Assassino de Vitórya era 'dramático e manipulador', dizem pessoas próximas

Matheus dos Santos demonstrava obsessão pela jovem e a perseguia para conseguir atenção, segundo fontes ouvidas pelo A Seguir: Niterói


Por Amanda Ares

Matheus dos Santos tinha um perfil socialmente recluso, mas insistia em receber atenção virtual de amigas. Imagem de rede social


De poucos amigos, recluso, e mais comunicativo no mundo virtual do que no real, com tendência a assediar digitalmente as amizades femininas. Assim amigos da jovem vítima de feminicídio Vitórya Melissa e fontes ouvidas pelo A Seguir: Niterói descreveram a personalidade do assassino Matheus dos Santos, preso após matar a jovem a facadas na praça de alimentação do Plaza Shopping de Niterói. O rapaz de 21 anos se sentia mais à vontade entre os personagens de seus jogos on-line, e canalizava toda a necessidade de socialização e afeto para algumas amigas virtuais de forma insistente e passivo-agressiva.


Leia mais Juíza destaca 'crueldade e ousadia' de acusado de matar Vitórya


Gabriela* é gamer e conhecia Matheus há dois anos. Ela não imaginava que ele pudesse ter uma personalidade violenta. Eles se tornaram amigos jogando on-line, e acabaram se aproximando pelas redes sociais. Ela conta que, apesar de nunca ter encontrado com ele pessoalmente, conversavam muito, mas às vezes precisava se afastar dele pois Matheus demonstrava uma grande necessidade de atenção:


- Ele era aquele tipo de cara carentão que dizia "por que vc não me responde ? ", " Eu não sou importante ". Dramático e manipulador.


Ela conta que Matheus nunca demonstrou muito interesse por outras garotas até conhecer Vitórya. Os comentários sobre a colega do curso de enfermagem passaram a ser frequentes, mas ele mantinha o sentimento oculto. A família e amigos da vítima afirmaram em depoimento à polícia que os dois sempre foram apenas amigos, e que o jovem era tímido e recluso.


- Ele fazia com frequência comentários carinhosos sobre ela, chegou até a fazer poemas para ela, e recentemente ele disse que tinha criado coragem de falar sobre o sentimento dele e que estava ansioso - contou um amigo dele.


A jovem Gabriela, cujo nome real foi preservado, também se disse chocada com o crime, pois Matheus dizia ser uma pessoa calma e contra a violência. Em um postagem, dias depois do crime, ela concluiu: "A gente não conhece mesmo ninguém".


Desabafo de amiga virtual de Matheus. Ela disse ao A Seguir: Niterói que às vezes precisava se afastar dele pois ele era muito carente. Print de rede social


Manipulação emocional


Mesmo apenas pelas conversas nas redes sociais, Gabriela percebia um excesso de esforço dele em manter proximidade com Vitórya, através de comentários e conversas que forçavam uma intimidade a que ela parecia não corresponder:


- Ele se referia a Vitórya como uma deusa colossal, e falava bastante dela pra mim.

Eu nunca conversei de fato com a Vitórya, mas ele estava sufocando ela com esse amor banal dele, e ela queria se desprender disso, mas infelizmente ela não tinha escapatória.


Uma outra conhecida de Vitórya disse ao A Seguir: Niterói que reparou que, semanas antes do crime, Matheus comentava frequentemente as postagens de Vitórya nas redes sociais, mas ela parou de responder.


Gabriela percebeu que a recusa de Vitórya causou grande frustração em Matheus, que não teria administrado bem a rejeição:


- Na sexta-feira ele falou sobre isso pra ela, se declarou, e ela não reagiu como ele esperava, ela não queria estragar a amizade deles, que pra ela era importe demais, ela tinha ele como um grande amigo. Ele falou sobre isso comigo de noite, super frustrado e bravo.


Leia mais 'Não é não, e o homem tem de aceitar', diz mãe de jovem assassinada no Plaza


A jovem diz que ainda se comunicou com Matheus na noite antes do crime, quando ele disse que marcaria um encontro com Vitórya para, supostamente, conversar e manter a amizade:


- Na terça à noite ele me mandou mensagem dizendo que ia ver ela no almoço para tentar reverter o ocorrido e pelo menos manter a amizade, mas pelo que podemos ver nas imagens as intenções dele não eram essas.


Personalidade reclusa


Após ser preso em flagrante, Matheus não quis responder às perguntas da polícia. Ele se manteve de cabeça baixa, e não demonstrava qualquer emoção. Sua mãe esteve na delegacia para depor e negou que o filho tivesse algum distúrbio psiquiátrico diagnosticado. Câmeras de vídeo da segurança do shopping flagraram o jovem esfaqueando a amiga, o que, segundo policiais, não deixa dúvidas sobre a autoria do crime.


Amigos de Vitórya disseram à polícia que Matheus tinha sérias dificuldades de se relacionar pessoalmente, mas que se comunicava bem por mensagens e que "nutria um amor não correspondido" pela vítima.


Uma amiga de Vitórya, Ana, que também estudava com ela e Matheus no curso técnico de enfermagem no Senac, disse em depoimento que Matheus e Vitórya eram amigos, e que após saber dos sentimentos do colega, Vitórya pedira que a amiga conversasse com o rapaz para consolá-lo. Matheus não aceitou o afastamento da amiga.


"Ele acreditava que Vitórya poderia ser mais respeitosa sobre esse assunto. Para não dar qualquer esperança ao Matheus, ela optou por se distanciar e não mais manter uma relação de amizade tão próxima, e este distanciamento provocou a ira do rapaz, que afirmou estar sendo desrespeitado por Vitórya, alegando imaturidade da mesma. Ele chegou a escrever o palavrão 'foda-se' em conversa junto à declarante, referindo-se a continuidade do comportamento desprezível por parte da Vitórya", disse a testemunha em depoimento.


Prisão preventiva decretada


Matheus teve prisão preventiva decretada nesta segunda-feira (7) pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Na decisão, a juíza Rachel Assad da Cunha considerou que a “gravidade da conduta é extremamente acentuada”, pelo fato de Matheus ter matado “a própria amiga por quem, segundo informações dos autos, nutria sentimentos não correspondidos”. A juíza ainda considerou que "a crueldade e a ousadia do crime demonstram a inadequação do agressor ao convívio social".


*O nome foi trocado para proteger a privacidade da fonte.