‘O modelo produtivo socioeconômico tem potencial de gerar epidemias’, diz médica da Fiocruz

Médica salienta a importância de um olhar mais criterioso para as novas variantes da Covid e adverte para a sobrecarga dos hospitais


Por Livia Figueiredo

A médica sanitarista da Fiocruz, Marcia Pacheco / Foto: Acervo


Completando um ano de pandemia em território nacional, o A Seguir: Niterói faz uma série de reportagens abordando o tema, com entrevistas de especialistas da área de saúde, profissionais que atuam na linha de frente e diversos outros assuntos pertinentes ao tema. É um olhar cuidadoso ao passado, um delineamento de tudo que foi feito, os erros e acertos, infelizmente mais erros que acertos, e um apontamento para o futuro.


O Brasil identificou a primeira contaminação pelo novo coronavírus no final de fevereiro de 2020, momento em que a Europa já registrava centenas de casos de Covid-19. Agora, em um cenário onde ainda restam dúvidas e incertezas diante das novas variantes da doença, em que se vive a ameaça constante do colapso da rede hospitalar no Brasil, a lentidão da vacinação em escala nacional acabam sendo um reflexo do que já estava pré-escrito em atitudes iniciais. O resultado não podia ser diferente: mais de 250 mil mortes oficiais, sem contar as subnotificadas, milhões de contaminados e uma aflição permanente do que parece não ter fim.


Em entrevista ao A Seguir: Niterói, a médica da Fiocruz, Márcia Pacheco, fala sobre o alto poder de infecção das novas variantes da Covid, a gestão da saúde pública no Brasil, a ineficácia do planejamento do governo federal, os efeitos da pandemia, entre outros.


- O SUS é robusto, mas precisava de um apoio maior, um investimento na atenção básica da saúde, para além dos hospitais, de maior vigilância epidemiológica, a identificação precoce dos casos, com testagem e um eficaz isolamento - afirma.


Especialista em saúde pública e mestre em Saúde Coletiva, Márcia trabalha atualmente como médica na Coordenação de Saúde do Trabalhador (CST), da Fiocruz, onde está desde 2016. Já foi médica sanitarista da UFF.


Confira a entrevista na íntegra abaixo:


A Seguir: Niterói: Quais são os principais cuidados que a população deve adotar?


Márcia Pacheco: Os principais cuidados são os ditos desde o início da pandemia no Brasil, em março, que são o uso da máscara, o distanciamento de 1,5m a 2m e a lavagem das mãos de forma constante, além do uso do álcool gel. O uso de máscara deve ser constante, tanto em lugares abertos, como os fechados. Isso é básico porque é uma doença de transmissão respiratória. A gente não poderia estar fraquejando nisso, ainda mais diante do que estamos vendo, da dificuldade do entendimento da doença. Existe um conceito chamado representação social da doença. Isso significa dizer que se algumas doenças deixam a população com mais receio e pavor do que outras, ela acaba se protegendo mais.


O que aconteceu na pandemia em relação à doença foi que as autoridades centrais desviaram o entendimento da gravidade do vírus, o que contribuiu para uma modificação dessa representação social. A doença foi naturalizada, inclusive sua forma de proteger. As medidas de prevenção sob o ponto de vista de comportamento são complexas na sociedade, vide o uso de equipamento de proteção individual para o trabalho. Tudo aquilo que interfere no comportamento, como o distanciamento social, é complexo. Não é fácil de lidar, como nenhuma doença transmissível é e tudo foi agravado pelo olhar dos governantes centrais.


Quanto às novas variantes da Covid, quais os maiores riscos?


Segundo o pesquisador da Fiocruz de Manaus, que identificou a variante, Felipe Naveca, a variante identificada no local, a P.1, infecta e circula mais rápido. Isso acontece porque ela precisa de uma quantidade menor de partículas virais para infectar. Não necessariamente implica em uma capacidade de ser mais letal. Mas como ele vai infectar mais gente, consequentemente vai ter mais gente sendo contaminada. É uma questão matemática. Se eu tenho o “R”, que é a capacidade de infectar, onde cada um infecta 1.2/1.4, elevado para 2, isso duplica tudo. São mais possibilidades. A variante P.1, a da África do Sul e a da Inglaterra têm mais poder de infectividade. Os cuidados são os mesmos. A saúde pública tem um perfil imperativo. Está certo, tem que fazer. Mas precisa entender porque as pessoas deixam de fazer o que é orientado porque isso contribui para a mudança de discurso e de comportamento. Como qualquer outro vírus, a mutação é muito rápida.


