Centro de Artes UFF exibe ciclo de cinema indígena no mês de abril

Mostra on-line com coletivos indígenas será realizada toda quinta-feira e tem como objetivo marcar a luta do cinema nacional


Por Livia Figueiredo

Foto: Divulgação


"A falta de espaço nos cinemas, nos canais de TV e nas plataformas de streaming é um reflexo tanto da violência, exclusão e repressão dos povos indígenas no país como também das pouco diversas e representativas políticas para o audiovisual." A fala é do coordenador do Centro de Artes UFF, Pedro Gradella. É partindo dessa premissa que a UFF está exibindo o ciclo de cinema indígena “Nativas Narrativas”, com transmissão realizada na página do perfil do facebook do Centro de Artes UFF toda quinta-feira de abril, às 19h. A primeira sessão, que marcou o mês de abril de visibilidade indígena e de diversidade cultural dos povos originários, teve como tema “Encontros e Caminhos de (Re) Existência”.


O Ciclo "Nativas Narrativas" é fruto da parceria entre o coletivo indígena Ascuri e a Rede CineFlecha e traça um abrangente panorama da mais recente produção audiovisual indígena. A maior parte dos filmes que serão transmitidos ao longo da mostra foi exibida também na I Mostra CineFlecha (2020), trazida agora para o Centro de Artes UFF de forma itinerante. Os filmes serão exibidos todas as quintas-feiras do mês de abril. O formato é o mesmo dos do Cine Arte UFF. Na última sessão do mês, no dia 29/04, haverá debate online “Nativas Narrativas - o modo indígena de fazer cinema” com realizadores participantes do ciclo.


Segundo o coordenador do Centro de Artes UFF, Pedro Gradella, o termo “Nativas Narrativas” tem como origem o nome de uma websérie do coletivo Ascuri, em parceria com a Rede CineFlecha, que aborda a pandemia da Covid 19 no contexto das aldeias. A série consiste em três episódios de curta duração e pode ser acompanhada clicando neste link.


- É fundamental ampliar o contato do público em geral com essa produção, além de ser uma ação necessária para um centro de artes de uma universidade pública, que além de pontuar as efemérides, atua para que a diversidade seja transversal em sua programação – explica.


O Centro de Artes UFF é reconhecido na cidade por atuar na ampliação de espaços para as expressões culturais mais representativas da diversidade social brasileira, não somente pelo aspecto de democratização da cultura, mas também por reconhecer a relevância das potências artísticas, estéticas e reflexivas das realizações de grupos historicamente excluídos no Brasil. Além do interesse e curiosidade gerados pelos temas e diferentes culturas que estão no conteúdo desses filmes, um dos objetivos da mostra é chamar a atenção para as diversas formas de contar e narrar a vida e o mundo.


- O cinema realizado pelos povos indígenas, há pelo menos três décadas, segue transformando as narrativas com a sua diversidade. O modo de fazer cinema indigena está intimamente ligado a forma de vida desses povos, o seu viver coletivo e suas cosmovisões, o audiovisual indígena transforma telas em janelas para outros mundos possíveis e aponta importantes questões tanto para os não indígenas enquanto sociedade, quanto para a arte do cinema como um todo - pontuou.


Essa não é a primeira vez que o Centro de Artes UFF inclui em sua programação produção de cineastas indígenas. Além da Mostra "Nosso Olhar", realizada em 2016 nas salas de cinema, também foram exibidos filmes na programação corrente, presencial e online do cinema da UFF. O ciclo "Nativas Narrativas" tem como base uma mostra organizada pela rede CineFlecha.


Parceria com a Ascuri e CineFlecha é de longa data


Pedro conta que trabalha há cerca de 7 anos com oficinas de audiovisual de povos indígenas, muitas vezes junto à Ascuri, e estabelece um relacionamento de parcerias diversas ao longo desses anos, com várias ações no Centro de Artes UFF. "A Rede CineFlecha é organizada por pessoas atuantes no audiovisual indígena e nos conhecemos nesse meio. Os procurei com a proposta de realizarmos esse ciclo marcando o mês de abril indígena", acrescentou.


Formada por coletivos indígenas e articuladores que trabalham com cinema, comunicação e antropologia, a Rede CineFlecha tem como objetivo fomentar e divulgar produções audiovisuais indígenas e, assim, compor um conjunto - bastante restrito, mas cada dia mais expressivo - de canais de divulgação deste tipo de produção. Dentro deste conjunto, a Rede busca fortalecer alguns coletivos indígenas com os quais trabalha com maior proximidade, entre eles a Associação Cultural de Realizadores Indígenas (Guarani, Kaiowá e Terena/MS) e o Pēnãhã - Coletivo de Cinema Maxakali do Pradinho (Maxakali/Tikmũ´ũn/MG).


