Especialistas criticam campanha contra a vacina: 'é um desserviço'

Infectologista desmente boatos sobre a vacina da Covid e acredita em nova campanha de vacinação para o ano que vem

Por Amanda Ares

Especialista critica boatos antivacinas e fala em nova campanha de vacinação em 2022. Foto: Divulgação prefeitura de Niterói.


Subindo a escadaria ao fim da Travessa Rosa Machado Guedes, na Riodades, há um pequeno templo que só os moradores do lugar conhecem. É muito frequentado pela comunidade local, que busca a orientação do pastor. Funciona na laje de uma casa, e tem mantido as janelas abertas durante os cultos por causa da Pandemia de coronavírus, que teima em não ir embora.


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Um coro muito bem ensaiado canta para uma casa cheia algumas vezes na semana, e o pastor faz o sermão animado ao microfone. Há alguns meses, além dos salmos e louvores, uma pregação diferente tem feito parte do repertório do pequeno templo. São críticas do próprio pastor ao isolamento social e também às vacinas contra a Covid.


Ele não apresenta muitos argumentos, apenas critica “aquele jornal”, ou “aquela emissora”, que segundo ele falam mentiras para afastar os fiéis da igreja. Talvez esse seja seu medo, ficar sem plateia. Por fim, o pastor oferece uma solução que, na opinião dele, é melhor que a vacina: "a fé - e a oferta." O discurso acalorado é acompanhado de louvação e graça, como “amém” e “aleluia”, enquanto várias crianças sem máscara brincam e correm do lado de fora.


O relato acima mostra uma realidade com a qual o Plano Nacional de Imunização tem se deparado nos últimos ano e que se intensificou na pandemia: a campanha antivacina em nichos específicos da sociedade, baseada em desinformação e mentiras. A começar pelo discurso negacionista do presidente Jair Bolsonaro, que já chamou a pandemia de gripezinha, se exibe sem máscaras e já lançou dúvidas dobre os efeitos da vacina. Como o risco das pessoas "ficarem com a voz fina" ou "virarem jacaré."


Para ajudar a esclarecer algumas dúvidas sobre a vacinação, o A Seguir: Niterói conversou com o infectologista e professor André Ricardo Araújo, da Universidade Federal Fluminense. O especialista afirma que manter o distanciamento e o uso de máscara ainda serão essenciais durante o resto do ano para ajudar a conter a pandemia, enquanto toda a população não for imunizada. E ressalta: talvez seja necessário revacinar todos os anos, como ocorre com a vacina da gripe. Confira a entrevista:


A Seguir: Niterói: Por que todos devem se vacinar?


Professor Ricardo Araújo: Primeiro, porque estamos no meio da uma pandemia, e as vacinas foram feitas por um esforço coletivo de grupos de pesquisa no mundo todo com o intuito de melhorar essa nossa situação e de criar um imunizante capaz de atuar na contenção nesse primeiro momento, reduzindo a circulação do vírus no mundo.


É óbvio que toda vacina, quando lançada no mercado, vai precisar ser aperfeiçoada. Temos mais de 180 imunizantes em teste no mundo, e com o passar do tempo, teremos um produto que proteja não só das variantes mais perigosas mas que impeça a circulação de outras variações. No Brasil nós temos quatro tipos de vacinas.


Qual é o percentual ideal de vacinados antes de ser seguro tirarmos as máscaras?


- Esse é um conceito que se deve tomar cuidado. A vacina é um dos recursos para controlar o vírus. Falar em 70%, 80% de vacinação para retomar a normalidade é muito complicado. Não existe um número mágico que indique que está tudo bem. Mas se tivermos ao menos boa parte da população maior de 18 anos vacinado teremos um controle adequado.


Em Niterói, no mês que vem, com os maiores de 18 anos recebendo ao menos um dose, já temos expectativa de reabertura de retorno de algumas atividades. Mas o esquema só é completo duas semanas depois da segunda dose, ou da dose única. Isso com qualquer vacina.


E então a pandemia terá acabado?


Isso é falta de informação adequada. Esse assunto tem sido abordado de forma muito superficial, precisávamos aprofundar essa questão. Existem outras coisas que precisam ser ditas, como por exemplo, que as vacinas precisam ser aperfeiçoadas. Colocar toda a esperança nas vacinas para esse ano é ingenuidade.


A gente não sabe os efeitos de todas as vacinas disponíveis sobre as variantes que vão se desenvolver ao longo do tempo. Então, as vacinas têm que ser estudadas para serem aperfeiçoados, e provavelmente no ano que vem, serem reaplicadas na população. É uma possibilidade grande, porque o vírus Sars-CoV-2, como qualquer vírus respirável, ele muda ao longo do tempo. Um paralelo é o vírus da gripe. A cada ano, precisamos de um imunizante diferente para poder cobrir aquela variante que está circulando no mundo.


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Um dos medos é que o vírus da covid resista às vacinas, como o HIV, para o qual ainda não existe vacina. É possível que isso aconteça?


- Não acredito nisso. A dinâmica dele é diferente da do HIV, que é um retrovírus. É outro tipo de situação. Os dois sofrem mutações, só que o tipo de mutação que ocorre no vírus do HIV é bem diferente do que temos em vírus respiratórios.


