Aída fez faxina para pagar faculdade

Aída dos Santos brilhou no Japão em 1964, mas teve uma trajetória difícil em Niterói para concluir os estudos

por Livia Figueiredo


Aída no salto em altura, sua especialidade. Foto: Arquivo Nacional


Uma história de tirar o fôlego. Ex-atleta brasileira, mulher, negra, nascida e criada em uma comunidade de Niterói, Aída dos Santos foi um dos grandes destaques dos Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, quando conquistou o quarto lugar no salto em altura, alcançando marca que se tornaria o melhor desempenho de uma atleta brasileira por 32 anos.


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Sua relação com o esporte é de longa data. Começou jogando vôlei na escola em que estudava, em Niterói. No entanto, foi o acaso que revelou seu talento para uma outra modalidade: o atletismo. Quando ainda morava na comunidade do Morro do Arroz, Aída pegava carona com uma colega que a pressionava (“ou treina comigo ou vai para casa”), o que fez com que a atleta esperasse a sua colega e se apaixonasse pelo salto em altura.


Mas nada foi fácil para Aída. Sem apoio do pai, ela foi proibida de participar das primeiras competições, sendo levada às escondidas pela colega. Até que um episódio deu uma reviravolta e uma perspectiva de que seria possível, sim, investir no esporte. Quando bateu o recorde no colégio, ela optou pelo atletismo, deixando de lado o vôlei. Foi após bater um recorde sul-americano que Aída começou a driblar a resistência do pai.


Como atleta de salto em altura, Aída entrou para a história do esporte brasileiro, atingindo a marca de 1,74m nas Olimpíadas de 1964, chegando muito próximo do pódio. Faltou-lhe de tudo um pouco. Desprovida de qualquer assistência técnica e do aparato necessário para a competição, Aída participou dos jogos olímpicos sem o sapato e o uniforme adequados.


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Foi com sapatilhas próprias para a corrida, emprestadas por um fornecedor de material esportivo, convencido pela sua insistência. Aída também teve que enfrentar a barreira da língua e a ausência de um técnico que a orientasse. Sob essas condições e com o pé torcido ela conquistou o quarto lugar, sendo a única mulher da delegação brasileira a alcançar tal feito.


Quatro anos depois, Aída participou dos Jogos na Cidade do México e ficou em vigésimo lugar na modalidade do pentatlo. Posteriormente, continuou disputando torneios na categoria master.


Mesmo após a fama, Aída teve que trabalhar como faxineira, um ofício aprendido desde cedo, quando tinha uma rotina intensa tomada pela faculdade no período da manhã, trabalho à tarde e estudo à noite. Foi nesse contexto que a atleta, especialista no salto em altura, se formou em Educação Física, Pedagogia e Geografia. Aída chegou a lecionar Educação Física na UFF, de 1975 a 1987, formando diversos atletas em vôlei e atletismo, modalidades de sua preferência. Porém, a educação não se restringe apenas à prática do esporte: Aída fundou um instituto social, que leva o seu nome, cujo objetivo é formar cidadãos, apresentar para as crianças um futuro melhor e uma vida saudável.


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A genética do esporte


Aída tem três filhos: Rogério, Patrícia e Valeska. Todos carregam na genética a vocação para o esporte. A última, conhecida como Valeskinha, apelido dado pelo técnico Bernadinho, seguiu os passos da mãe naquela que teria sido a sua primeira vocação, se destacando no vôlei. Valeskinha foi campeã olímpica na modalidade e é hoje uma atleta consagrada como a mãe. Ouro em Pequim em 2008, Valeskinha “dividiu” a medalha com a mãe. Rogério e Patrícia, os outros dois filhos de Aída, disputaram competições nacionais e internacionais de vôlei e atletismo.


Aída vestindo a camisa do Botafogo, seu time do coração / Foto: Reprodução da internet


Ela diz que têm três clubes na vida: o Fluminense Atlético, de Niterói, onde começou, o Vasco, por onde competiu, e o Botafogo, seu clube do coração. Atualmente Aída coleciona em sua casa medalhas por conquistas no arremesso de peso, corrida de revezamento, basquete e vôlei. A consagração do seu esforço ao longo dos anos resultou em duas homenagens. A primeira na pista de atletismo da UFF, inaugurada em 1995, e a segunda, em 2006, quando recebeu o Troféu Adhemar Ferreira da Silva, entregue anualmente a uma personalidade com importante vida atlética. Agora, receberá mais duas homenagens, um mural e uma estátua, esta ainda a ser aprovada pela Prefeitura.

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