Comitê Científico de Niterói: vacina não reduz a necessidade de proteção

Cientistas recomendam manter isolamento, temem aumento da doença e alertam para necessidade de ampliar leitos hospitalares


Leito de UTI: Relatório final do Comitê científico de Niterói alerta para aumento do contágio na cidade


O Comitê Científico de assessoramento da Prefeitura de Niterói no combate à Covid apresentou ao Prefeito Rodrigo Neves, na última quarta-feira, 16, um relatório sobre as medidas adotadas, uma avaliação de erros e acertos e o alerta de que os efeitos da pandemia vão durar além da aplicação de uma vacina.


Foi o último relatório do Comitê, formado por cientistas da UFF, da UFRJ e da Fiocruz. O grupo foi criado pelo Prefeito para funcionar até o fim do governo. O Prefeito eleito, Axel Grael, ainda não decidiu que tipo de assessoramento científico vai buscar. Numa apresentação de 12 páginas, o Comitê prevê que o Brasil vai chegar ao dia 31 de dezembro, fim de 2020, com mais de 191 mil mortes causadas pela doença, de acordo com projeções do Institute for Health Metrics and Evaluation da Universidade de Washington.


Embora o Comitê esteja focado na evolução do coronavírus na cidade, observa o que acontece no resto do país e no mundo. Como costuma repetir o Prefeito Rodrigo Neves em suas transmissões, Niterói não é uma ilha. Está no Brasil e faz parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, uma das mais castigadas pela epidemia em todo o país. Apesar das ações adotadas, a cidade chega ao fim do ano registrando aumento de casos e com hospitais lotados.


O documento destaca que a gravidade da doença no país decorre da falta de liderança na condução de uma política nacional de enfrentamento da Covid, “condição que tende a permanecer no ano de 2021.” O texto adverte para o risco de “processos de flexibilização muitas vezes intempestivos, mal planejados e carentes de sistemas de monitoramento de risco.”


Desta forma, no entender dos cientistas que participam do Comitê, o Brasil passa a apostar enormemente na obtenção de uma vacina capaz de promover uma imunização eficaz contra o vírus. Mas, apesar de o país possuir muita competência na produção e distribuição de vacinas, há muitas complexidades envolvidas na produção e distribuição, o que limita a possibilidade de imunização de 67% da população, que é um parâmetro indicado para bloquear a circulação do vírus, em período curto de tempo.


O relatório antecipa que, diante disso, o país deve “conviver com medidas de prevenção por um período considerável, mesmo após iniciadas as campanhas de vacinação.”


A “nota” de Niterói


O relatório final é assinado pelos integrantes do Comitê, cientistas, professores-doutores, reconhecidos no Brasil e no exterior: Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, médico, Reitor da UFF, coordenador do grupo; Aluísio Gomes da Silva Júnior, Diretor do Instituto de Saúde Coletiva da UFF; Roberto de Andrade Medronho, da UFRJ, Diretor da Divisão de Pesquisa do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho e coordenador do Grupo de Trabalho Multidisciplinar para o Enfrentamento da COVID-19 da UFRJ; e Rômulo Paes de Sousa, da Fiocruz, médico, especialista em medicina social (UFMG) e PhD em epidemiologia (London School of Hygiene and Tropical Medicine, Reino Unido).


De acordo com os especialistas, “Niterói executou, de forma bem-sucedida, uma política de afastamento social e restrição de mobilidade, a mais restritiva da Região Metropolitana do RJ.” Entre as ações citadas, aparecem o fechamento do comércio, a realização de testes, muito além da média nacional, a restrição de movimentação, bloqueio nas praias e controles de acesso à cidade. As medidas tiveram impacto na contenção do número de casos, internações e mortes.


A atuação dos programas de Saúde Pública e a capacidade da rede hospitalar também contribuíram para o resultado da política adotada.


O documento detalha a criação de mecanismos de monitoramento e o controle de indicadores como casos, internações, mortes e ocupação dos hospitais para definir os estágios da doença e as medidas recomendadas para o controle da doença. O Plano de Transição para o Novo Normal definiu estes parâmetros.


