Ciência e cordéis se unem em Niterói para combater fake news sobre Covid

Atualizado: Abr 25

Projeto, feito em parceria com a UFF, tenta desmitificar ideias impróprias relacionadas à doença

Por Livia Figueiredo

Foto: Divulgação


O combate à desinformação em tempos em que a imprensa desempenha papel ainda mais crucial. A ciência em prosa, em rima e em verso. O acesso democratizado à informação de qualidade. Essa é a proposta da cientista e pesquisadora Edla Herculano, autora de uma série de cordéis que abordam não apenas o combate à informação falsa, como também a vacinação e a propagação da Covid-19.


Nos vídeos, são desmitificados diversos conceitos impróprios da doença, como o uso da medicação inapropriada, os procedimentos preventivos e os kits de tratamento do coronavírus. Tudo de forma acessível e responsável, tendo como fonte a ciência. O projeto é assinado pela cientista pernambucana Edla Herculano e a UFF entra com toda sua expertise através do Núcleo de Pesquisa, Ensino, Divulgação e Extensão em Neurociência, o NuPEDEN, coordenado pela especialista Priscilla Bomfim.


A equipe do projeto é formada por oito integrantes, entre eles mestrandas, doutorandas e alunas da iniciação científica, que colaboram com a arte das animações, imprimindo todo o acabamento audiovisual necessário, como a sonoplastia, o tratamento das imagens e a edição dos vídeos. Todos os cordéis podem ser assistidos no canal de Youtube e Instagram da NuPEDEN.


Relação com a escrita é de longa data


Desde quando era criança, Edla foi motivada a escrever. A relação remonta à época escolar, quando foi muito estimulada por uma professora a investir na escrita. Influenciada pela sua avó, que também escrevia, a autora se inscreveu em um concurso de podcast da Universidade Federal de São Carlos sobre a pandemia, e venceu.


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Desde então, Edla cultiva relação ainda mais próxima com a escrita. Para a trilogia dos cordéis, especificamente, a autora colabora não apenas com o texto, mas com a narração. A ideia é que a imersão na cultura nordestina seja ainda mais profunda. Até o momento, dois cordéis já foram lançados, um sobre vacinação e outro sobre o combate às fake news. Em maio, será lançado o capítulo que fecha a trilogia. Edla é farmacêutica, possui mestrado em Ciências da Saúde e doutorado em Bioquímica. O contato com a UFF veio através de Priscilla Bonfim, coordenadora do NuPEDEN, que faz parte de um grupo de pesquisa da Fiocruz, onde o marido de Edla trabalha.


- A repercussão foi muito grande. Tivemos retorno de vários lugares do país e de pessoas que moram fora também. Pelo Instagram conseguimos mensurar melhor o desempenho dos vídeos e os compartilhamentos. As Sociedades Brasileiras de Infectologia, de Imunologia e de Farmacologia divulgaram nos seus canais. Tivemos um convite especial também para exibir os cordéis para vídeo-aulas no canal da MultiRio. Isso foi muito bom porque atingimos uma fatia da população mais jovem e quando a criança entende, ela dissemina aquele conteúdo de forma muito positiva entre os familiares que podem ter alguma resistência – destaca Priscilla Bonfim.


Edla conta que algumas professoras de outras regiões do país entraram em contato solicitando autorização para exibir os vídeos dos cordéis nas salas de aula, isso sem contar com os profissionais que não fizeram contato e ajudaram na disseminação dos vídeos. “Se está no ar em diversos canais, significa que eles podem ser utilizados. Essa é exatamente a intenção: alcançar as camadas e explodir essa bolha. Porque não adianta fazer divulgação cientifica para quem já entende. Por isso, a linguagem, embora a gente aborde temas complexos, recorremos a uma linguagem acessível. Eu não vou usar palavras sem explicar. Foi muito especial porque a gente viu que estava alcançando o público que almejávamos”, analisa Edla.


Segundo a coordenadora da NuPEDEN, a intenção do projeto não é vender uma ideia, mas propor um diálogo através da ciência de forma que as pessoas possam refletir criticamente. Todos os vídeos receberam legenda para que a inclusão seja ainda maior.


- A gente queria que o público tivesse o apoio visual e o apoio escrito, para atender também as pessoas apresentam déficits sensoriais de todos os tipos. Nosso objetivo é ir além dos pares, atingir outras esferas, outras camadas da sociedade. Tão importante quanto produzir ciência, é disseminar a ciência -, explica.


Diálogo com a cultura popular


Edla conta que outra proposta dos cordéis é valorizar a cultura nordestina, desconstruir alguns estereótipos e desmitificar a ideia que a ciência pode ser explicada apenas através de números e análises de gráfico.


- Não deixa de ser uma valorização, sobretudo, da cultura brasileira. O que é afinal o Nordeste, se não o Brasil? Porque embora eu coloque algumas palavras nordestinas, elas estão dentro do contexto no qual as pessoas entendem. Acho que o próprio alcance que obtivemos mostra que isso é válido. Conseguimos alcançar outras dimensões. Acho que a magia do vídeo é a forma com que a história é contada, além de todo o cuidado visual e sonoro. A vaca mugindo e o jacaré de paletó são detalhes que chamam a atenção – ressalta.


Conexão das redes


Como uma plataforma em que as pessoas buscam para consumir informação, Priscilla explica a importância de fazer o bom uso das redes sociais, criadas originalmente sobre a perspectiva de estabelecer negócios. Uma das propostas é quebrar um pouco as fronteiras e estabelecer conexões entre as pessoas, disseminando um conteúdo de credibilidade, com informações não pautadas no senso comum, mas em evidências.


- A literatura de cordel, de tradição nordestina, faz parte da cultura popular brasileira e o que a Edla faz brilhantemente é unir essa literatura à Ciência e mostrar que as ciências podem se integrar. E quando ela faz isso, ela traz para a vida coisas que não percebemos, mas que fazem parte da nossa rotina. Ela consegue explicar termos mais complicados com uma clareza que vai cativando as pessoas. Sabemos que o nosso trabalho é a longo prazo. O que estamos fazendo agora é tirar a ciência do livro para que as pessoas possam fazer conexões e despertar a consciência sobre certos assuntos. Às vezes nós não temos a percepção de que algo pode ser explicado pela Ciência.


E acrescenta: O que a gente faz é explicar isso de forma descontraída e divertida, combatendo a desinformação. Sem contar a entonação da Edla, que faz toda a diferença – conclui Priscilla, que diz que outros convites surgiram com a repercussão dos cordéis, despertando em outros cientistas a possibilidade de explicar a ciência através de narrativas dos cordéis.