Com redução de mortes por Covid-19, Inglaterra começa a sair do lockdown

Combinação de fechamento do comércio não essencial, vacinação e testagem foi decisiva para controlar a transmissão e salvar vidas

Por Geraldo Cantarino*

Londres reabre nesta segunda. Geraldo Cantarino


A partir desta segunda-feira (12), a Inglaterra dá mais um passo para sair do lockdown nacional, decretado em 4 de janeiro. Seguindo o plano de ação anunciado em 22 de fevereiro, o governo britânico confirmou a suspensão de uma série de restrições rumo a alguma normalidade. O comércio não essencial, que inclui lojas de roupa, salões de beleza e barbearias, poderá reabrir as portas ao público, depois de mais de três meses sem funcionamento.


Indagado por uma repórter se já havia marcado uma hora no barbeiro para cortar a longa e desalinhada cabeleira loura, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, riu e disse, brincando, que preferia agendar uma ida ao pub. De fato, estabelecimentos do setor de hospitalidade, como pubs, bares e restaurantes, poderão voltar a servir seus clientes, desde que seja ao ar livre, por enquanto.


A expectativa para a reabertura dos pubs é grande e muitos deles já estão aceitando reservas há dias. Afinal, eles são uma tradição secular britânica, um ponto de encontro da comunidade descrito ainda no século XVII como o “coração da Inglaterra”.


Para a Associação Britânica de Cerveja e Pub (BBPA), embora a notícia seja empolgante para os frequentadores, apenas 40% dos pubs na Inglaterra, cerca de 15 mil estabelecimentos, vão abrir para serviço ao ar livre a partir do dia 12. Por isso, segundo a BBPA, é ainda mais importante que o governo siga as datas do plano de ação para garantir que os pubs possam reabrir em ambientes fechados em 17 de maio e sem quaisquer restrições a partir de 21 de junho, e começar, assim, a sua recuperação econômica.


Todas essas datas, no entanto, estão condicionadas a bons indicadores de controle da transmissão do vírus.


Bons números


O começo do fim das restrições na Inglaterra só foi possível em função do controle da transmissão do vírus e a redução do número de mortes. O país ainda não está fora de perigo de uma recaída, mas os indicadores apontam uma expressiva melhora desde o período mais grave da pandemia, em janeiro deste ano.


No início de 2021, o número de novos casos diários de Covid-19 chegou a quase 70 mil. Os dados mais recentes indicam agora apenas 1.730. O número de pacientes internados com Covid-19 em hospitais despencou de quase 40 mil para os atuais 2.862. E as mortes diárias pelo coronavírus, que chegou ao pico de 1.820 em 20 de janeiro, caíram para apenas sete em 24 horas. Esse é o número mais baixo de mortes diárias dos últimos sete meses de pandemia no Reino Unido. O país lidera o ranking de mortes por Covid-19 na Europa com 127 mil óbitos.


O que deu certo


Apesar de uma sucessão de graves falhas no início da pandemia, que contribuíram para o agravamento da crise sanitária no país e a morte de milhares de pessoas, o governo britânico conseguiu tomar as rédeas da situação. O atual sucesso do enfrentamento ao vírus na Inglaterra está baseado em três ações conjuntas: lockdown nacional de três meses, vacinação e testagem em massa.


Durante o lockdown, o governo britânico ofereceu suporte a empresas e trabalhadores autônomos com um pacote de medidas. Isso incluiu empréstimos, benefícios fiscais e auxílio emergencial em dinheiro.


O governo também investiu bilhões de libras para aumentar a sua capacidade de teste e rastreamento da Covid-19. Desde sexta-feira (9), qualquer pessoa pode ter acesso a teste rápido de coronavírus, de forma regular e gratuita, mesmo que não apresente nenhum sintoma da doença.


“Junto ao programa de vacinação, os testes regulares estão no coração dos planos de reabrir a sociedade e a economia, ajudando a suprimir e controlar a disseminação de variantes”, anunciou o governo.


No Reino Unido, 32 milhões de pessoas já receberam a primeira dose da vacina e 7,4 milhões a segunda, totalizando quase 40 milhões de vacinados. Isso significa que 48.1% da população britânica já receberam pelo menos uma dose da vacina contra a Covid-19.


Um relatório recente do Departamento de Saúde Pública da Inglaterra (PHE) estimou que o programa de vacinação da Covid-19 evitou 10.400 mortes em pessoas com mais de 60 anos até o final de março, além das 4.300 relatadas anteriormente.


A análise é baseada nos efeitos diretos da vacinação sobre a mortalidade. “Há evidências crescentes de que ambas as vacinas [Pfizer-BioNTech e OxfordAstraZeneca] em uso na Inglaterra previnem a infecção e a transmissão”, informa o relatório.


De acordo com o documento, essas descobertas fornecem evidências adicionais de que o programa de vacinação da Covid-19 já está tendo um impacto significativo no controle da doença na Inglaterra, somado ao efeito do lockdown nacional.


“Além disso, o verdadeiro valor dessas vacinas pode estar em termos de mortes futuras que podemos agora evitar se houver um ressurgimento de Covid-19 no futuro no Reino Unido”, concluiu o relatório.


*Geraldo Cantarino é jornalista, nascido em Niterói, formado pela Universidade Federal Fluminense. Tem Mestrado em Documentário para Televisão pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres. Trabalhou no Globo Ciência, da Rede Globo, e na TV Bandeirantes. Na Inglaterra, atuou como fotógrafo e tradutor. É autor de quatro livros, entre eles “A ditadura que o inglês viu”, que reúne documentos sigilosos do arquivo oficial do Reino Unido, em Londres, com a visão britânica dos primeiros 15 anos da ditadura no Brasil. (www.cantarino.com)