Bolsonaro festeja suspensão de testes de vacina chinesa contra a Covid

Atualizado: 11 de Nov de 2020

Presidente diz que “ganhou” disputa com o governador de São Paulo e que Brasil precisa deixar de ser "um país de maricas"


Bolsonaro festeja atraso em teste da vacina contra a Covid


No momento em que o mundo todo acompanha as pesquisas para o desenvolvimento de uma vacina contra a Covid, o Presidente Jair Bolsonaro festejou a decisão da Anvisa de suspender o testes da Coronavac, o imunizante chinês desenvolvido pelo laboratório Sinovac Biotech. " Mais uma que o Jair ganha", afirmou. A vacina está sendo testada no Brasil, sob a coordenação do Instituto Butantan, de São Paulo, numa parceria que garantirá a produção do imunizante ao país. Niterói participa dos testes, com mais de mil voluntários, profissionais da área de Saúde que já receberam as duas doses da vacina.


A decisão de suspender os testes no Brasil foi da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, um órgão técnico, coordenado por um aliado do presidente, o contra-almirante, Antônio Barra Torres, que costumava acompanhar Bolsonaro em suas aparições diante dos seguidores à porta do Palácio do Planalto, sem usar máscaras, uma recomendação da OMS.


Desde o começo da pandemia, e do discurso negacionista do Presidente, que via na Covid uma gripezinha, a Saúde é alvo da interferência de Bolsonaro. Cansado de tourear com o Ministério da Saúde, desistiu de ter um médico no cargo e nomeou um militar especializado em logística para a função, o general Eduardo Pazuello. O presidente interfere nas decisões técnicas do ministério desde que defendeu o uso da cloroquina e mais recentemente do vermífugo Anitta no tratamento da Covid. No mês passado, desmentiu o ministro depois que Pazuello anunciou acordo com a Sinovac para a compra da vacina. Nas suas redes, o Presidente disse, então, que o Brasil não compraria a vacina chinesa. O episódio foi encerrado com um encontro dos dois em que o ministro resumiu a situação: “É simples assim, um manda, outro obedece.”


A decisão da Anvisa lança mais uma suspeição sobre a politização de uma área que deveria ser técnica e é fundamental no momento que o país já enterrou mais de 160 mil mortos pela Covid. A suspensão não foi determinada pela comunidade científica internacional, como aconteceu recentemente com a vacina Oxford, que paralisou seus testes para avaliar uma morte. Mas pela Agência de Vigilância Sanitária de Bolsonaro, sem apresentar qualquer dado que justificasse risco na testagem.


Segundo o Instituto Butantã, a decisão surpreendeu a comunidade científica. Foi o próprio instituto que notificou a morte à Anvisa e já informava no relatório que a morte não tinha relação com o teste. O Butantã coordena a realização de testes da vacina da fase-3, a última para a certificação do imunizante e liberação comercial. Cerca de 20 mil pessoas estão sendo testadas no Brasil. Niterói participa do acordo e mais de mil voluntários receberam a vacina. O acordo de cooperação garante ao Brasil 46 milhões de doses da vacina e a possibilidade de fabricação de mais 60 milhões de doses, em um prazo de um ano. A disponibilização das vacinas de Oxford e da Pfeizer não seria tão rápida.


Diante dos questionamentos sobre as restrições à vacina chinesa manifestados pelo Presidente, o governo chegou a anunciar que vai “comprar e disponibilizar qualquer vacina contra a covid-19 que passar pelo aval do Ministério da Saúde e for certificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).” Nesta segunda-feira, a Anvisa se manifestou.


O presidente Jair Bolsonaro tem se mostrado incomodado com a parceria da indústria chinesa com o governo de São Paulo. Considera João Dória seu adversário político e tenta desqualificar a iniciativa do governador. As restrições à vacina chinesa passam por essa disputa política - considerando que a China é o maior parceiro comercial do Brasil e o governo federal não cogitou suspender outras transações comerciais.


Depois da divulgação da decisão da Anvisa, o Presidente festejou a suspensão dos testes - numa reação inusitada quando o mundo aguarda o sucesso das vacinas que estão sendo testadas, não o seu fracasso. Ele postou nas redes sociais: "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", escreveu Bolsonaro.


Mais tarde, diante toda a repercussão do caso, quando teve a chance de ponderar melhor seus comentários, Bolsonaro disse que é preciso encarar os fatos, um dia todos vamos morrer: "Tem que deixar de ser um país de maricas."


Provavelmente, será o primeiro governante do mundo a festejar um revés da ciência, que pode levar à morte milhares de pessoas. Alguém capaz de tratar como vitória uma derrota da humanidade. “Mais uma que Jair ganha.” E nós perdemos.