Desde fim do lockdown, Niterói tem mais de 2.100 casos de Covid

Isolamento social na cidade cai para 44%, quando o ideal é 70%


Por Silvia Fonseca


Muita gente na rua e sem máscara na terça-feira (9/6). Foto: Gustavo Stephan


Desde que começou a relaxar as regras de isolamento social, em 21 de maio, Niterói já registrou mais 2.103 casos confirmados de Covid-19 e 60 mortes pelo vírus. Da flexibilização até esta terça-feira (9/6), foram muitos mais pessoas infectadas do que nos dois meses anteriores ao 21 de maio, quando havia restrições mais severas para circulação na cidade. E por que relaxar então?


Qualquer região, estado ou município que flexibiliza a quarentena em uma pandemia sem reduzir taxas de contaminação e letalidade por 100 mil habitantes não faz isso por evidências científicas, mas por pressão econômica e política. A afirmação é do especialista em modelagem computacional Domingos Alves, líder do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Universidade de São Paulo (USP), que trabalha com vários pesquisadores de universidades brasileiras nas projeções do grupo “Covid-19 Brasil”. Ele não fala especificamente de Niterói, mas de todos os municípios e estados que estão relaxando as regras de isolamento e se afastando das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), como o Rio de Janeiro, por exemplo.


Após a flexibilização, se autorizada sem que a curva da doença tenha entrado em declínio, em cerca de dez dias o cenário é de caos, diz Alves.


A prefeitura de Niterói sustenta que a situação está sob controle e já acena com a possibilidade de flexibilizar ainda mais depois do feriadão, quando o sistema de monitoramento implantado no município pode passar de laranja para amarelo 2.


Mas em dois meses de quarentena mais rigorosa, de 19 de março a 21 de maio, foram 85 mortes confirmadas por Covid em Niterói. Só nos últimos 19 dias, porém, houve mais 60. Isso mostra que o isolamento social é a única forma de conter o avanço da doença, como afirma a OMS.


E o assustador é que a taxa de isolamento social em Niterói não para de cair desde a reabertura da orla e de parte do comércio não essencial em 21 de maio: nesta segunda-feira (8/6), era de apenas 44,3%, quando o ideal é 70%.


Os indicadores que têm de ser observados para uma eventual flexibilização do isolamento, segundo o professor Domingos Alves, são a taxa de infecção por 100 mil habitantes, a taxa de internação por 100 mil habitantes e de leitos disponíveis por 100 mil habitantes. O estado ou município que não tiver esses indicadores em queda por duas ou três semanas e flexibilizar pode ter aumento de 150% no número de infectados e mortos por Covid em cerca de dez dias, prevê o especialista.


Mas a prefeitura de Niterói não divulga a taxa de ocupação de leitos nem qualquer outro índice por 100 mil habitantes. O que a prefeitura diz é que a taxa de letalidade no município é a mais baixa da Região Metropolitana do Rio. Acontece que o número de mortes por 100 mil habitantes está entre os piores da região.


Outra recomendação da OMS, destaca o professor, é que todo processo de controle de epidemia e relaxamento de isolamento tem de ser regionalizado. Especialmente numa Região Metropolitana como a do Rio, onde as taxas de contaminação e de ocupação de leitos são dramáticas, caóticas.


Mesmo que Niterói tenha um número de leitos disponíveis controlado, é inevitável que a cidade receba pacientes de outros municípios que não têm vagas em UTIs ou nem mesmo UTIs. Por isso é importante regionalizar as decisões.


É impressionante o número de pessoas nas ruas de Niterói já, inclusive na orla de Icaraí, um dos lugares mais vigiados e fotografados da cidade. Para o professor, a população não tem culpa de ir para a rua, mas os governantes que flexibilizam o isolamento sem respaldo científico, sim.


- Quem relaxa o isolamento (sem indicadores que permitam isso) diz que está controlando a epidemia. Não está! Está é abrindo leitos e comprando respiradores. Mas não está controlando a epidemia - sustenta, já que o consenso internacional é que só se controla a Covid-19 com o isolamento social.

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