Com 40 anos de carreira, Bia Bedran quer mais: 'Precisamos clarear a mente dessas crianças'

Compositora, contadora de histórias e escritora fala dos seus projetos, do show no aniversário da cidade e do papel da arte na educação

Por Livia Figueiredo

Ensaio 1990. Foto Paulo Rodrigues


"Perdi meu anel no mar, não pude mais encontrar. E o mar me trouxe a concha de presente pra me dar (..) É a ciranda do anel que eu vou dançar, até o dia clarear. Uma vez chorei na praia, pra um anel que se perdeu. Meu anel que virou concha, nunca mais apareceu. Parou na goela da baleia, ou foi pro dedo da sereia, ou quem sabe um pescador encontrou o anel, e deu pro seu amor".


Esse é apenas um dos sucessos do vasto repertório que compõe a trilha sonora da infância de várias gerações. Bia é múltipla. Começou sua carreira de maneira despretensiosa, mas a música sempre se fez presente, assim como a contação de histórias e a literatura. Não tem saída quando a vocação é tão forte. Bia Bedran compôs sua primeira música com 9 anos. Mas foi no Teatro Quintal, fundado pela família dela, que a chave virou. "Quando vi a reação da plateia, percebi que viveria disso. Esse era meu projeto de vida. Contar histórias".


Nascida e criada em Niterói, Bia é compositora, cantora, escritora, contadora de histórias e foi professora por 30 anos, quando lecionou uma oficina de escrita criativa na UERJ. Com 40 anos de trajetória, pode-se afirmar que ela encontrou na arte um recanto, um respiro, que escapa ao imediatismo da vida virtual. É uma das principais defensoras do patrimônio cultural brasileiro. Da literatura que resiste, da música que abre espaço para o lúdico e para a reflexão, que Bia desperta com tanta precisão. Esse é o ofício da arte, do artista que compõe músicas de protesto.


- O verdadeiro artista quando trabalha, ele desperta algo novo e não reforça a massificação. Ele provoca essa mudança, desperta um olhar questionador. A criança quer o imaginário, não adianta falar que está tudo errado, invertido... Não funciona. As músicas de protesto acessam o lúdico da criança.


E, agora, após uma trajetória que acumula uma discografia que beira os 15 álbuns, 14 livros e uma carreira de educadora musical que resiste ao tempo, Bia irá comemorar seu aniversário de 66 anos um pouco adiantado. A artista foi chamada para integrar uma apresentação que faz parte da programação do aniversário de Niterói. No dia 19 de novembro, três dias antes da data oficial, Bia irá tocar pela primeira vez ao lado de uma orquestra. O show será realizado no Theatro Municipal e contará com a presença da Orquestra da Grota. No dia dessa entrevista, Bia tinha acabado de assinar o contrato e estava emocionada com a possibilidade de voltar aos palcos, onde trilhou boa parte de sua vida, contando histórias, com o violão no braço e com o coração na boca. Histórias de protesto, de cunho social, ambiental e político, de temáticas de relevância para a sociedade.

Espetáculo "Minha biblioteca cantante", em 2018. Foto: Paulo Rodrigues


O reencontro com o estúdio também está próximo de acontecer. Bia está em processo de gravação do novo disco, que terá 13 canções (6 compostas na pandemia e outras 7 de anos anteriores, que ficaram na gaveta). Também está perto de lançar seu primeiro songbook, que será composto por 95 músicas.


O A Seguir: Niterói conversou sobre os próximos projetos e alguns dos principais momentos da trajetória de Bia Bedran, que tem uma das mais consolidadas carreiras de composições para os pequenos e também para a criança que existe em nós.


Confira a conversa na íntegra abaixo:


A SEGUIR: NITERÓI: Você tem 40 anos de trajetória dedicada ao público infantil. Como surgiu o interesse por trabalhar na área? Você sempre foi apaixonada pelo universo da criança? Conta um pouco sobre essa relação.


BIA BEDRAN: Essa pergunta é fundamental, porque as pessoas têm uma curiosidade para saber se isso vem desde sempre. Acho que desde criança eu fui uma menina interessada pelo mundo. Eu era uma criança e não pensava em mundo infantil. Fazia canções pensando no mundo adulto, no viés social. Comecei a compor com 9 anos. Acho que eu sempre fui uma menina preocupada com o social, com o bem estar das pessoas, e muito ligada na empatia (antes da gente começar a usar muito essa palavra).


