E agora? Sem insumo para produzir vacinas, Brasil está nas mãos da China

Butantan já suspendeu produção da Coronavac e Fiocruz deve paralisar a fabricação da AstraZeneca esta semana até a chegada de IFAs chineses


Mulher recebe vacina contra Covid num dos postos em Niterói. Foto Divulgação


É um momento delicado para a vacinação contra Covid no país, que deveria estar aumentando o número de pessoas imunizadas diariamente em vez de reduzir. O Butantan teve de interromper a produção, na sexta-feira passada, por falta de insumos para a Coronavac, a vacina desenvolvida pelo instituto em parceria com a Sinovac, chinesa. Motivo: a China não enviou os insumos. Também a Fiocruz, que produz o imunizante AstraZeneca em conjunto com a universidade de Oxford, anunciou que terá de paralisar a produção esta semana "por alguns dias" à espera de insumos.


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A previsão é de chegada de insumos para a Coronavac no dia 26 e para a AstraZeneca, no dia 22 de maio. Mas a partir da chegada do material ainda são necessários alguns dias até a retomada da produção, as fases de testes e a distribuição. As paralisações comprometem ainda mais o calendário de vacinação no país, que já tem sofrido atrasos consecutivos e está sendo realizado a conta-gotas, apesar do número ainda alarmante de contaminações e mortes.


Atrasos na entrega da Coronavac já pronta no Butantan atrasaram a aplicação da segunda dose da vacina em municípios de pelo menos 19 estados, incluindo Niterói e outras cidades do Rio de Janeiro. O último lote foi entregue pelo Butantan ao Ministério da Saúde na última sexta-feira, 14 de maio, com 1,1 milhão de doses. A previsão do instituto era entregar ao MS 12 milhões de doses em maio, mas esse número já foi reduzido para menos da metade: 5 milhões.


Na Fiocruz, o último lote de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) recebido da China foi no dia 24 de abril. O próximo agora só deve chegar em 22 de maio, com atraso, o que deverá provocar a suspensão da produção esta semana. Há um segundo lote previsto para maio, no dia 29, para tudo vai depender das negociações com a China.


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Apesar da dependência total do Brasil de IFAs da China para a produção de vacinas, as relações políticas entre os dois países são um complicador, com o presidente Bolsonaro e integrantes de seu governo em constante atrito com aquele país.


Atualmente o Brasil tem disponíveis apenas três vacinas contra Covid: além da Coronavac e da AstraZeneca, também começou a chegar o imunizante da Pfizer, mas ainda em pequenas doses e com aplicação restrita às capitais por causa das condições técnicas exigidas para o armazenamento do produto.


"Esse atraso na produção das vacinas tem impactos na transmissão da doença, no alívio dos sistemas de saúde, mas , principalmente, na proteção da vida de alguém. Significa colocar mais pessoas em risco", escreveu a cientista Ethel Maciel, doutora em epidemiologia e professora da Universidade Federal do Espírito Santo em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo.


"Estamos com esse problema enorme, principalmente da Coronavac, porque em março o Ministério da Saúde mandou estados e municípios usarem as segundas doses que estavam guardadas para quem tinha tomado a primeira. Mandaram não fazer estoque, disseram que não ia atrasar. Mas atrasou", completou ela, para quem o Ministério da Saúde finge que o projeto não existe, mas ele existe.


O resultado é que o Brasil tem reduzido o número de pessoas vacinas por dia, quando deveria estar aumentando o máximo possível. Quanto mais pessoas vacinadas, mais vidas são salvas, menor a taxa de transmissão e menos a pressão sobre o sistema de saúde.