Banda Tereza lança disco com integrantes 'solitariamente juntos'

Atualizado: Fev 18

'Animes, Kylie Jenner, Glocks e Remédios' é o título do novo trabalho do grupo indie que faz história em Niterói desde 2009


Por Livia Figueiredo

A banda Tereza, um dos nomes da cena independente de Niterói / Foto: Fábio Seixo


“Animes, Kylie Jenner, Glocks e Remédios”. O título do novo álbum da banda Tereza desafia até os seguidores mais fiéis da banda indie formada em Niterói e hoje espalhada por Brasil, Estados Unidos e Portugal. Mas esse ano de pandemia ajuda explicar, quando o tempo parece parar e um monte de coisas passam pela cabeça de todo mundo. O disco é isso, um convite a pensar.


Em uma era de singles, chama a atenção quando artistas apostam no formato do álbum. Enquanto os singles funcionam como vitrine para artistas, pois são mais comerciais, além de serem portas de entrada para playlists, os discos contam histórias com início, meio e fim e oferecem uma experiência mais completa para o ouvinte.


- O disco é um desejo artístico de dividir sua visão com sua audiência. Acho que essa é a importância do formato: transmitir uma coerência na perspectiva que você divide com o público. Tem todo um conceito, uma linha de pensamento por trás. É dividir algo maior com seu público. Não é mais uma história e, sim, uma forma de se pensar. Claro que, no quesito de marketing, o single é mais favorável – analisa o guitarrista e tecladista da banda Tereza, Mateus Sanches.


A banda Tereza faz parte do cenário musical independente da música brasileira. Indie em português, quando poucas bandas se arriscavam a percorrer este caminho pavimentado em inglês. Tem três discos: "Vem ser artista aqui fora"(2013), "Para onde a gente vai"(2015) e este agora "Animes, Kylie Jenner, Glocks e Remédios”. Músicas como "Vamos sair para jantar", "Para onde a gente vai", "Calçada da batalha", "Sonhos de Kassin" e "Adidas" frequentam as playlists. O clipe de Sandau já foi visto por mais de um milhão de pessoas.


A Tereza foi formada em 2009 por um grupo de alunos do Instituto GayLussac, que se reuniam para tocar violão, participando de encontros promovidos pela escola. João Volpi, Mateus Sanches, Rodrigo Martins, Sávio Azambuja e Vinícius Louzada. Passado o período escolar, as primeiras composições começaram a ser produzidos, assim como a formação de arranjos. E foi com esse propósito que a banda nasceu, da necessidade de arranjar as próprias composições em um formato mais profissional. Conforme se apresentavam, novas portas eram abertas, o que estimulou a levarem o projeto adiante.

A banda construiu uma sonoridade entre o Indie e o pop/rock alternativo e, já em 2012, recebeu o Prêmio Multishow de Música Brasileira, na categoria Experimente.


A pandemia, antes e depois


Mateus conta que o processo de produção do disco começou quando a banda se deu conta de que tinha um conjunto de músicas inéditas, com potencial para compor um disco. Ele diz que juntas elas apresentavam um conceito amarrado, uma coerência. A produção começou antes da pandemia mas avançou pela quarentena prolongada de 2020. O processo, como era de se esperar, foi diferente do que a banda tinha vivido até agora. Para começar, dos cinco integrantes da banda, dois estão morando fora do Brasil: Rodrigo, o baterista, está em Boston, e o guitarrista/tecladista Sávio está em Lisboa. A distância, de certa forma, já estava emaranhada no processo de criação do álbum.


A gravação, depois de dois anos sem apresentações, reflete os horizontes percorridos pelos integrantes da banda. O disco tem como uma de suas principais referências o shibuya kei, gênero de música pop japonesa dos anos 90 que buscava referências da música ocidental. Abraça o jazz e a Bossa nova.


Processo mais solitário


Diferente dos outros discos, Mateus conta que outra diferença foi o processo de composição da banda, que, dessa vez, se deu de forma mais individual. No trabalho antecessor, todos contribuíram de alguma forma. Enquanto nesse a composição foi mais solitária. Para ele, o maior desafio foi alcançar um resultado almejado pela banda, ainda que cada integrante da banda estivesse focado em projetos paralelos.


- Nos reunimos na casa do vocalista, o Vinícius, onde também produzimos nosso último álbum. Lá, a gente decidiu o que entraria no disco e o que ficaria de fora. Fizemos a pré-produção, já gravando alguns arranjos no computador. Depois, levamos para o Kassin e eu arrematei com ele, produzindo as versões finais das canções – contou.


Sonhos de Kassin


A história com Alexandre Kassin, que produziu discos de artistas como Los Hermanos, Adriana Calcanhoto, Tim Maia e Dado Villa-Lobos, não é de agora. A parceria remonta a 2017, quando a banda lançou um single chamado “Sonhos de Kassin”, que possui uma temática semelhante ao álbum “Sonhando devagar” do artista e produtor. Tudo começou com o que era para ser apenas uma homenagem e acabou gerando uma parceria no mais novo trabalho da banda Tereza.


- Na época que eu fiz essa homenagem ao Kassin, ele enviou um e-mail para a banda elogiando o single. Quando a gente estava com as músicas novas, que viriam a compor o álbum novo, eu resolvi mandar um e-mail para ele, mostrando algumas músicas e ele convidou a gente para visitar o estúdio dele. Foi então que começamos a falar do álbum. Tudo acabou acontecendo de forma bem natural – explica Mateus.


Importância dos clipes continua atual


Para o músico, os clipes seguem com a mesma importância que possuíam no tempo auge da MTV. Ele acredita que hoje, mais do que nunca, há um consumo maior das obras do que dos artistas e o legado que eles deixam, o que explica essa força do single, muito impulsionada pelo alto consumo dos videoclipes, que são os carros chefes dos artistas. “Os clipes são produtos muito fortes, são eles que alavancam os singles majoritariamente nesse formato de consumo pelo celular, de Youtube e tudo mais”, explica.


Nas redes sociais, é possível encontrar os clipes da banda. Mas apenas duas músicas exibem vídeos, Friday e Glocks e Remédios, gravados antes da pandemia, além do lyric vídeo de Oro, parceria com Kassin.



Ao mesmo tempo, Mateus diz que a banda não tem mais a pretensão de produzir um clipe muito popular, que atenda aos preceitos comerciais. Por conta disso, o clipe se distancia um pouco do ponto de vista de objeto de divulgação do trabalho da banda e passa a adotar uma perspectiva mais atrelada ao complemento da música, de suporte da obra. Por enquanto, não há planos para lives, já que a banda está praticando o distanciamento social por conta da pandemia da Covid, o que impediria essa proximidade no momento, mas algumas ideias de clipes já estão sendo estudadas para um futuro próximo.