Quando eu me tornei profissional, de 16 para 17 anos, eu já tinha cantado em situações não profissionais, sempre com o violão debaixo do braço. Cantei em festivais da canção. Participei do primeiro Festival da Canção de Niterói. Eu era a única criança finalista, porque o festival era para adultos. Isso em 1967/1968... Foram festivais importantes. Tinha gente do Brasil inteiro concorrendo. E eu já pensava nesse mundo adulto quando era criança.


Até que entrei para o Teatro Quintal, fundado pela minha família. O teatro ficava na casa da minha tia, na General Rondon, em São Francisco. Era uma produção familiar. Meu primos trabalhavam nele, minha mãe, meu pai e meu avô. Minha avó fazia figurino, minha mãe escrevia o texto, junto de minha tia, que também fazia bonecos. Nós fizemos muito sucesso. Levamos peças do Quintal para o Rio, rodamos o Brasil. O teatro chegou a vencer o Prêmio Molière em 1975. Antes disso, a premiação era apenas para adultos. No primeiro ano em que a premiação incorporou o infantil, minha tia, Maria de Lourdes Martini, venceu. Hoje ela tem 93 anos e mora em Brasília. Eram os Martini todos que fundaram o Teatro Quintal. Martini é a família de minha mãe.


Foi lá que eu descobri essa Bia com empatia junto à infância e, claro, junto ao adulto porque a criança não vai sozinha ao teatro. Quando eu cantava, olhava no olho das pessoas da plateia. Ali, naquele momento, começava uma carreira. Percebi que não ia mais sair desse barco. Isso em 1973, ano em que comecei a trabalhar direto com a infância, com a música e com o teatro.

Bia com 9 anos. Foto: Arquivo Pessoal


E imagino que sua família tenha te influenciado também nesse processo...


Tem influência da minha família, também, claro. Minha mãe foi diretora do primeiro jardim de infância do Estado do Rio de Janeiro, o Angelus. Ela alfabetizava através da arte. Inclusive, em uma das minhas canções, que faz referência a isso, eu canto: "os meninos e as meninas, nos seus olhos têm a luz.." A música se chamava Angelus, em homenagem à minha mãe.


Eu sou professora também, anos mais tarde eu me formei em Educação Artística e música terapia. Fiz o mestrado na UFF, mas trabalhei na UERJ durante 30 anos. Desse período, fiquei quase 20 anos formando professores e contadores de história. Fiz concurso público, em 1985, para professora de música no Colégio de Aplicação, o CAP, da UERJ, onde eu trabalhei por 12 anos. Mas eu fui chamada pela reitoria para realizar um trabalho de capacitação de professores na área, em 1995. Lá fiquei até completar meu ciclo realizando oficinas de educação artística para professores, de onde saí em 2015.


Era um trabalho multiplicador de conhecimento, muito bonito. Eu fazia um trabalho de avaliação, para saber como os professores aplicavam as oficinas na salas de aula com as crianças. Era a junção da arte e da educação na procura do grande conhecimento, do autoconhecimento também. Meu trabalho tem muito esse viés. É meu projeto de vida, ressignificar através da arte, dos saberes. Acender esse encantamento na criança.

Gravação do LP 1987. Foto: Paulo Rodrigues


Bia, qual a importância, para você, da preservação da cultura, do lúdico e da criança que há em nós?


A criança está muito na tela. Ou a criança não tem acesso porque vive em condições precaríssimas de vida. Mas, ainda assim, ela acaba tendo o vício da tela porque de alguma maneira isso chega até ela. Isso eu chamo de ausência de intensidade, de essência da vida. Esse mundo tecnológico é muito raso. A criança fica só na troca de mensagens, no Tik Tok, passa muito tempo na tela. Ela fica querendo comprar coisas. A tecnologia facilita demais.


Quando você fala da criança interior, eu acho que é a intuição. A nossa criança é a nossa intuição, que nos faz seguir o caminho bom das coisas. As pessoas que estão fazendo muita besteira no Brasil não têm essa criança interior, essa intuição, essa "bondade", a ingenuidade, a beleza, a natureza... Enfim, nós precisamos clarear a mente dessas crianças.


Essa dose de cultura e arte são as brechas para a gente se realimentar. É ela que permite a busca da simplicidade e da clareza. O verdadeiro artista quando trabalha, ele desperta algo novo e não reforça a massificação. Ele provoca essa mudança, desperta um olhar questionador. A criança quer o imaginário, não adianta falar que está tudo errado, invertido... Não funciona. As músicas de protesto acessam o lúdico da criança.