“O Plano utilizou como referência os critérios técnicos desenvolvidos no próprio município em sintonia com as melhores práticas implementadas no Brasil e no mundo. As ações foram implementadas de forma ampla, organizada, articulada e precoce. O Plano também definiu níveis de atenção e alerta conforme indicadores objetivos, descrição de ações com responsabilidades estratificadas e clara indicação de pronta adoção de medidas mais restritivas no caso de os indicadores apontar deterioração dos níveis de segurança da população. Como consequência, o munícipio apresentou ao longo do ano de 2020 até o aparente recrudescimento da doença em final de novembro, indicadores que apontavam um controle relativo da pandemia, atenção às vítimas da Covid-19 e mitigação dos impactos econômicos do fenômeno no estado do Rio de Janeiro.”


No pico da doença, o número-síntese, que expressava a gravidade da doença, como uma nota conferida à cidade, chegou a 12,75. Para sair do Alerta Laranja, semanas depois do lockdown, e entrar no Amarelo-2, em que a cidade permanece até hoje.


A retomada das atividades, prevista no plano de transição, no entanto, diminuiu o isolamento e aumentou o risco de contaminação, apesar dos protocolos adotados. A “nota” chegou a 5,38, mas hoje está em 7,88. O Comitê acompanha ainda outros indicadores, e um dos mais importantes para avaliar a rapidez do avanço da doença é a taxa de transmissão, a taxa R, que diz quantas pessoas uma pessoa com Covid pode infectar em um determinado momento. Em maio, essa taxa estava acima de 4. Depois do isolamento, caiu para 1,74. Em outubro, estava abaixo de 1 no estado do Rio, indicando um maior controle da doença.


O Panorama mudou, em novembro. Diz o relatório: “Preocupa que o último R calculado para Niterói, correspondente a Semana Epidemiológica 49 ( de 29/11 a 05/12/2020), foi igual a 1,26.”


As recomendações do Comitê


O relatório do Comitê revisita diversos momentos da epidemia e as ações recomendadas e adotadas para conter o avanço da doença.


Em maio, com o avanço da doença, a discussão era em torno das medidas de isolamento e o “contágio”, diante do intenso fluxo de pessoas entre Niterói, Rio e São Gonçalo, e a necessidade de aumento da capacidade de atendimento hospitalar. Também se destacava a necessidade de socorro aos moradores e empresas para que pudessem mitigar os efeitos econômicos e sociais e manter o isolamento .


Em 16 de junho de 2020, o comitê entende que o plano de transição está sendo executado de forma eficiente. E recomenda a manutenção das medidas de afastamento social, restrições de mobilidade, ações de testagem, busca ativa e isolamento de casos, bem como a garantia da disponibilidade de leitos hospitalares em diferentes graus de complexidade da atenção. A preocupação era com a chegada do inverno, quando ocorre a circulação de outros vírus respiratórios.


Em 6 de julho de 2020 a situação grave do entorno continua a se constituir em ameaça à população de Niterói. O Comitê entende que a construção do plano e sua gestão tem permitido a progressiva retomada das atividades sociais e econômicas com o controle simultâneo da propagação da pandemia e seus impactos. “Recomendamos um maior rigor na atuação de controle nos terminais marítimo e rodoviário assim como a disponibilização de banheiros e lavatórios de acesso gratuito nestes locais.”


Na reunião de Comitê de 23 de agosto de 2020, o tema mais polêmico: a volta às aulas. A mais longa reflexão anotada no texto do Comitê. Está nos registros: “O retorno presencial às escolas representa um desafio especial, pela complexidade do valor positivo do convívio e do ambiente de formação em contraposição ao risco aumentado de contaminação local e comunitária. O Comitê entende que deve-se fazer valer o Plano de Transição Gradual para o Novo Normal que tem se mostrado robusto e adequado e, dessa forma, autorizar o retorno presencial parcial e gradual somente do ensino médio no primeiro momento e, mesmo assim, somente quando o município atingir o Sinal Amarelo Nível 1, o que não deverá ocorrer antes do final do mês de setembro”.


