Aumento de internação de jovens por Covid agrava colapso de hospitais

Pacientes jovens ocupam leito por mais tempo porque as possibilidades terapêuticas são mais abrangentes, diz especialista


Por Livia Figueiredo e Amanda Ares

Profissionais da linha de frente socorrem paciente em UTI de Covid/ Foto: Reprodução da internet


Os hospitais de Niterói, como de outros municípios, estão perto do limite, com mais de 87% das UTIs para Covid ocupadas na rede pública e mais de 90% nas unidades privadas. Uma das causas desse aumento de pacientes internados com Covid, segundo especialistas, é a contaminação de pessoas mais jovens e o tempo maior de internação, já que resistem mais. As estatísticas provam isso, assim como o relato dos médicos.


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Em conversa com o A Seguir: Niterói, o médico Raphael Bastos, que trabalha em hospitais privados de Niterói e é chefe de equipes de transporte de pacientes graves no Samu, diz que este é o pior momento da pandemia e que a pouca disponibilidade de leitos faz com que as pessoas demorem a conseguir internação e até mesmo a intubação de que precisam.


As razões da tragédia


Perda do medo de contrair a doença, alta transmissibilidade das variantes do vírus, efeitos de um lockdown flexível. São diversas as possibilidades que ajudam a explicar a sobrecarga dos leitos hospitalares com pacientes de Covid-19, especialmente agora os mais jovens.


O médico anestesista considera que o aumento no número de pacientes com quadro grave da Covid que chegam aos hospitais também pode estar relacionado com o cansaço, emocional e físico, que as pessoas sentem após um ano de pandemia. Segundo Raphael, as pessoas perderam o medo de se contaminar e estão relaxando com as medidas de isolamento social. Isso acaba provocando a circulação do vírus em larga escala, o que não acontecia tanto no começo da pandemia, em março de 2020:


- As pessoas tinham muito medo de ter a doença. Hoje a gente vê que as pessoas não aguentam fazer um lockdown efetivo. O medo da doença também diminuiu e isso gerou uma maior infecção em um maior número de pessoas e, estatisticamente, quanto mais gente infectada, mais gente chega em estado grave e precisa do hospital e isso tudo levou a uma superlotação a níveis que jamais foram vistos antes - diz.



O anestesista de hospitais particulares de Niterói Raphael Bastos / Foto: Acervo pessoal


Sobre o aumento de jovens que necessitam de UTIs, ele considera que há dois fatores que podem ajudar a explicar a situação atual: um deles é que o acometimento da doença em maior escala na população levou a uma maior gravidade em pacientes mais jovens e o outro é maior índice de idosos já vacinados, acima de 70 anos, além da grande grama de idosos que já que foi infectado pela doença no início da pandemia.


Sem dúvida o jovem ocupa o leito por mais tempo, diz médico


A população mais jovem, por ser mais prevalente, foi atingida de forma mais abrangente. Ele diz que percebeu uma alta de pacientes na faixa de 45 a 55 anos, além da recorrência de pacientes mais jovens em hospitais.


- Sem dúvida alguma o paciente jovem ocupa o leito por mais tempo porque as possibilidades terapêuticas são mais abrangentes. Eles costumam ficar mais tempo porque dispõem de mais alternativas de recuperação ao longo do processo. O pulmão pode cicatrizar por mais tempo porque é um paciente que aguenta essa agressão por mais tempo, e o resultado disso é um agravamento em termos de disponibilidade de leito - explica.


Sobre a variante P1


Segundo o médico, a variante P1 é a mais dominante no Sudeste devido à sua alta transmissibilidade e, em alguns casos, teoricamente mais agressiva. Isso não quer dizer que o paciente vai chegar ao hospital com o pulmão mais acometido porque a variante é mais grave. O que acontece é que a pouca disponibilidade dos leitos faz com que as pessoas demorem a ser internadas ou até mesmo intubadas:


- As pessoas já chegam numa situação mais crítica e isso tem a ver com o colapso do sistema de saúde como um todo. E a gente acaba vendo pacientes com acometimento pulmonar e ventilação mecânica com maior gravidade. Não necessariamente devido à gravidade da variante em si, mas pelo colapso do sistema de saúde e a sobrecarga dos leitos hospitalares.