Com intervalos maiores, usuários das barcas relatam superlotação em horários de pico

Atualizado: Fev 26

Concessionária alega que redução se dá em função da queda de passageiros na pandemia


Por Gabriel Gontijo

Fila do desembarque na estação da Praça Araribóia, em Niterói. Foto: André Luiz Coutinho.


Desde que o Governador em exercício Cláudio Castro anunciou, na quinta-feira da semana passada (18), o aumento dos intervalos entre as embarcações nos horários de pico entre a Praça XV, no Centro do Rio, e a Praça Araribóia, no Centro de Niterói, passageiros estão se queixando de superlotação tanto nas embarcações quanto nas estações.


Inúmeros usuários estão reclamando em grupos do Facebook sobre a grande quantidade de pessoas esperando os horários de partida das barcas, postando fotos das filas intermináveis. Um deles é analista de mídias sociais André Luiz Coutinho, morador do Barreto, na Zona Norte de Niterói.


Trabalhando para uma instituição particular de ensino superior, ele estava de home-office em função da pandemia. Mas voltou a exercer a função de forma presencial e foi transferido para uma unidade localizada na Rua da Assembleia, no Centro do Rio. E desde que os intervalos foram ampliados, o estresse aumentou.


- Eu trabalho em um período de seis horas de expediente, entrando às 11 e saindo às 17. Se eu não pegar a barca pontualmente às 10 da manhã, chego atrasado na certa. Na volta ainda é pior porque eu tenho que esperar quase uma hora para voltar para casa. O detalhe é que pego a barca da volta totalmente lotada, com pessoas indo em pé - reclama Coutinho.


Ele fala que também precisou se adaptar a uma rotina na ida, pois o ônibus que o leva de casa, no Largo do Barradas, até o Terminal, no Centro, "costuma demorar um pouco". Por isso, ele tem saído mais cedo. Mas quando acontece alguma situação envolvendo engarrafamento, ele acaba pegando a linha 100, que faz Terminal-Castelo.


- Quando vou para o Terminal muitas vezes acabo optando por pegar o 100 que vai para o Castelo e, por incrível que pareça, eu acabo chegando em menos tempo ao trabalho. Isso é um absurdo, a CCR Barcas aumentou o preço das passagens e precarizou ainda mais um serviço que já não era dos melhores - desabafa.

Assim como nas estações, embarcações trafegam lotadas no horários de pico. Foto: André Luiz Coutinho


Quem se queixa nesse sentido é o profissional autônomo Claudinei Silva. Trabalhando como técnico de conserto em ar-condicionado, ele precisa do transporte público para se deslocar ao Rio por não ter veículo próprio. Explicando que prefere usar o ônibus quando tem que ir à capital por morar próximo à Alameda São Boaventura, no Fonseca, ele pega a barca quando há algum engarrafamento na ponte. E também precisou readaptar os horários para não se atrasar quando tem alguma visita marcada.


- Geralmente pego o ônibus porque moro perto da Alameda, próximo de um dos acessos à ponte. Mas há situações que me obrigam a pegar a barca, como nesta segunda (22), onde esperei por mais de uma hora no ponto e nada da condução chegar. Daí sou obrigado a fazer a travessia pela Baía de Guanabara. E o trânsito de casa até o centro de Niterói já é muito complicado. Para não atrasar, saio mais de uma hora antes do que de costume. Ou seja, se eu tenho que sair às nove da manhã, saio de casa por volta de 7:45 para não me atrasar - explica Silva, que também critica o preço das passagens e a qualidade do serviço.


CCR Barcas alega queda de 75% dos passageiros e afirma que alteração dos intervalos está de acordo com decreto


A reportagem procurou tanto a CCR Barcas quanto a Secretaria Estadual de Transportes pedindo um posicionamento de cada uma sobre as reclamações. A concessionária informou que devido à pandemia "trabalha com uma queda de 75% no número de passageiros do serviço de transporte aquaviário", sendo que, ainda de acordo com a empresa, a média diária de passageiros caiu de 80 mil para 19 mil.


Questionada sobre uma possível revisão nos intervalos de horário, a CCR disse que "cabe ao Poder Concedente, o Governo do Estado do Rio de Janeiro, determinar as alterações operacionais" das barcas, sendo que "as grades de horário em vigor estão de acordo com o Decreto Estadual 47.489/2021, que dispõe sobre medidas relacionadas ao transporte público no atual período de enfrentamento à Covid-19".


Vice-presidente da Alerj promete "apelo" ao governador sobre o tema


O vice-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputado estadual Jair Bittencourt (PP), encaminhou na tarde desta quarta (24) um ofício ao governador Cláudio Castro pedindo para que as barcas voltem a circular nos horários anteriores ao período de isolamento social e medidas restritivas. O parlamentar considera um "atentado à saúde pública a superlotação nas embarcações em meio à proliferação de novas variantes do coronavírus no estado".


Na justificativa ao governador, o deputado pede ainda que a Agestranp - a agência reguladora - realize fiscalizações nos horários de maior movimento, para constatar o número excessivo de passageiros que estão sendo transportados em cada embarcação.


“A existência de novos casos diários de Covid-19, inclusive com mortes de pacientes contaminados com as variantes brasileira e britânica, torna necessário que o poder público fiscalize as barcas e tome medidas necessárias para a segurança da população”, alerta Jair Bittencourt.


Aditivo ao contrato de concessão previa a aquisição de mais nove embarcações. CCR diz que o assunto é de responsabilidade do governo do estado, que não se manifesta


Algo que chama a atenção é o fato de um aditivo feito, em 2016, ao contrato de concessão entre o Governo do Estado e a CCR Barcas. Na ocasião, o então governado em exercício Francisco Dornelles (o chefe do Executivo estadual da época, Luiz Fernando Pezão, estava de licença por causa de um tratamento contra um câncer) citava que o estado estava adquirindo nove embarcações novas, sendo que algumas já se encontravam em operação.


Questionada a respeito das barcas que estavam sendo negociadas para aquisição e que poderia ser usadas na atualidade, a CCR informou que esse "assunto é tratado pelo Poder Concedente, o Governo do Estado do Rio de Janeiro". Procurado para falar sobre isso, a Secretaria Estadual de Transportes não respondeu, como também não se manifestou sobre uma possível revisão no intervalo de horários.


Atualmente, são 19 embarcações que fazem a travessia pela Baía de Guanabara, sendo 13 catamarãs e seis barcas. Questionada quais são as embarcações que fazem o serviço entre Rio e Niterói, a empresa disse que "não existem embarcações fixas para linhas ou horários, uma vez que os barcos são utilizados conforme a demanda e a disponibilidade, sempre em concordância com o contrato de concessão".