Foi a última reunião da prefeitura com o Comitê científico. O Prefeito Rodrigo Neves, pressionado pelos empresários, depois de mais de três meses de paralisação da economia, liberou uma série de atividades que só estavam previstas para quando houvesse um maior controle da doença, quando a redução do número de casos, mortes e internações permitisse à cidade entrar num estágio mais flexível de restrições, o Amarelo-1, o que não aconteceu até hoje. Na lista de autorizações, aparecem bares, música ao vivo até de madrugada, academias, cinemas… e as escolas. As escolas só não voltaram a funcionar antes porque houve uma série de embates da Justiça com a Prefeitura e o ano acabou sem que as escolas conseguissem abrir, efetivamente.


A vacina e as recomendações


O Comitê avalia como altamente positiva a experiência de interação com o poder público municipal de Niterói. “Os gestores municipais demonstraram preparo técnico e político para lidar com a situação, sempre mantiveram uma postura respeitosa e atenciosa com os membros do Comitê e incorporaram a enorme maioria das sugestões do mesmo.”

E apresenta suas recomendações:


Ações baseadas na ciência: “Manter o planejamento, implementação de gestão de sua política de combate à pandemia baseada em evidências científicas. Valorizar o uso das informações baseadas na vigilância em saúde e na avaliação das iniciativas de promoção, prevenção, tratamento e recuperação realizadas.


Fortalecimento da rede de Saúde: “Manter e ampliar as medidas de fortalecimento da rede de Saúde, em especial , nas unidades de atenção primária (PMFs ,UBS e Consultórios de rua), Policlínicas Regionais, UPAs e Unidades da Rede de Saúde Mental, no que tange a contratação de profissionais de saúde, fornecimento de insumos, EPIs e medicamentos.


Ampliação dos leitos: “A manutenção da rede de suporte hospitalar dedicado à COVID 19, ampliação dos leitos de atenção em geral e gestões para a reativação de leitos privados que foram desativados no momento de baixa dos indicadores de controle da pandemia.


Atenção com efeitos econômicos da pandemia: “Especial cuidado deve se dispensar às medidas de mitigação dos impactos econômicos da pandemia. O ano de 2021 será desafiador para muitas famílias brasileiras que enfrentarão a um só tempo: desemprego, alta inflação e queda de renda. O término das transferências do auxílio emergencial do governo federal empurrará muitas famílias para a condição de pobreza. Desta forma, o peso destas vulnerabilidades financeiras acabará recaindo sobre estados e municípios. Por isso, o município de Niterói deve considerar a manutenção e mesmo ampliações das transferências municipais de mitigação da extrema pobreza e pobreza em seu território.


Conscientizar a população da necessidade de proteção: “Um desafio especial e difícil é atuar sobre o comportamento da população que se mostra menos atenta aos protocolos de segurança e até mesmo se aglomerando sem restrições a despeito da veiculação de mensagens pelo poder público, sugerindo um efeito de “fadiga” frente ao isolamento social e restrição de mobilidade e uma consequência da falta de coordenação nacional de ações frente à pandemia.


A vacina: “o Comitê entende como acertada a iniciativa da prefeitura de buscar e construir as condições para vacinar a população do município, uma vez que existe um vazio de gestão no tocante a um plano nacional de imunização contra o novo Coronavírus. Ainda que este não seja o melhor cenário, considerando os fundamentos da epidemiologia e o histórico do Brasil em planejar e executar políticas nacionais de vacinação, o movimento estruturado de cooperação com o Instituto Butantã, participando Niterói da fase III da pesquisa clínica com profissionais de saúde e recebendo prioridade na distribuição dos primeiros lotes da vacina se mostrou necessário e conveniente.


No final do relatório, o Comitê destaca o entrosamento com o governo e com a Câmara Municipal. E agradece aos Secretários e funcionários do governo que apoiaram e deram condições para que os cientistas trabalhassem.


Não deveria terminar assim. Mais adequado dizer: a cidade agradece ao Comitê Científico.









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