Duke, o gato e os quadrinhos surgidos na pandemia em Niterói

Premiado cartunista da cidade se diverte com o companheiro de quarentena


Por Silvia Fonseca



Isolamento social não é problema para gatos. Menos ainda para um felino manhoso, preguiçoso, medroso e extremamente comilão. Duke, o personagem, chegou durante a pandemia e virou quadrinho, além de ganhar uma página só sua no Facebook. Tem nome de pianista de jazz, mas gosta mesmo é da música do barulho da ração, segundo seu pai e criador, o chargista Márcio Malta, o Nico.


Duke, o gato, foi adotado por Nico e sua mulher durante a pandemia. Os três estão isolados em casa, em Niterói, e passam bem, obrigada, sem reclamar.


Desde o começo da Covid-19 na cidade, os três não saem de casa para nada. Quer dizer: agora saem para comprar ração, depois da chegada de Duke. O gato tinha sido batizado de Duque. Chegou na fazenda da sogra de Nico, em Quissamã, com olhar pidão e foi ficando.


- É uma baita companhia, um desejo antigo. A partir do momento em que ele chegou, as ideias pros quadrinhos começaram a surgir. Brinquei que eu também estava me adaptando – conta Nico, que tem 37 anos e nasceu em Niterói, onde mora e dá aulas de Relações Internacionais na UFF.


Nico trabalhou no OPasquim21 e, em 2009, ganhou o Troféu HQ Mix, o Oscar dos quadrinhos no Brasil, na categoria Melhor Livro Teórico com a obra “Henfil – o humor subversivo”, biografia do cartunista Henfil.


Ele não perde a chance de fazer humor com Duque, a adaptação do animal e do casal, as mudanças na dinâmica da casa, o hábito do gato de se esconder embaixo do fogão, a comilança…



Os desenhos fazem humor com coisas comum a gatos, “como querer brincar às 3h da manhã, a preguiça, não se levantar para pegar a bolinha que está perto...”, se diverte Nico.


Duke é preto e branco, na vida real e nos quadrinhos.


- Assim economizo na hora de imprimir – brinca Nico, que está divulgando os quadrinhos no Facebook mas já com plano de transformá-los em um livro. A ideia é publicar um desenho por dia durante todo o mês de agosto e, no final, publicar o livro. E completa:


- Ele se chamava Duque no lar temporário. Pelas cores frajola. Parece um terno. Rebatizei de Duke em homenagem ao Duke Ellington, um dos músicos de jazz de que mais gosto.


Nico toca violão e gaita, e desenha bastante temas de jazz. Inclusive, gatos tocando baixo. A vontade de adotar um animal era antiga. Nico é vegetariano em defesa dos animais.


- E o Duke caiu de paraquedas na nossa vida. Ele não teria para onde ir. Minha sogra tem quatro gatos em Quissamã. Duke chegou pedindo comida e a cativou. Ela ficou com pena e ele, então, virou o quinto elemento, mas ela não poderia ficar com mais um, pois vivem outras pessoas na casa e já havia muitos gatos. Minha esposa se apaixonou por ele e adotamos. A princípio a contragosto meu – conta Nico. – Mas hoje os dois já viramos pais.


Márcio Malta, o Nico, com a mulher e o gato Duke: adaptados

Nos quadrinhos Duke faz humor também com os brinquedos. Reclama que o lugar comum de dar ratos de borracha para gatos é muito pouco criativo, se queixa da ração de frango, que não rola uma picanha, e até do dilema de ter que contar para os pais que, na verdade, é adotado.


- Inverti a situação. O humor vem da quebra de expectativa. Nós estamos nos adaptando a ele. Hoje chegou um móvel novo e ficamos com medo de ele não gostar porque é para perto do cantinho dele...


Há um cartum em que Duke diz que irá escrever sua autobiografia, mas só de pensar nisso fica com preguiça porque dará muito trabalho, já que tem sete vidas. Nico se diverte e não esconde:


- O personagem me alivia de ter que fazer política. É um humor mais casual e ingênuo. O traço é simples e ligeiro, finalizo direto na caneta em minutos.


Lembrando do Gato Pingado de Henfil, torcedor do América, pergunto qual o time de Duke.


- Ele não tem time, apesar de morar ao lado do antigo estádio do Botafogo... Então do Gato Pingado só tem mesmo a barbicha. E agora, nas tirinhas, está engordando na quarentena, como o real...




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