidade ativa engloba todos os meios de transporte sem motor, como andar a pé, de bicicleta, patins, skate, etc.


O vereador Daniel Marques (DEM), que foi Secretário de Meio Ambiente de Niterói por dois anos na gestão de Rodrigo Neves, diz que luta pela implementação de zonas de velocidade de carros controlada na cidade, acalmando o trânsito e permitindo maior segurança para os ciclistas ao pedalar.


- Se você conseguir condicionar as pessoas a andarem mais devagar, a rua se torna compartilhável com os ciclistas. Ciclista pode andar na rua. Aliás, ele deve andar na rua, já que não pode andar na calçada. Se todo mundo respeitasse, não teria tanto trânsito. Todos os carros andando a 50 quilômetros por hora chegam mais rápido no destino do que você andar a 100 quilômetros por hora para chegar mais rápido no engarrafamento. Todo mundo muito rápido afunila - diz o vereador.


Daniel Marques, durante sua campanha eleitoral, comprometeu-se com o Pedal Sonoro pelo desenvolvimento da mobilidade ativa. Entretanto, uma vez eleito, o vereador não assinou o termo de compromisso. À reportagem, Daniel Marques disse que foi um descuido e que irá procurar o coletivo para assinar o termo.


Por ser um transporte em que o deslocamento está condicionado ao esforço humano, especialistas dizem que a distância ideal para o trajeto feito por bicicleta é entre 5 e 8 quilômetros.


Para atrair mais pessoas a usarem a bicicleta como meio de transporte, Fátima Edra diz que é necessário uma nova interligação, dessa vez com diferentes modais. Ela ainda cita o bicicletário das barcas como um bom exemplo de integração. Para driblar o impedimento da distância, Claudio Santos conta que sugere o uso de bicicletas elétricas aos seus clientes, comumente mais caras que as bicicletas convencionais.


Fátima Priscila Edra concorda com o vendedor e explica que na Holanda, país referência na mobilidade cicloviária, são criadas áreas especiais para bicicletas elétricas a fim de aumentar a distância de deslocamento. O modelo holandês seria uma opção para interiorizar a estrutura cicloviária de Niterói.


- O que estão criando na Holanda são as chamadas vias aéreas, que são áreas de mais de 40 quilômetros de distância de uma cidade a outra, ou de um espaço dentro uma mesma cidade, percorrida por bicicletas elétricas. A bicicleta elétrica está surgindo como uma opção para quem tem problemas de joelho, de coluna e para atender a demanda de deslocamentos mais longos, ampliando as ciclovias para regiões periféricas - conclui ela.


* Especial para o A Seguir: Niterói