Diretor do hospital de referência em Covid de Niterói diz que quadro se estabilizou

Gestor do Carlos Tortelly conta que CTI da unidade chegou a ter ocupação total


Por Carolina Ribeiro

Ubiratan Moreira Ramos, diretor-geral do Hospital Municipal Carlos Tortelly

Mais de 250 pessoas com Covid-19 já foram internadas no Hospital Municipal Carlos Tortelly, uma das unidades de referência no combate ao coronavírus em Niterói. A grande maioria dessas pessoas, segundo a prefeitura, foi curada. Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o diretor do hospital, Ubiratan Moreira Ramos, diz que, devido ao planejamento do município, a cidade já está mais estabilizada em relação à transmissão do vírus e, em breve, novas flexibilizações já poderão ser realizadas. Ubiratan é médico geriatra e está à frente do Tortelly há cinco anos, mas já ocupou o cargo em outras unidades. Formado há 23 anos, tem pós-graduação em Gestão Pública pela Fiocruz e trabalha com gestão há 15 anos.


A Seguir: Como é a rotina dentro de um hospital de referência no tratamento e combate ao coronavírus?


Ubiratan Moreira Ramos: O hospital fez algumas mudanças estratégicas em relação à pandemia. Nós éramos uma unidade clínica, que dividimos em “área Covid” e “não Covid”. Montamos uma tenda na área externa onde paciente com suspeita de infecção são atendidos. Neste lugar, os pacientes são acolhidos e classificados, passam pela consulta médica e fazem exames. Dali são encaminhados para residência, se estiverem bem, ou internados, se tiverem indicação. Dentro do hospital também separamos algumas alas para pacientes com Covid-19. Esse espaço da tenda não existia antes, toda equipe que trabalha lá são de funcionários novos que foram capacitados. Além disso, também há uma equipe mais robusta para os pacientes do CTI de Covid, onde há mais funcionários por número de leitos. Toda a capacitação foi dada. Nós temos salas de paramentação para que os funcionários troquem de roupa antes de entrar e sair dos setores. Também ampliamos o nosso setor de psicologia, que antes era apenas para os pacientes e agora montamos para os funcionários também. Alguns funcionários tinham mais de 60 anos, eles foram afastados, assim como aqueles que têm comorbidades pré-existentes, que também foram alocados em setores que não têm contato com pacientes infectados.


A entrada do Hospital Carlos Tortelly


O coronavírus pode ser a maior pandemia da História desde a gripe espanhola. Quais foram os desafios enfrentados para transformar o Hospital Municipal Carlos Tortelly em uma das unidades de referência no tratamento do Covid-19 em Niterói?


O município começou a se preparar muito no início. Desde o final de janeiro, já havia sido montado um grupo de gestão de resposta rápida à Covid-19. Não tinha nenhum caso no Brasil e já estávamos pensando como seria e prevendo situações, como já havia acontecido no exterior, como falta de equipamentos e de protetores para funcionários. Compramos uma certa quantidade de material de proteção, alugamos respiradores, camas hospitalares, e começamos a estudar onde poderia ser montada a tenda e a separação dos setores. Conseguimos fazer com planejamento, antes de tudo acontecer. Não fomos surpreendidos. Quando os casos chegaram ao Brasil e a Niterói, já tínhamos o plano esquematizado. E claro que o desafio existe, é uma doença nova. A gente se preocupa em não ser contaminado, não trazer risco para casa, mas foi tudo tão planejado, que acredito que foi mais tranquilo do que poderia ser. Talvez o maior desafio que enfrentamos aqui no município foi o isolamento social, que mexeu mais com toda a população e também conosco da área da saúde.


O Carlos Tortelly tem hoje 13 leitos de UTI para Covid-19. O hospital chegou a atingir sua capacidade total?


Sim, ficamos com a capacidade total ocupada. Mas toda a rede está integrada. Quando uma unidade ficava sobrecarregada, fazíamos a transferência de pacientes. Quando eram casos mais graves, iam para o Hospital Oceânico. Se era um paciente mais clínico, encaminhávamos para o Hospital Orêncio de Freitas, no Barreto. Foi tudo muito bem articulado. Nenhum paciente ficou sem atendimento ou precisando de leitos.


Por conta da pandemia, a prefeitura de Niterói realizou a contratação de mais funcionários, assim como a compra de mais respiradores. O Carlos Tortelly sentia a necessidade de mais funcionários?


Essa contratação foi pontual. O quadro de funcionários que tínhamos já nos atendia. Na pandemia, principalmente no CTI de Covid-19, o paciente infectado desestabiliza muito rapidamente, por isso temos que ter um número maior de técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos, fisioterapeutas. Com as contratações, suprimos essa demanda.


Houve casos de funcionários contaminados por Covid-19?