Nós vamos dar uma certa sorte porque as plataformas de vacina também têm essa capacidade de adaptar rapidamente. Tanto a vacina de vírus total, como a Coronavac e a AstraZeneca, que usam o vírus inteiro, seja inativado ou atenuado, ela provavelmente vai ter a capacidade de imunizar todas as cepas. As vacinas de fragmentos, de RNA, talvez tenham menos capacidade. Mas isso tudo é uma questão de observação. Cada dia é um dia. A mudança é muito rápida, o perfil do agravamento. A Coronavac foi rápida porque já usava uma plataforma de adenovírus, porque teve um investimento pregresso na ciência e um mínimo esqueleto da situação.


O próprio Naveca fala que se você não tiver um investimento aqui, não será possível detectar todas as mutações, porque é fundamental recurso de ciência e tecnologia no Brasil. Isso já pensando para as próximas situações de risco. H1N1 foi uma pandemia e tem pouquíssimo tempo. São 11 anos.


O Brasil está na contramão do mundo com mais de mil mortes diárias e sem um planejamento eficaz, além de poucas doses. A que você atribui essa situação atual?


Acho que isso está em acordo com as políticas que esse governo desenvolve para tudo. É um projeto político, revolucionário para a direita. Não importa como eu vou ser visto pela história. O que importa é que eu estou agindo diferente. Hoje mesmo se falou sobre uma possibilidade de ineficácia de máscaras nas crianças.


Houve uma desativação de leitos porque houve uma interrupção do financiamento, uma diminuição de repasse e uma possível não fiscalização desse recurso, o que provocou a não manutenção dos leitos. A gente não chegou a sair da primeira onda, a curva não desceu, ela fez um platô, e agora que está subindo de novo. Não há estrutura de leitos, porque ela foi desativada. No caso de Manaus nem foi feita. Pode ser em estados como São Paulo e no Rio reativem os hospitais de campanha, mas até aonde a gente já sabe foram desativados. Leito é caro.


Em Wuhan, foi feito um investimento no modelo hospitalocêntrico. Fizeram um hospital em uma semana e todos queriam seguir o modelo de Wuhan. Não adianta fazer um hospital rapidamente e esquecer da atenção básica do posto de saúde. A atenção que o posto deve ter quando for a domicílio, orientando as famílias no isolamento.


E depois se descobriu que o assintomático transmitia o vírus e ai já era tarde um pouco porque as pessoas já não estavam usando máscara. O uso de máscara era para ser intensificado desde o começo pela OMS. Se a gente tivesse ido por uma outra direção, colocando a importância da prevenção, tido seriedade na estrutura de investimento no SUS para além do que ele é, estaríamos em outro lugar agora. O SUS é robusto, mas precisava de um apoio maior; um investimento na atenção básica da saúde, além dos hospitais, de maior vigilância epidemiológica, na identificação precoce dos casos, com testagem, isolamento. Teríamos a possibilidade de ter outro cenário, com menos óbitos.


A doença é grave, complexa e a transmissão é rápida. Nós fomos atropelados por um governo com um projeto político claro, o de desmonte do estado. E quando você desmonta o estado, desmonta a saúde pública. O modelo produtivo socioeconômico tem potencial de gerar epidemias. Não houve subsídio para estruturar a mudança e algumas pessoas foram obrigadas a continuar trabalhando e, consequentemente, ficaram sujeitas à exposição. O auxílio emergencial demorou para que as pessoas que tivessem necessidade ficarem em casa. Os postos de trabalho não foram adaptados, muito menos o modelo produtivo.


Como você avalia a situação de gestão da saúde pública no Brasil?


