Com explosão de casos de Covid em Niterói, o risco é de todos sofrerem

Por isso especialistas da UFF recomendaram lockdown imediato na cidade, diante do aumento do número de infectados e de mortes


por Silvia Fonseca



“Todos sofremos, mas há quem sofra em primeira classe, em segunda classe, em terceira classe - e há quem sofra nos porões”. Por isso especialistas da UFF propuseram novo lockdown em Niterói. Porque sabem que todos vão sofrer, na primeira classe ou nos porões, como disse o Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, ao endurecer as restrições no país para quebrar a curva de infecções e mortes por Covid-19 neste fim de ano.


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Niterói vive uma explosão de casos e mortes. Esta segunda onda da pandemia é pior que a primeira. Os profissionais de saúde estão esgotados. O sistema de saúde enfrenta situação preocupante. As pessoas passaram longo período sem cuidar de suas enfermidades crônicas e ficaram mais vulneráveis. Quase ninguém mais respeita o isolamento.


Onde isso vai parar? O que será de janeiro e fevereiro se nada for feito, com a Covid-19 infectando e matando mais do que nunca, numa cidade como Niterói, que chegou a anunciar que a pandemia estava sob controle em outubro/novembro? Quase não há mais leitos de UTI. As taxas de infecção e mortes de agora são as piores desde o início da pandemia.


Depois de receber a primeira dose da vacina da Pfizer contra a Covid, o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou nesta terça-feira (22):


-A verdade é esta: os nossos piores dias na batalha contra a Covid-19 estão à nossa frente, não atrás de nós.


É a mesma situação que enfrentamos. E todos sofremos, como disse o Presidente português.


Na primeira classe acabam ficando apenas os que podem ser tratados em casa. Como crianças e jovens, que mais dificilmente são infectados e raramente desenvolvem a forma grave da doença. Mesmo assim têm depressão, estão afastados da escola e dos avós, e sofrem, sofrem muito, especialmente quando a Covid-19 leva seus familiares.


Também ficam na primeira classe aqueles que, sem entrar na fase aguda da Covid-19, podem ser tratados em casa, têm recursos para obter assistência médica integral e de qualidade desde os primeiros sintomas, recuperando-se mais rapidamente e sem maiores sequelas.


A Covid-19 não faz distinção de idade ou classe social. Também os que podem pagar os melhores hospitais privados sofrem intubados nas UTIs e morrem de complicações causadas pelo coronavírus. Mas os mais pobres morrem por falta de socorro, sentados num banco de espera, ficando sem ar e esperança na fila por uma internação ou uma vaga de UTI.


Os mais pobres, os milhões (milhões!) de desempregados e suas famílias, os que perderam seus rendimentos, os que, além de toda dificuldade que enfrentam, não conseguem um tratamento digno e de qualidade na rede de saúde colapsada. Estes enfrentam um tratamento de segunda e terceira classes. Não por despreparo dos médicos, mas por falta deles, por falta de acesso aos serviços, por falta de leitos.


Sofrem na terceira classe e nos porões da pandemia também os idosos, sejam ricos ou pobres, os que têm doenças crônicas e ainda os profissionais de saúde. Estes estão extenuados, dez meses depois. Plantão após plantão nas UTIs, enfrentam o risco de virarem vítimas tentando salvar vidas.


Como diria Drummond, “João amava Teresa/que amava Raimundo/que amava Maria/que amava Joaquim/que amava Lili/que não amava ninguém.”


As vítimas da Covid-19 sempre são amadas por alguém, por muitos. Por isso os epidemiologistas da UFF recomendaram novo lockdown imediatamente em Niterói.