Quem está atrasado deve correr atrás da segunda dose, ou precisará tomar outra primeira dose?


- A orientação é receber a segunda dose. Agora, essas pessoas que tiveram doses atrasadas é algo que deve ser estudado ao longo do tempo para saber se a proteção que ela vai ter vai ser igual a quem receber a vacina no tempo certo ou não. Mas não recomendo a reaplicação da primeira dose, e sim completar a imunização, tomando a segunda.


Tem chip na vacina? A vacina causa alteração no DNA?


- Não, não tem chip na vacina, nem causa alteração. Isso são teorias conspiratórias. A gente já via, antes da Covid, movimentos antivacinas, especialmente na Europa e nos EUA, o que atrapalha bastante a vacinação em países europeus desde antes da Covid começar a circular.


Isso causou , inclusive, o reaparecimento do sarampo no Brasil, onde já tínhamos eliminado a presença do vírus, mas com a chegada de turistas não vacinados em contato com brasileiros que talvez não tivessem tomado a vacina, o vírus voltou a circular.


Os efeitos colaterais podem levar à morte, como dizem alguns boatos?


- Não tenho conhecimento do registro de mortes relacionadas à vacina no Brasil.

Qualquer vacina tem efeitos chamados comuns, muito comuns, incomuns e raros. É essa a classificação. Os mais frequentes, são os que temos em qualquer vacina: dor no local da aplicação, desconforto no corpo por um ou dois dias, um pouco de febre.


Agora, quando se tem os efeitos graves, é preciso estudar pra saber se aquilo foi relacionado à vacina ou não. Nesse sentido, tem que se considerar todo o histórico de saúde da pessoa. Às vezes, uma doença que ela já tenha ou um medicamento que ela tome pode causar algum efeito grave.


A vacina pode fazer mal para recém nascidos que estão sendo amamentados?


- A princípio, não tem nenhum relato de efeito colateral em bebês. As vacinas que temos aqui no Brasil, nenhuma delas é de vírus inativado, que são as mais recomendadas para grávidas e lactantes, mas por precaução, por causa de casos na Europa de trombose em pessoas que tomaram AstraZeneca, que é vacina de vírus inativado, se recomenda que não sejam usadas em grávidas porque não há estudos o suficiente para concluir que é seguro ou não, nesse caso. Mas as outras vacinas podem ser dadas.


Criticar a vacina por criticar é um desserviço. O debate acho que tem se ser colocado assim: temos uma ferramenta, que nesse momento vai ajudar a conter a pandemia e ajudar a voltar à normalidade. Então, criticar a vacinação é algo que foge um pouco à compreensão.


O Brasil hoje tem quatro tipos de vacinas disponíveis. Quais as consequências, econômoca e sanitárias, de as pessoas escolherem tomar uma ou outra?


- Primeiro, porque a quantidade de vacinas não é uniforme. Os laboratórios estão atendendo não só o Brasil, e a capacidade de produção de vacinas não é tão ampla, então a estratégia de oferecer várias vacinas foi para possibilitar a entrega mais rápida, assim que ficassem prontas, então não é interessante a pessoa escolher.


Todas elas, para estar no mercado, passaram por vários estudos e todo tipo de teste a ponto de serem liberadas para o uso em populações grandes.


É pouco provável que a gente tenha desperdício de vacina. Caso um fulano que tenha indicação para receber e não queira receber, a vacina vai pra outra pessoa, como acontece com a xepa. Agora, a demora vai atrasar o alcance de um quantitativo ideal de vacinados, e isso vai atrasar a retomada das atividades que nós já poderíamos estar fazendo, então é uma consequência para a própria população.


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Calendário de vacinação


Nesta quarta e quinta-feira (07 e 08) se vacinam em Niterói pessoas a partir de 38 anos. A previsão é vacinar toda a população adulta até o dia 23 de agosto. Deve-se ir a um dos postos levando um documento original com foto e um comprovante de residência. Quem já tomou a primeira dose e vai tomar a segunda, deve levar o comprovante de vacinação.


Confira as datas do novo calendário de vacinação em Niterói:


Julho:


07 e 08/07- a partir de 38 anos

09 e 10/07 – a partir de 37 anos

12 e 13/07 – a partir de 36 anos

14 e 15/07- a partir de 35 anos

16 e 17/07 – a partir de 34 anos

19 e 20/07 - a partir de 33 anos

21 e 22/07 - a partir de 32 anos

23 e 24/07 - a partir de 31 anos

26 e 27/07- a partir de 30 anos

28 e 29/07 - a partir de 29 anos

30 e 31/07 - a partir de 28 anos


Agosto:


02 e 03/08 – a partir de 27 anos

04 e 05/08 – a partir de 26 anos

06 e 07/08 - a partir de 25 anos

09 e 10/08 - a partir de 24 anos

11 e 12/08 - a partir de 23 anos

13 e 14/08 - a partir de 22 anos

16 e 17/08 - a partir de 21 anos

18 e 19/08 - a partir de 20 anos

20 e 21/08 - a partir de 19 anos

22 e 23/08 - a partir de 18 anos