Roda de samba em Cariminguá, 2013. Foto: Paulo Rodrigues


Conta um pouco do que o público pode esperar do seu próximo trabalho. Como tem sido gravar na pandemia? O processo ainda está remoto? Grava voz num lugar, sopro no outro, masteriza depois?


Eu ainda não estou entrando no estúdio para gravar voz. Estou esperando ficar mais confiante. Depois que eu tiver todas as bases gravadas, posso entrar sem medo. Mas, por enquanto, prefiro me resguardar.


O meu próximo trabalho será composto por 13 músicas, seis foram escritas na pandemia e as outras sete são canções guardadas. Tem uma faixa que fará homenagem ao Zé Zuca. Eu tive a honra de participar de um disco de sua autoria com uma canção minha e outra de autoria dele, chamada "O Amigo". Isso tem 20 anos. E essa canção minha, a "Borogodó", teve a mão do Magro do grupo MPB 4. Ele fez um arranjo lindo para a música. Em "Borogodó" eu me refiro a essa vontade de apertar a criança. Eu costumo dizer que toda criança tem um borogodó. A ideia é colocar nesse novo trabalho essa canção histórica, que tem no disco do Zé, e que acabou ficando meio perdida porque o selo, a Rádio MEC, não existe mais.


Você começou a compor no violão ou na própria escrita e depois você foi musicar?


Eu comecei a compor no violão, foi quando fiz minha primeira música. Eu tinha uma professora. Depois eu ainda estudei violão clássico. Fiz minha primeira música com 9 anos e fiz algumas outras músicas quando criança. Antes disso, eu aprendi flauta doce de 6 para 7 anos, quando minha mãe me colocou para fazer aula junto do meu irmão, que é violinista e cartunista, apesar de ser formado em Engenharia. Minha irmã faz as capas dos meus discos e é professora aposentada de Comunicação da UFF.


Na sua opinião, qual a importância do audiovisual, que ocupa cada vez mais espaço no nosso dia a dia? Como é a sua relação com o audiovisual? Ele fica em segundo plano ou é pensado junto da música?


Eu acho que essa questão está em construção para mim. Eu ainda estou pensando sobre esse novo mundo, não só do meu lugar no mundo, mas do audiovisual também. Por um lado, a gente consegue estar, mas ao mesmo tempo não está, né? Tudo ficou muito imagético. Acho que o visual tira muito do momento da leitura do cinema visual. O audiovisual divulga minha música, mas eu ainda sou muito analógica.


Posso dizer que estou imersa no mundo audiovisual, mas eu ainda sou narradora, contadora de histórias. Acho que o sucesso que tenho vem muito do meu áudio. Mas uma das minhas filhas é formada em Cinema e é ela que edita meus vídeos. Minha filha Julieta Bedran é a que faz uma participação na canção do anel, aquela vozinha de criança que a gente escuta na música é dela. Hoje ela tem 40 anos.


O que eu tenho feito é gravar meu show aqui de casa, com os bonecos. Participei de muitas feiras de livro nessa pandemia de forma virtual. Funciona assim: eu mando o que eu faria ao vivo já editado ou participo de lives. Tenho mais de 60 vídeos no Youtube. Quem organiza é meu afilhado, o Pablo Savala. Ele que gerencia minhas contas nas redes sociais e cuida de tudo.


E sua vida foi toda no palco, como foi lidar com essa ruptura de repente, com a pandemia?


Eu entrei em pânico quando percebi que o negócio era grande mesmo, que ia demorar. Fiquei muito triste e tive certa resistência com as lives, no começo, mas depois, apesar da dificuldade, fui me entendendo. Estou desde agosto do ano passado trabalhando no disco novo e estou para lançar meu primeiro songbook. Serão dois volumes e 95 músicas de minha autoria. O Ricardo Gilly, também de Niterói, que está escrevendo meu songbook, que eu vou apelidar de "O livro das canções de Bia Bedran".


E eu não tenho patrocínio, paguei tudo. Estou na luta para conseguir um apoio de edição. Vai ser um livro físico, com partituras e tudo mais. Mas essa alegria de estar fazendo meu disco e meu songbook não compensou a ausência do palco. Minha vida foi toda no palco. Sem contar que o mundo virtual cansa muito.


