Covid-19 em Niterói deve mudar salas de aula

Diretor da Faculdade de Educação da UFF diz que pandemia agrava a desigualdade educacional mas também é oportunidade de mudança


Por Carolina Ribeiro


Foto: Divulgação/Fernando Penna


Já são quase três meses sem pisar em uma sala de aula. Como continuar educando com qualidade em meio à pandemia do coronavírus? Todos têm o mesmo acesso à educação durante este período? Como garantir o direito à educação? Quando poderão voltar às escolas? O Enem poderá ser realizado? Muitas perguntas rondam o futuro incerto com a crise da Covid-19, e a maioria delas ainda continua sem resposta. Muitas escolas, principalmente particulares, optaram pelo ensino remoto para darem continuidade ao ano letivo, mas estudantes da rede pública, em sua maioria, permanecem sem auxílio. Para o professor e diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando Penna, é preciso discutir o resultado da pandemia para a educação brasileira buscando reduzir a desigualdade educacional.


A Seguir: Com as aulas presenciais suspensas pela pandemia, como fica a educação, pública e privada?


Fernando Penna: O primeiro ponto a entender é que antes da pandemia já existia uma desigualdade educacional muito grande. Não é novidade para ninguém. Temos no Rio de Janeiro escolas particulares de elite na qual os alunos têm acesso a todo tipo de tecnologia, com aulas de história da arte, francês. Do outro lado, temos algumas escolas particulares e as públicas mais precarizadas, sem espaço ou tecnologia e com falta de professores. Essa desigualdade educacional não é uma novidade, é algo que já existia. Mas de alguma maneira vinha sendo naturalizada, não era tão discutida.


Isso se agrava agora?


No período de pandemia esse cenário é agravado. Professores de escolas particulares, especialmente aqueles de escolas de elite, estão dando suas aulas no mesmo horário, é como se as escolas estivessem funcionando nesse formato remoto. Os alunos continuam tendo suas aulas, têm contato com os professores, têm uma estrutura que permite que o ensino continue acontecendo. As escolas públicas lidam com precariedades, e não é só no trabalho docente que é cada vez mais precarizado, com piores salários e piores condições de trabalho, mas também a precariedade da vida dos estudantes. A pandemia não só agravou como deu uma visibilidade. Essa desigualdade que é, inclusive, um elemento dificultador no combate à pandemia. Estamos no período de isolamento social. Como falar de isolamento para pessoas que vivem em casas com um cômodo apenas, em que vários ficam juntos, que não têm acesso a esgoto, água. Isso, claro, impacta na educação. Essas pessoas, em sua maioria, também não têm acesso a computador. Quando têm acesso à rede, são os planos de dados do celular, com tela pequena para leitura prolongada. Muitas vezes os dados são liberados apenas para as redes sociais, e não conseguem assistir a aulas gravadas. Por mais que os professores estejam fazendo um esforço, que gravem aulas, por conta da realidade em que vivem, eles não têm acesso.


Quais as consequências dessa desigualdade educacional?


A desigualdade educacional afeta o direito à educação. Se torna mais grave num cenário em que não sabemos quanto tempo vai durar ou o que vai acontecer nos próximos meses. Não podemos dicotomizar também que a educação privada é toda de elite e a escola pública é toda precária. Não é assim. Temos uma rede pública, principalmente a Federal, que é excelente, o Colégio Pedro II, o Colégio de Aplicação da Uerj e da UFRJ, o Cefet. Assim como a rede privada, que não são todos de elite, há muitas pequenas que têm dificuldades. É preciso desconstruir essa dicotomia entre a rede pública e privada.

A experiência desta pandemia pode desenvolver uma espécie de nova sala de aula para o futuro?


Acho que toda crise apresenta oportunidade para mudança. Não sabemos para que lado essas mudanças vão caminhar. Uma demanda histórica dos trabalhadores é a diminuição do número de alunos por sala de aula. Temos turmas de educação básica com mais de 40 alunos em uma sala, os professores não conseguem conhecer esses estudantes. Isso impacta em como é construído esse conhecimento em sala de aula. Até que venha a vacina, e poderemos ter outras pandemias pela frente, não vamos poder continuar assim. Talvez uma luta que a gente possa fazer agora no campo educacional é de diminuir os alunos por sala. É uma luta antiga, mas que agora temos um motivo de saúde pública, pois não podemos manter salas abarrotadas de estudantes. Já acompanhei aulas de escolas públicas do Rio de Janeiro em que os alunos da frente tinham que sair para que os de trás conseguissem levantar, não tinha espaço. Essa realidade em um contexto de pandemia é inaceitável. É um exemplo de como podemos usar a experiência desta pandemia para avançar em demandas. Depende de muitos fatores, de uma disputa política, se os grupos vão ser ouvidos, mas essa catástrofe que estamos vivendo pode gerar mudanças positivas. Outro aspecto é que voltamos a problematizar essa desigualdade educacional que antes estava naturalizada.


Quais são os prejuízos deste período de pandemia para a educação brasileira?


Como falei, a crise dá oportunidade de mudanças. A pandemia evidenciou a desigualdade educacional. Precisamos conseguir que os alunos da escola pública acessem esse conteúdo. Por outro lado, a crise pode levar a uma ampliação da precarização. Conversei com um professor da rede pública do Rio que contou que as aulas estão sendo feitas em grupo de Facebook. No horário da aula, ele publica algo e quase nenhum aluno acessa. Ainda tem isso, mesmo tentando iniciativas de ensino remoto, os alunos não acessam. Os professores estão angustiados com isso também. A insistência dessa estratégia de ensino remoto, se ela perseverar pós-pandemia… Uma coisa é discutir isso durante a pandemia, mas imagina de maneira permanente.


É possível dizer que a pandemia trouxe prejuízos duradouros para a educação ou será um período passageiro?


Assim como essa crise pode gerar mudanças positivas, como a diminuição de alunos, valorização do docente e preocupação com a condição de vida dos estudantes, pode agravar a desigualdade e precarizar ainda mais as escolas públicas com um ensino remoto mal feito, sem treinamento para os professores ou plataformas necessárias. Há divergências, mas, de maneira geral, os educadores não apoiam a educação a distância. Se bem feita, pode ser importante para garantir o acesso à educação de pessoas que vivem afastadas dos grandes centros. O problema é que para ser bem feita exige uma formação dos professores, infraestrutura que pode ser ainda mais cara do que a presencial devido à tecnologia empregada. Os professores, até de escola privada, não foram formados para editar vídeos e produzir, eles estão muito sobrecarregados, pois além disso, ainda estão disponíveis em grupos de WhatsApp. Uma máquina nunca vai substituir o trabalho dos professores, é um processo já chamado de “uberização” do trabalho docente, que pode levar ainda a desemprego e precarização dos professores. E o direito de imagem dos professores, o direito autoral da construção da aula? Tem vários fatores que estão sendo discutidos, pois é tudo muito novo e as coisas estão se colocando de forma muito intensa.

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