Um das articuladoras da rede, Luiza Serber, destaca que a grave crise no âmbito do fomento a produções audiovisuais em todo o setor cultural no país prejudica, em larga escala, a capacidade de apoiar cineastas e comunicadores indígenas. Diante da pandemia, naturalmente, a divulgação destas produções teve que ser adaptada para o formato online.


- O contexto pandêmico tem nos obrigado a descobrir e a conceber novos formatos de exibição. Mostras em formato online, como o Ciclo Nativas Narrativas, tem se revelado um meio potente de difusão das realizações indígenas. Em meio a um cenário midiático que pouco se abre para esse tipo de produção, acreditamos que iniciativas como a nossa são essenciais para promover um intercâmbio de cosmologias e saberes entre diferentes povos, contribuindo assim para uma co-existência cosmopolítica (plantas, animais, rios e demais seres humanos e não-humanos) mais harmônica e plural – afirmou Luiza.


Já a Associação Cultural dos Realizadores Indígenas (ASCURI) é formada por jovens Guarani-Kaiowá e Terena, realizadores e produtores culturais indígenas do Mato Grosso do Sul, com o objetivo de discutir alternativas ao modelo predominante de se pensar e fazer cinema na América Latina, buscando o caminho de fortalecimento do jeito de ser tradicional utilizando ferramentas da linguagem cinematográfica e das tecnologias de comunicação.


Regar as raízes


Segundo o presidente da Ascuri, Gilmar Galache, o coletivo pode ser considerado uma frente de resistência cultural dos indígenas. Além de atuar na criação de filmes e documentários, A Ascuri também se dedica à organização de mostras de cinema, à produção de filmes de jovens realizadores, à docência e à edição de livros.


- A gente aprendeu a fazer um cinema muito diferente. Não temos muito essa prática de festival. Produzimos filmes para a gente mesmo, para nos aprimorarmos no ofício. Quando a gente coloca nosso filme na internet, numa janela dessa de possibilidade de mostrar, tem muito essa força que veio desse lugar de onde a gente veio e aprendeu a fazer cinema. Se não tiver isso, não teria esse olhar herdado para os nossos filhos e netos, de se posicionar na terra, assim como a gente foi atrás desse material para ter esse posicionamento. A gente foi se distanciando do tradicional. Ter essa material faz a gente reviver, rega as nossas raízes - concluiu.


Confira a programação do circuito Nativas Narrativas abaixo:


01/04 - Sessão 1 - Encontros e Caminhos de (Re)Existência


Viagens e encontros podem traçar também caminhos de resistência. Por cosmopistas ancestrais atualizadas em percursos e cantos, mantendo e transformando tradições de festas, jogos e visitas, ou ainda (re)ocupando cidades e lidando com aqueles que impõem o encontro como invasão, o cinema propõe formas possíveis de encontros e existências.


08/04 - Sessão 2 - Alianças e Saberes de Cura


Compartilhando e produzindo saberes e memórias, o cinema produz, atualiza e multiplica alianças. Com aliados encantados dos tempos antigos, ou mesmo aliados não-indígenas, práticas de cura se consolidam e se transformam.


15/04 - Sessão 3 - Olhares e Escutas entre Mundos


O filme-ritual como produção de mundos, a produção de mundos como partilha do sensível. Através de olhares e escutas, experimentam-se relações que se propõem na própria atividade xamânica: vendo menos, não vendo, sendo vistos de modo ativo, vendo o que se escuta e o que está além, somos convidados à relação cinematográfica e xamânica que constituem o cinema.



22/04 - Sessão 4 - Ditadura, violência e memória


Sabemos e falamos pouco sobre a violência da ditadura militar no Brasil, e desse pouco, muito é dito sobre as cidades, mas e a ditadura no campo no interior? E o que sabemos sobre as práticas autoritárias e violentas da ditadura contra os povos indígenas? Recuperar e debater essas memórias é fundamental para o nosso presente e futuro.

GRIN - Guarda Rural Indígena

País: Brasil

Ano: 2016


SINOPSE: Um cineasta maxakali resgata memórias sobre a formação da Guarda Rural Indígena (Grin) durante a ditadura militar, com relatos das violências sofridas pelos seus parentes.


No processo de realização do filme, entrevistas coletadas pelos diretores​ foram repassadas ao Ministério Público de MG ​em pedido de indenização​ ​aos povos originários ​pelo sofrido durante a Ditadura Militar. ​Essa ação auxiliou em processo jun​t​o aos Krenak; seguimos agora​ ​tentando​ ​​reconhecimento​ ​junto aos Maxakali.


“​O passado ainda é. O passado insiste em ser. ​ ​Cantamos e o que é nosso não é esquecido​.​”


29/04 - Sessão 5 - Nativas Narrativas - o modo indígena de fazer cinema

* com debate após a sessão