O SUS é um dos maiores sistemas universais públicos do mundo porque ele cobre 210 milhões de habitantes. Mesmo que você tenha plano de assistência médico privado ou empresarial, você não deixa de ser coberto pelo SUS. Se você tem um plano de assistência médica, você é duplamente coberto. O SUS tem um subfinanciamento crônico desde quando ele nasceu. Mesmo com esse subfinanciamento, ele dá conta ou chega próximo disso. Se não fosse o SUS, o caos seria muito pior. Não tenho nenhuma dúvida disso. A gestão do SUS é descentralizada, principalmente a questão operacional, que fica sob gestão municipal. Ele é um sistema universal, integral e descentralizado.


Eu acho que os municípios responderam dentro do que foi possível, levando em consideração a descontinuidade e a dificuldade do Ministério da Saúde. Os governadores tentaram, os secretários de saúde tentaram, mas a postura do então ministro Mandetta, no que tange à pandemia, foi uma postura republicana e técnica. Depois da saída dele, tudo tomou um novo rumo e ficou difícil. Não surpreende porque mesmo se tivéssemos com todas as condições boas, não seria fácil, até pelas próprias características da doença e da pandemia. Assim como não é fácil qualquer agrave da saúde pública, como a dengue, a zika. Os agraves são de difícil gestão. Não é nada simples.


O que irá mudar pós-pandemia em termos sociais? Ainda iremos usar máscaras por muito tempo e nos imunizar de forma recorrente?


Existe uma corrente de virologistas e epidemiologistas que apontam que a doença pode se tornar endêmica, assim como a influenza, que tem uma sazonalidade, mas está entre nós. A Covid-19 ficaria entre nós também, com o recrudescimento no inverno ou algum outro período de sazonalidade do ano. Tem um outro grupo que acha que de repente a Covid pode ter um esgotamento transmissão e sumir, com aconteceu com a Zika, devido à mutação viral.


Quanto à questão social, não estamos mudando. Não conseguimos fazer um lockdown, não fazemos distanciamento social. Algumas pessoas que estão isoladas em casa estão por medo. Mas aquelas que estão morando com a família, os parentes estão saindo, seja por necessidade de trabalho, seja porque estão optando por fazer um lazer, desistindo do distanciamento. Então, sob o ponto de vista de comportamento, acho que vai mudar pouca coisa, porque se não, nós já estaríamos nesse processo de transformação e isso não está acontecendo no Brasil e nem no mundo. Praias lotadas na Inglaterra no verão, estações de ski na Suiça, na Bélgica e na França.


As pessoas não querem abrir mão daquilo que elas habitualmente fazem e entendem como vida. Elas entendem o estilo de vida sob um modelo X e vão fazer de tudo para continuar com aquele modelo, mesmo que isso vitime 250 mil pessoas. Você teria que mudar a vida, inclusive o processo produtivo. Eu não posso continuar com o modelo de trabalho do jeito que ele é, com modelo de transporte, ir para festas e se aglomerar. Em julho/agosto do ano passado as pessoas já estavam voltando ao ritmo que era em março porque não tiveram subsídio econômico para mudar.


O uso de máscara vai seguir necessário, assim como todos os cuidados de higienização e distanciamento social até que a gente observe efetivamente a interrupção da transmissão.


Como é sua rotina de trabalho? Há quanto tempo trabalha na Fiocruz?


Como eu tenho 60 anos, a Fiocruz me colocou em home office e eu comecei a trabalhar nesse modelo logo em meados de março. No dia 30 de março eu já estava trabalhando na plataforma que a gente montou na Fiocruz voltada para o atendimento aos trabalhadores, bolsistas, alunos, enfim, para toda a comunidade da Fiocruz. Somos uma equipe multiprofissional: temos enfermeira, psicólogo, eu, como médica, também sou integrante da equipe de produção do boletim de vigilância epidemiológica para os trabalhadores da Fiocruz, já que eu trabalho com o público interno, na Coordenação de Saúde do Trabalhador.


No primeiro momento, foi difícil porque é complexo fazer telemedicina, você não está vendo o paciente. Eu tenho estudado bastante, assistindo a muitas lives de colegas de outras unidades da Fiocruz. Essa questão da troca e apoio profissional foi muito importante para mim. Foi complexo de inicio, mas nada como uma equipe multiprofissional em conjunto.

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