Cordel e artes plásticas se encontram no Museu Antonio Parreiras de Niterói

História do pintor Antonio Parreiras ganha versão na tradicional literatura nordestina


Por Livia Figueiredo

O cordelista João Batista Melo / Foto: Reprodução da Internet


“Depois de vencer a seca nessas terras brasileiras atravessar rio fundo riachos e corredeiras, hoje o Cordel vem falar em linguagem popular quem foi Antonio Parreiras.” Os primeiros versos do cordel do poeta sergipano João Batista Melo, de 82 anos, revelam a proposta desse encontro entre a literatura popular e as artes plásticas, entre ele e o pintor niteroiense Antonio Parreiras, ícone do paisagismo brasileiro dos séculos XIX e XX. Nascido em Niterói, Parreiras se instigou pela arte quando tinha apenas 12 anos, quando viu um artista pintando uma tela. Ao longo de sua carreira, ficou reconhecido pelo seu traço leve. Além de paisagens, pintou retratos, nus e quadros de temas históricos.


Convidado pelo Museu Antonio Parreiras, um espaço da Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ), localizado no Ingá, em Niterói, o poeta João Melo criou um cordel com 32 estrofes de seis versos cada sobre a trajetória do pintor. A partir do texto, foram produzidos dois vídeos com a participação do autor: um interpretando o Cordel e outro em que aborda o processo de escrita e a potência da literatura popular no campo da Educação. O resultado pode ser conferido no canal do museu no YouTube.


- Nem sempre me convidam para fazer cordel sobre arte. É sempre cordel sobre brigas, embate, acontecimentos fora do normal. Mas como eu sou um cara convencido de que você pode escrever sobre tudo que souber, aceitei de bom grado. Por que não escrever sobre um artista que foi um pintor, um essencial artista? Me deram o material, e eu fiquei encantando com a iniciativa do cara, o seu desprendimento e como ele se jogava nas artes – explicou Melo.


Natural de Itabaianinha, em Sergipe, João Batista Melo cria e divulga suas produções na Feira de Artesanato do Campo de São Bento, em Niterói, escrevendo histórias sempre impregnadas de bom humor e poesia. A próxima etapa do projeto será desenvolver uma versão impressa do Cordel, a ser proposta como ferramenta pedagógica em escolas.


O Museu Antonio Parreiras faz parte da rede do Estado do Rio, mas está fechado desde 2012, diante da precariedade da construção. Além de todo o acervo do pintor, tem obras e pintores contemporâneos e importante coleção de pintura brasileira. Hoje, mantém atividades virtuais. A casa do Ingá, onde o pintor viveu e fez seus atelier possui uma ampla área externa de jardim, e abrigava oficinas de trabalho e salas de exposições. A ideia da construção da casa surgiu em São Paulo, quando Parreiras convenceu seu amigo e arquiteto, Ramos de Azevedo, a projetar em Niterói a sua residência-museu. Foi também em terras niteroienses que o pintor fundou um projeto popular, que ficou conhecido como “A Escola do ar livre”.


“Sem se vender a ninguém, superou muita amargura. Atravessou o Império, a República, a Ditadura. Sem graças, nem acalanto, encarou tempos de prato sem perder sua postura. Parreiras foi um exemplo de arte, luta e trabalho”, destaca o cordelista.


Tormenta, 1905, Antonio Parreiras / Pintura em óleo sobre tela


Pintor, desenhista, escritor e professor, Antonio Parreiras (1860 – 1937) iniciou os estudos na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), no Rio de Janeiro, como aluno do artista alemão Georg Grimm. Em 1884, abandonou a Academia, acompanhando seu mestre e outros alunos para formar o Grupo Grimm, marco da pintura de paisagem na arte brasileira. Realizou diversas viagens de aperfeiçoamento à Europa e tornou-se professor da Escola Nacional de Belas Artes. Em 1926, amplamente consagrado como artista, publicou o livro autobiográfico “História de um pintor contada por ele mesmo”, que dedicou ao filho Dakir.

Retrato de Antonio Parreiras em Paris (atribuído) / Acervo Museu Antonio Parreiras/FUNARJ