Covid, eleições e igreja. O peso do voto evangélico em São Gonçalo

Segundo turno entre Dimas Gadelha (PT) e Capitão Nelson (Avante) envolve Deus e o diabo na disputa pela Prefeitura


por Gabriel Gontijo

Gadelha, do PT, tem vantagem contra o bolsonarista Capitão Nelson

A disputa eleitoral não se encaixa em nenhum livro religioso. Acusações, notícias falsas e manobras para derrubar o adversário miram o eleitorado evangélico, considerado decisivo em São Gonçalo, segunda cidade mais populosa do Estado do Rio. No domingo, o município decidirá quem assume a Prefeitura: Dimas Gadelha, do PT, ou Capitão Nelson, do Avante.


Gadelha conta com o apoio do ex-prefeito de Maricá Washington Quaquá, dirigente petista no Estado do Rio, e do Prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, do PDT. Já Capitão Nelson (Avante), um PM, é alinhado com a pauta bolsonarista, que fala em Deus e na pátria.


No primeiro turno, o candidato petista foi o primeiro colocado com 31,36% dos votos válidos, enquanto o policial militar passou para a decisão com 22,82% após disputa bem apertada com Dejorge Patrício (Republicanos), que ficou de fora da disputa final por uma diferença de apenas 0,20%. Segundo pesquisa realizada nesta quinta-feira (26) pelo Instituto Inteligence Serviços e registrada pelo Tribunal Superior Eleitoral, o candidato do PT aparece 43% das intenções de voto enquanto o concorrente do Avante aparece com 27%.


Capitão Nelson acena bandeira bolsonarista para ter o voto evangélico


E o eleitorado evangélico deve ter uma participação direta na escolha do novo prefeito. São Gonçalo tem uma população estimada de 1,1 milhão de habitantes, segundo o IBGE. Destes, 325.310, segundo o IBGE, quase um terço do total, são da religião evangélica.

A questão resvalou para a religião depois que o Prefeito José Luiz Nanci, candidato a reeleição, que amargou um quinto lugar na eleição de 15 de novembro, adotou medidas de restrição a atividades na cidade no combate ao coronavírus, entre elas a adoção de protocolos para funcionamento dos templos e igrejas.


Foi o bastante para o pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia, atacar o atual prefeito por "favorecer o PT" com essa decisão, talvez considerando o uso político dos tempos no apoio ao candidato que apoia, o Capitão Nélson. O religioso fez uma live na última sexta (20) a respeito do assunto.

O A Seguir, Niterói conversou com o pastor Marcos Aurélio Mello, da Comunidade Cristã Oásis. Ele explica que já durante a pandemia houve uma readaptação, com as transmissões se dando de forma online e "com frequência somente das pessoas necessárias a transmissão do culto". Ou seja, as providências foram tomadas antes do decreto e mantidas desde então. Mas se alguém deseja participar de alguma reunião, é necessário uma marcação prévia. - Diminuímos em 50% o número de assentos e os irmãos precisam fazer sua inscrição pela internet para poderem participar das reuniões. E pessoas que fazem parte do grupo de risco, não podem participar, são orientadas a participarem dos cultos em sua casa", explica o pastor. Questionado a respeito de uma possível perseguição, o religioso afirma não ter tido nenhum problema com o decreto promulgado pelo Prefeito. -Tenho amigos meus de outros municípios que tiveram dificuldade até para transmitir o culto. Mas no nosso caso, não tivemos dificuldades imposta pela autoridade municipal", afirma.

Tradicionalmente, evangélicos são decisivos em disputas eleitorais na cidade

Com um percentual considerado alto entre os evangélicos, São Gonçalo chegou a ser considerada "a cidade mais evangélica do mundo", embora não haja estudos detalhados sobre isso. Mas é fato que a influência desse eleitorado se faz presente de maneira forte na política municipal, pois São Gonçalo teve dois chefes do Executivo declaradamente evangélicos: Aparecida Panisset (2004-2012) e Neílton Mulim (2012-2016). Na reta final de campanha, ambos os candidatos trocaram farpas em busca do voto desse setor. Sem citar o nome do policial, Dimas afirmou que "as propostas devem interessar mais do que as fake news", fazendo referência a uma suposta acusação de que teria o apoio da Deputada Federal Flordelis (PSD), acusada de ter mandado matar o próprio marido, o pastor Anderson do Carmo de Souza. A acusação, segundo o candidato, teria partido da equipe do Capitão Nelson. - Fui surpreendido por mais uma fake news, distribuíram jornais de segunda categoria pela cidade, usam uma foto antiga para dizer que tenho o apoio da Flordelis, mas na verdade o partido da deputada é o PSD cujo candidato derrotado apoia o oponente. Todo dia criam uma mentira, não tenho dúvidas que muitas outras virão até o domingo das eleições, já que eles não crescem nas pesquisas e tampouco nas ruas e na vontade popular- afirmou o candidato. Mesmo ligado ao PT, partido considerado como "inimigo" da fé por alguns evangélicos, Dimas Gadelha tem o apoio de alguns nomes conhecidos do meio, como o do bispo da Assembleia de Deus de Madureira, Abner Ferreira. Questionado pelo A Seguir Niterói sobre o decreto que restringe as atividades até esta sexta (27), ele afirmou que a decisão deveria ser ampla, englobando comércio e templos. - O decreto deveria abranger todo tipo de atividade, local e comércio onde há aglomeração de pessoas, não com lockdown, mas com outras ações inclusive de conscientização da população para manter distanciamento e uso de máscara, por exemplo. Mas não há cabimento liberar bares e restaurantes, e proibir as igrejas e templos no geral. O que precisamos agora é de muita cautela e atenção para não enfrentarmos uma onda de contaminação pior que a primeira - afirma. Já o Capitão Nelson, do Avante, conta com o apoio de lideranças evangélicas conhecidas, como o Deputado Federal Ottoni de Paula (PSC) e o próprio pastor Silas Malafaia, que o apoiou publicamente no vídeo onde criticou a decisão de Nanci. O policial militar espera também atrair a simpatia desse eleitorado por também ter gravado um vídeo ao lado do presidente Jair Bolsonaro, que é conhecido por ter grande aproximação com a bancada evangélica em Brasília. E foi justamente em busca de uma virada, que ele deu um enfoque maior a encontros com autoridades religiosas nesta quinta (26). Participando de uma carreata por alguns bairros da cidade, Capitão Nelson contou com a presença do Senador Carlos Portinho (PSD), que foi quem ficou na vaga de Arolde de Oliveira, falecido em outubro vítima da Covid-19. Evangélico, assim como Arolde era, o atual ocupante de uma das cadeiras do Rio no Senado afirmou em discurso o apoio ao candidato do Avante.

- Para trazer recursos de Brasília para São Gonçalo, tem que ter o Presidente da República e sua base. Eu e Bolsonaro apoiamos Capitão Nelson - discursou. Depois do evento, Capitão Nelson se reuniu com lideranças religiosas e conversou com moradores e apoiadores no Paraíso.