A gente que é sensível não tem sossego. Eu não tenho mais vontade de compartilhar minhas vitórias, minhas alegrias diante de tanta desgraça, tanta fome, tanta boçalidade que esse governo fala todos os dias. Mas eu combato isso, com a esperança, agora, de um Brasil cada vez mais vacinado.

Lançamento do livro APSOP. Foto: Paulo Rodrigues


O que planeja para esse Dia das Crianças? Terá alguma atividade presencial? Alguma live?


Eu decidi me resguardar nesse Dia das Crianças. Mas vou fazer duas lives, nesta quarta-feira, dia 13, uma de manhã e outra à tarde para o colégio Miraflores para conversar sobre o meu último livro, "A obra". Vou cantar algumas músicas também, tocar violão. Vamos falar do meu livro, que eles estão lendo, e de canções da minha carreira. Vai ser muito legal. Eu tenho uma relação de muito carinho com o Miraflores.

Livros Bia Bedran. Foto: Paulo Rodrigues


Como é seu processo na escrita? Você também é escritora e transita entre a literatura e a música. Como se deu essa vontade de se expressar em mais um campo da arte?


Meu primeiro disco foi lançado em 1979, o "Bloco da Palhoça". Depois, em 1987, eu lancei meu segundo LP, chamado "Bia Bedran". Em 89, eu lancei o "Quintal", depois lancei histórias em fitas cassetes. Em 1995, veio o primeiro CD, "A caixa de Bia" e depois eu remasterizei esses discos para CD. O meu primeiro livro foi um ano depois do espetáculo da Caixa de Bia. Eu já tinha contado essa história no meu programa de televisão, em 87. Escrevi o texto da maneira que eu contava na TV. Depois lancei "A Sopa de Pedra".


Só voltei para a literatura em 2003, quando percebi que queria também trabalhar com isso. Esse despertar veio quando eu entrei em contato com a editora Nova Fronteira. Mandei dois originais e eles aprovaram. Sigo trabalhando com eles. Até o momento, tenho 14 livros lançados, fora os que ainda são histórias e não foram lançados ainda, mas estão por vir.


Acho que essa vontade de se expressar em outro campo da arte veio da minha relação estreita com a literatura. Eu sempre escrevi os roteiros dos meus shows e sempre fui muito apegada à palavra, então, de alguma maneira, as letras acabam sendo meus livros cantados.


Como é a Bia Bedran fora dos palcos? Conte um pouco sobre sua relação com Niterói. O que gosta de fazer na cidade? Quais são suas memórias afetivas?


Eu sou uma andarilha... Nasci na Estrada Fróes e morei lá por mais de 40 anos. Fiz muitas canções sentadas na pedra do mar. Todas as músicas do meu disco "Beatriz" foram compostas lá. A gente tinha uma espécie de praia particular, então boa parte da minha vida foi mergulhar naquela prainha. Aquela natureza sempre foi um palco para mim. Quantas tocadas de violão ali, quantas músicas surgiram ali...

Gosto muito de caminhar na Orla. Eu acho a orla de Niterói uma das mais lindas. Eu ia até a Boa Viagem correndo e às vezes ia até Jurujuba. Agora não corro mais, ferrei joelho e tudo, mas sigo caminhando. Desde que me mudei para Santa Rosa vou de carro para Icaraí e caminho pela Orla. Caminho muito.


E o que você acha da cena cultural de Niterói? O MAC, Theatro Municipal, o museu Janete Costa, de arte popular, o Cinema da UFF, o Reserva Cultural?


O Theatro Municipal é esplendoroso. Já fiz recital de poesia no Janete Costa. Niterói é uma cidade que está preocupada com a cultura. Nós temos esses espaços. Eu adoro cantar no Campo de São Bento. Acho que é um palco para novos artistas também. É um palco muito importante na minha vida, na minha carreira. Claro, tudo tem seus problemas, mas a Cultura de Niterói se esforça e faz esses espaços serem valorizados pela população. Acho que precisamos de mais impulso para o povo frequentar mais esses espaços, ir mais ao teatro. Eu valorizo muito esses pontos de cultura niteroienses e espero que cada vez mais a Secretaria da Cultura invista nesses espaços. Niterói é meu berço e talvez meu fim. Tenho um apartamento em Botafogo, que é o meu cantinho carioca. Mas aqui é minha vida. O meu recanto de vida.

Gravação do DVD "Cabeça de vento", 2010. Foto: Paulo Rodrigues