Certo ou errado? O que dizem os especialistas sobre a forma que nos protegemos

Atualizado: Mar 22

Medidas 'para inglês ver' de prevenção ao coronavírus que são amplamente utilizadas e colocam a saúde em risco


Por Amanda Ares

Foto Francine Rodrigues


Seu João pega a única máscara que tem e coloca no bolso, antes de sair de casa para ir à padaria, onde toma seu pingado de todas as manhãs. Na porta do estabelecimento, pega a máscara com a mão suja e a coloca no rosto, desajeitadamente abaixo do queixo. Na entrada, estende o pulso automaticamente para um funcionário, que está ali para "cumprir o protocolo" e medir a temperatura de quem entra: 34 graus. Pela leitura do aparelho, seu João deveria estar em choque, talvez morto. Mas ele entra e toma seu café.


Essa pequena crônica sobre o dia a dia no novo normal, instaurado pela pandemia, ilustra novos hábitos nada eficientes na prevenção da nova doença, e que causam uma falsa sensação de segurança nas pessoas. A máscara que não cobre o cobrir nariz e a boca e a aferição da temperatura no pulso para identificar uma febre são alguns exemplos de falsos cuidados que manterão o vírus circulando ainda por muito tempo. O infectologista André Ricardo Araújo, pesquisador da Universidade Federal Fluminense, explica que atitudes evitar e porquê:


Máscara abaixo do nariz, ou no queixo:


Segundo o especialista, a máscara nessa posição não funciona. Ele considera que as pessoas podem sentir desconforto por ser um item reservado para a classe médica, com o qual ninguém mais estava acostumado, porém usar deixando o nariz descoberto é o mesmo que não usar.



- Para o fim a que se propõe, que é evitar o contágio, não tem utilidade nenhuma. Se a pessoas usarem assim, vão estar se colocar em risco. Se usar errado, é como não usar.


Máscaras com tecido "de ginástica", ou poliprolipeno:


Araújo diz que máscaras não profissionais feitas de material poroso, que permite a passagem de mais ar, são pouco eficazes.

- Essas máscaras que absorvem o suor e tudo, não são profissionais, independente do material, e não vai dar a mesma proteção que uma máscara cirúrgica. As que tem costura horizontal, ou vertical, vão ter mais porosidade e vão deixar passar o ar.


Ele recomenda que as pessoas prefiram as máscaras N95, sem válvula, ou a cirúrgica de três camadas.


Cientistas alertam que máscaras precisam ser mais eficientes


Máscara de acrílico ou máscara de gás:


A máscara de acrílico é vendida como uma opção para facilitar a comunicação, porém ela não é recomendada por infectologistas:



- A de acrílico não tem função nenhuma, por que o ar passa pelos espaços, e vai chegar nas pessoas. É só uma tentativa de empresas de venderem um produto, mas não tem utilidade.


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Sobre a máscara de gás, ele diz que elas são próprias para a rotina em laboratório, e que portanto, exigem um cuidado específico com a troca rotineira do filtro, de uma gramatura específica, e higienização.




- Existem respiradores daqueles que são tipo a N95, só que ao invés de jogar ela toda fora, você troca um filtro. Então, elas tem utilidade mas em situações muito específicas, em laboratórios, onde você lida com germes que te exigem uma proteção máxima, que filtre quase completamente o ar. Fora que é uma máscara cara, e tem que ter uma quantidade de filtro. Se usar um mesmo filtro um mês, ela vai perder a função.


Aferição de temperatura no pulso:


O pesquisador comenta que o uso do equipamento está equivocado.


- Isso foi fruto de uma fake new que rodou dizendo que o laser do termômetro afetava o cérebro das pessoas, mas não tem nenhum cabimento. A Medição deve ser feita apontando o termômetro para o rosto.


Reprodução Prefeitura de Niterói


Aferição de temperatura no geral:


- Não tem função nenhuma. Nem todo quadro de covid dá febre, e nem toda febre é covid. É mais uma medida psicológica do que de prevenção.


Usar um lenço no lugar da máscara:


O médico diz que ela tem a mesma proposta da máscara de tecido, porém, o problema é a falta de sedação na área do nariz, no queixo e nas laterais, o que permite que o ar passe pelas aberturas.


Usar a máscara só para entrar no ônibus ou locais fechados:


Ele comenta que quando a pessoa está sozinha e não vai falar com ninguém, não tem risco para a saúde, porém ao entrar em um estabelecimento onde se vai consumir algo, como um bar ou restaurante, o risco é o compartilhamento de objetos com outras pessoas.


- No lugar fechado, a máscara é mais necessária. Quando você dirige sozinho no seu carro, ou toma banho de mar, não vai usar a máscara, mas conversar frente a frente numa distância curta é perigoso. Se você está, por exemplo, em um boteco, que é aberto, e tira a máscara, você também abre margem pra se contaminar. Também há risco no compartilhamento de objetos.


Automedicação:


André explica que não existe ainda um remédio que previna ou combata o Sars-cov-2, o vírus que causa da Covid-19. Ele também alerta para o risco de se usar antibióticos sem prescrição:


- A gente não tem nenhuma droga com efeito comprovado contra a Covid, isso precisa de estudo pra saber. E nosso corpo é um aglomerado de bactérias que convivem entre si, então toda vez que você toma um antibiótico sem estar doente, você mexe naquele equilíbrio, e você mesmo acaba selecionando algumas bactérias no seu corpo que vão ficar resistentes a tratamentos comuns e simples. Por exemplo, fica mais difícil tratar uma pneumonia, gastroenterite, otites, infecções de garganta, que são infecções comuns, mas que com o tempo, por causa do uso indevido de antibiótico, vão ficar resistentes.


Lavar as mãos


O infectologista relembra um hábito muito importante para se proteger, que é lavar as mãos constantemente:


- Higienização de mãos tem que estar em primeiro lugar! As pessoas estão se esquecendo.


Ele conclui tranquilizando as pessoas sobre um hábito adquirido no começo da pandemia e amplamente usado até hoje: limpar toda compra ou item da rua quando entra em casa.


- Se alguém espirrar em cima de uma lata, ou tossir, e logo depois alguém pegar aquilo, pode ser existir risco de contágio, mas isso é pouco provável, o risco maior está no contato com outras pessoas. Daí a recomendação principal que é o distanciamento.



André conclui explicando, ainda, que algo que as pessoas deixaram de fazer por terem medo de se expor é doar sangue, mas que é muito mais seguro que diversas atividades do dia a dia, pois o local da coleta é seguro.


- É um ambiente controlado, com pessoas com EPI, com pia pra lavar mãos, álcool em gel, então a pessoa pode ir doar sem problemas. É um ato humanitário, e do qual todo mundo pode depender, pra si ou pra algum parente em algum momento.


Reprodução facebook HemoNit