Bichos invadem Niterói

Cidade fica mais tranquila com bloqueio das ruas e animais silvestres ganham espaço


Por Lea Cristina


Bastou uma noite. Ao acordar em casa em abril, depois de dois meses fora do país, uma família de Pendotiba ficou impressionada com o canto da passarinhada. Afinal, antes da quarentena, a intensidade não era aquela. Uma mudança que atinge muita gente na região: ali, é fácil observar como o som de maritacas, sabiás e bem-te-vis ganhou frequência e nitidez. Assim como o assobio de micos-estrelas e os voos rasos de beija-flores.


- Estamos ouvindo muito mais a natureza - compara Eloiza Torres, a moradora recém-chegada.


Em São Francisco, são as borboletas que andam chamando a atenção. O que importa se a estação delas é a primavera? Nada. Resolveram dar o ar da graça em diferentes pontos do bairro. Já no fim da Rua Gavião Peixoto, em Icaraí, a professora Cláudia Regina Ribeiro lembra, com saudades, do extremo silêncio da primeira semana do isolamento social, que permitiu que ela ouvisse um pássaro diferente de todos ali:


- Há uma mata atrás do meu prédio, e normalmente escuto vários cantos. Mas naqueles dias ouvi algo raro.

Não só ela ouviu. Filó, sua gatinha, também. Cláudia chegou a fazer um vídeo de Filó com a atenção voltada para o tal pássaro.

Ainda na região de Pendotiba vivem tamanduás, pica-paus, preguiças, corujas, tatus, entre outros. Na Serra da Tiririca, encontra-se, com certeza, o macaco Bugio. Espécies que, com a redução do movimento na cidade, especialmente de veículos, têm se sentido mais à vontade para, digamos, sair da toca. O que acaba resultando na impressão de que a quarentena está contribuindo para a reprodução de animais silvestres. Em Itaipu os tucanos têm surpreendido moradores ao sair das matas e até entrar nas casas.

O diretor do Instituto Vida Livre, Roched Seba, não pensa exatamente assim. Ressaltando que todas essas espécies sempre estiveram circulando pelo município, ele diz que, ao ficar em casa, as pessoas acabam observando melhor a movimentação delas. Mais: segundo ele, ainda não dá pra medir se o distanciamento social vem produzindo recuperação da fauna.


- Quarenta dias é muito pouco para se avaliar se a redução da poluição atmosférica está impactando o aumento das espécies - garante o ambientalista, para quem, pelo contrário, o recolhimento social inviabiliza a atuação da fiscalização, o que se traduz em risco maior para o meio ambiente:

- Bandido não faz quarentena.

Seja como for, em Niterói, cidade já apontada pela mídia internacional como exemplo no combate ao novo coronavírus, o isolamento diminuiu a cada dia, até começar o lockdown nesta segunda-feira (11). Os dados são da In Loco, empresa que calcula o grau de adesão ao distanciamento social, a partir da geolocalização dos celulares da sua base de usuários: a taxa caiu de 69,09% (no início da quarentena, em março) para 51,9% no último dia 4 de maio. Mas já voltou a subir com o lockdown.

Por essas e outras, apesar de estar aproveitando a movimentação dos bichos a seu redor, a moradora de Pendotiba se disse chocada - na semana retrasada, quando ainda não se falava em lockdown - com o comportamento dos niteroienses na comparação com o dos portugueses. Em todo o tempo em que ficou na cidade do Porto, ela fez apenas duas ou três caminhadas, de 30 a 40 minutos, em torno de um quarteirão da região da Trindade, o equivalente ao bairro do Ingá. Encontrava, no máximo, três pessoas, por vez:


- Aqui, por todo lado, tem muita gente. E lá, todos, todos, usavam máscara _ repete Eloiza.


Mas se a redução do nível de isolamento tende a afastar a bicharada, nos serve de consolo saber que Niterói é habitat para inúmeras espécies de animais silvestres. E que, por seus 123,2 metros quadrados de área verde por habitante, é exemplo de desenvolvimento ambiental, segundo a FAO/Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.


Veja vídeo com a invasão das maritacas:


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