‘Cada dia que passa, perdemos mais pessoas’, diz médico de Niterói sobre a Covid

Atualizado: Abr 23

Pedro Archer, que atua em hospitais de Niterói e do Rio, fala sobre a sobrecarga dos profissionais e da importância das restrições


Por Livia Figueiredo

Pedro Archer é médico e presidente da Beneficência Portuguesa de Niterói. Arquivo Pessoal


"Estamos todos esgotados e no limite. Já estamos com falta de médicos nos hospitais porque os profissionais de saúde estão diminuindo a carga horária, pois não estão conseguindo mais dar conta. A gente pede o apoio da população para que ela se cuide e leve a sério essa pandemia porque quanto mais o vírus circula, mais ele tem possibilidade de sofrer mutação e maior a chance de as vacinas não se mostrarem tão eficientes, com as novas variantes da Covid-19".


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O depoimento é do médico Pedro Archer, mas poderia se aplicar a qualquer profissional de saúde que vive um período de exaustão que já perdura por mais de um ano. Agora, com a flexibilização e a reabertura de diversas atividades consideradas não essenciais desde esta segunda-feira (19) em Niterói, a tendência é de uma nova onda de alta de internações em hospitais.


— Em vez de ir para rua reclamar de medidas para combater o coronavírus, as pessoas deviam questionar por que não tem vacinação em massa. Os Estados Unidos, por exemplo, já está vacinando os jovens, enquanto no Brasil ainda estamos imunizando idosos na faixa dos 60. O Brasil, que tem um dos maiores sistemas de saúde do mundo, ficou para trás — ressaltou.


Profissional da linha de frente de hospitais públicos de Niterói e do Rio e presidente da Beneficência Portuguesa de Niterói, Pedro Archer, de 33 anos, ressalta que os frutos do fechamento do lockdown só serão possíveis de ser colhidos em torno de três semanas. Ele afirma que no momento ainda não é possível mensurar os efeitos das medidas mais restritivas adotadas há poucos dias na cidade, já que tem o período de incubação do vírus, a apresentação dos sintomas, a sua disseminação e, em casos, mais graves, a internação.


Medidas coordenadas


Pedro aponta que uma questão desfavorável para Niterói foi que apenas a cidade adotou medidas mais rigorosas de combate à Covid, enquanto os municípios vizinhos não colocaram em prática restrições adequadas ao momento. O resultado é um grande número de pacientes vindos de cidades vizinhas que precisam de internação, principalmente de São Gonçalo. Segundo ele, a situação é mais grave quando se leva em consideração que o hospital referência de Covid em Niterói está regulado para o estado inteiro.


— Acho que deveria ter um consenso pelo menos na Região Metropolitana II para que possa ser feito um lockdown em conjunto, de medidas alinhadas. No entanto, temos a questão financeira envolvida e ela deve, sim, ser levada em consideração. A saída, nesse caso, é o investimento pesado na fiscalização das ruas e dos estabelecimentos. Mas, ao mesmo tempo, o sistema de saúde está em colapso, tanto em Niterói quanto no Rio de Janeiro — destacou.


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Pedro diz que a cada dia que passa sem vacinar um número considerável de pessoas, mais óbitos ocorrem nos hospitais e mais pacientes são internados. Ele define a situação atual como uma “corrida contra o tempo” e considera a postura do Ministério da Saúde como uma das principais causas para a situação atual, já que não houve de imediato uma organização em relação à vacinação, como um planejamento mais eficaz de aquisição dos imunizantes .

— Cada dia que passa, são mais pessoas que perdemos. Caso houvesse vacinação em massa, não teríamos que tomar medidas mais drásticas. O lockdown é uma medida extrema, mas estamos passando por um período extremo — alertou.


Reabertura gradual


O médico diz que é possível uma reabertura progressiva no momento, desde que seja fiscalizada com regularidade e não tenha aglomeração em larga escala, como acontece em festas, shows e bares. Ele reforça que o grande foco da disseminação da Covid é através da aglomeração ou em um ambiente de pessoas sem máscara e não tanto em superfícies de contato, como se imaginava no início da pandemia.


Contudo, isso não quer dizer que essas medidas de precaução devem ser abolidas, pelo contrário, elas devem continuar sendo tomadas, com a higienização adequada e uso de álcool em gel. Quanto aos restaurantes, o médico afirma que o planejamento da flexibilização deve ser ainda mais cauteloso, já que as pessoas inevitavelmente irão tirar as máscaras para comer e conversar, portanto a circulação do vírus é ainda maior.


Em relação à volta das aulas presenciais das escolas, o médico foi bem taxativo: retorno apenas com a vacinação dos profissionais de educação:


— Acredito que só seja possível a volta do modelo presencial com a vacinação nos profissionais de educação, já que a maioria dos professores pertence ao grupo de risco da Covid — ponderou.


Após um ano de pandemia, o médico afirma que o país está passando por uma terceira onda, no entanto a diferença é que, com as variantes, a doença ganha uma evolução muito maior e mais grave, além do fato que pacientes mais jovens, muitas das vezes sem comorbidade, acabam sendo internados e algumas das vezes, intubados. O resultado é o esgotamento mental e físico do corpo médico e a sobrecarga dos leitos hospitalares. Enquanto antes do surgimento das novas cepas, os pacientes chegavam em estado menos grave, agora o cenário é ainda mais agravante.


— Os pacientes chegam com o pulmão mais tomado, mesmo sem apresentar comorbidades.


Kit intubação


Em relação ao kit intubação e à oferta de insumos, Pedro diz que não teve problemas até o momento nesse sentido em Niterói, embora a cidade esteja chegando ao limite devido à deficiência do mercado tanto para os hospitais públicos, quanto privados. O médico reforça que não há nenhum tratamento precoce ou remédio que cure a doença. A estratégia que deve ser repetida à exaustão é usar a máscara, o distanciamento social e a vacinação em massa.


Presidente da Beneficência Portuguesa de Niterói, Pedro assumiu o cargo no final de 2020. Ele diz que no momento está unindo esforços para articular com a Prefeitura e a Secretaria de Saúde o que pode ser feito no Hospital Santa Cruz.


- O Hospital Santa Cruz é basicamente um patrimônio da cidade. Ele exerce um papel histórico importante. As pessoas têm uma relação com o local, seja porque passaram por lá como paciente, seja trabalhando como profissional de saúde - completou.


O Hospital Santa Cruz, localizado no centro de Niterói, é uma unidade hospitalar que pertence à Sociedade Portuguesa de Beneficência de Niterói (SPBN). No momento, encontra-se desativado.