Não tem jeito. Estamos na linha de frente, então funcionários acabam sendo contaminados. Mas todos se recuperaram e já retornaram a suas funções. A equipe toda está encarando bem a pandemia, até achamos que seria um pouco mais complicado. É uma doença nova, que não existia, mas a equipe está surpreendendo. Desde os coordenadores, que muitos acabaram se contaminando, até as pessoas de servicos gerais. Eles recebem toda a assistência no hospital, fazemos testagem nos funcionários, isolamos e acompanhamos diariamente, além do atendimento psicológico. E ficam ansiosos para voltar e ajudar mais pessoas.


A oposição diz que a estrutura do Carlos Tortelly é precária e que a unidade nunca teve um tomógrafo. Além disso, em fevereiro, os aparelhos de ar condicionados estavam quebrados. Enquanto diretor do hospital, como observa essas críticas? Elas são verídicas? Já tem o tomógrafo?


Junto ao planejamento para o coronavírus, o planejamento e a política de atendimento em saúde não pararam. O prédio do hospital é mais antigo, teve que sofrer algumas adequações até para as novas regulamentações da área da saúde. Isso tudo caminhou junto. Acontecendo ou não a pandemia, isso tudo seria resolvido, como o problema do ar condicionado foi solucionado. Recebemos um investimento financeiro em relação a obras, estamos montando um Centro de Imagem, com previsão de ser finalizado no final do ano. As obras continuam acontecendo, mesmo tendo que dividir o hospital. Agora, problemas realmente existem, como qualquer unidade de saúde enfrenta, mas são problemas pontuais que são resolvidos assim que possível. Essas normas de adequações mudam todo o ano. É um prédio antigo, mas dentro dele adaptamos tudo o que é necessário. Tínhamos um CTI de seis leitos, hoje estamos ampliando para 20 leitos.


(O Centro de Diagnóstico Integrado (CDI) tem previsão para ser entregue neste ano com investimentos de mais de R$ 8 milhões, entre obras e compra de equipamentos. Serão duas salas para radiologia digital, sala para mamografia, tomografia computadorizada, além de salas de endoscopia, ecocardiografia e ultrassonografia e de espera. Além do CDI, o hospital está passando por obras para ganhar novos leitos de UTI, enfermarias e reformas em outros ambientes.)


Especialistas não têm certeza se a doença, há 100 dias no Brasil, já chegou no pico de transmissão. Estando na linha de frente do combate ao vírus, o que espera do futuro em relação aos aprendizados com o coronavírus?


Acreditamos que já estamos dentro de um quadro estável do coronavírus, estabilizado. A equipe de gestão, seja na Fundação Municipal de Saúde ou na própria prefeitura, todos estão muito bem informados e acompanhando de perto. Se for preciso dar um passo atrás, será dado, assim como um passo para frente. Se depois percebermos a necessidade de regressar, será feito. O trabalho é muito bem estruturado, seja na parte da saúde ou da economia. Com certeza a pandemia trará um aprendizado para a população. O que nós, da área de saúde, sempre fizemos, de cuidados para não disseminar contaminação, gora se tornou algo comum a todo mundo. Essa preocupação de limpeza, de lavar as mãos e de deixar o sapato do lado de fora da casa, tudo isso muda em questão de higiene pessoal.


Como você lida com comentários de pessoas que ainda não acreditam na gravidade do vírus e desconfiam da quantidade de mortes?


As pessoas que estão mais distantes daquilo que passamos todos os dias têm uma certa “ignorância”. Nós, que estamos na linha de frente, continuamos tratando do restante das doenças, o hospital continua tratando das demais patologias que sempre atendemos. Há pessoas que são assintomáticas e, felizmente, a maioria dos que são internados, inclusive no Carlos Tortelly, saíram bem. Alguns, infelizmente não. Mas é uma coisa séria que as pessoas não conseguem enxergar. Algumas mídias, que não são sérias, também ajudam a disseminar informações contrárias à verdade. Qualquer pessoa pode postar e também comentar aquilo que acredita, como os casos de blogueiros que compartilham suas opiniões para seus seguidores.


Por fim, Niteroi enfrentou e está enfrentando bem a pandemia?


Niterói enfrentou a pandemia muito bem. Nós conseguimos, através de muito trabalho. Estamos desde janeiro neste trabalho, são mais de cinco meses trabalhando ininterruptamente. Se tiver que ir ao hospital ou nos reunir virtualmente aos finais de semana, nós fazemos. Estamos cansados, mas acho que satisfeitos com aquilo que conseguimos realizar. Estamos agora analisando todos os dados estatísticos de pacientes atendidos e aqueles que recebem alta, até para tentarmos voltar ao mais normal possível. O passo [de flexibilização do isolamento] que foi dado foi no momento certo e já podemos avançar mais em breve. Para isso temos um grupo de gestão com dados mais detalhados.

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