Enquanto Europa e EUA temem pelo retorno a aulas presenciais, Niterói opta pelo contrário

Em meio ao aumento de casos de contaminação, Prefeitura de Niterói planeja o retorno das atividades presenciais para Fevereiro


Por Livia Figueiredo

Bishop Ramsey School, em Londres, Inglaterra / Foto: Divulgação


Assim como o Brasil, vários países aprovaram o retorno às aulas presenciais de crianças e adolescentes. No entanto, mantiveram como alerta o fechamento de escolas caso a situação fugisse do controle. É o que está acontecendo atualmente em alguns países da Europa e nos Estados Unidos. Com a nova onda de contaminação da Covid-19, muitas escolas optaram por suspender temporariamente as atividades presencias e seguir com o ensino remoto até que a situação seja estabilizada.


Enquanto alguns especialistas acreditam que o retorno às atividades presenciais seja precoce devido ao crescente número de casos de contaminação da doença, outros pensam que não faz sentido manter o funcionamento das atividades não essenciais e as crianças afastadas das escolas. Nesse sentido, algumas escolas já estão organizando seu calendário letivo que prevê um retorno presencial para fevereiro.


Em Niterói, o retorno presencial também já foi autorizado pela Prefeitura. Segundo o prefeito Axel Grael, as escolas podem reabrir tanto no sinal Laranja, de alerta máximo, quanto no sinal Amarelo Nível 2, estágio em que a cidade se encontra. Em live realizada na segunda-feira (18) pela Prefeitura de Niterói, o Secretário de Saúde, Rodrigo Oliveira, afirmou que países da Europa como Inglaterra, Portugal e França, mesmo com o cenário de restrições, têm optado por manter as escolas abertas. No entanto, não é o que revelam alguns exemplos dos países citados pelo Secretário e até mesmo do próprio Estados Unidos, cujo cenário de flexibilização não tem gerado bons frutos, tanto que algumas escolas tiveram que retornar com suas aulas online.


Brasileiro, mas morando atualmente em Edgware, na grande Londres, Inglaterra, Álvaro Camillo tem dois filhos: um de 7 anos e uma de 11. Ele conta que seus filhos retornaram para a escola em setembro, mas desde o Natal estão estudando em casa devido às políticas de lockdown implementadas no país após o novo repique de contaminação e variantes da Covid-19. Álvaro conta que as crianças estavam indo bem na escola e que existe um bom monitoramento do governo quanto às aulas presenciais. Em relação à segurança, as escolas têm seguido todos os protocolos de higienização recomendados pelo governo.


- A questão das aulas presenciais nos ajuda no sentido de facilitar o nosso trabalho home office, aliviando um pouco o estresse. A escola primária tem usado a estratégia das crianças ficarem uniformizadas para as aulas online, para que se sintam um pouco mais conectadas com o ambiente escolar. Os meus filhos estavam indo bem com as aulas presenciais, mas algumas vezes houve casos de Covid nas escolas.


Ele diz que seus filhos sentem muita falta do convívio e pedem para retornar o tempo todo. Como forma de aliviar um pouco a rotina, e até por instrução da escola, Álvaro tem levado seus filhos ao final do dia para uma caminhada. Quanto ao rendimento das aulas online, ele conta que em casa caiu um pouco pelo fato de não se concentrarem tanto quanto na escola, porém, não foi uma diferença tão grande já que ele e a esposa estão trabalhando de casa e podem acompanhar tudo de perto. Além disso, notou que as aulas online estão mais organizadas nesse lockdown, em comparação ao primeiro. Segundo Álvaro, a previsão inicial para o retorno era no início de março, porém, devido aos elevados números de infecções, o secretário de educação disse que planeja o retorno um pouco antes da Páscoa, em abril.


Melissa Montes é americana e mora nos Estados Unidos no condado de Gwinnett, no Estado da Georgia. Ela me conta que as escolas foram abertas em setembro, e não no início de agosto, como o habitual. As escolas privadas dos Estados Unidos possuem regras diferentes das públicas. A maioria das escolas particulares nunca esteve fechada e parte delas sequer exige o uso de máscara. No entanto, Melissa aponta que a escola pública em que seus filhos estudam é uma das melhores no combate ao vírus.


- Se qualquer criança faltar um dia de aula, a enfermeira da escola liga para verificar o motivo da falta. Se for descoberto que houve exposição à Covid, a criança não está autorizada a retornar à escola até que seja cumprida uma quarentena de quinze dias, ainda que o teste tenha dado negativo – relata Melissa.


Ela diz que muitos professores da região da Georgia têm protestado contra a medida de retorno das aulas presencias, pois acreditam que suas vidas estão em constante perigo. Ao mesmo tempo, professores de regiões mais vulneráveis apoiam o retorno.


- Acaba afetando mais as pessoas negras por conta da desigualdade e do sistema de saúde mais precário. Eu acredito que cada pessoa tem seus motivos em concordar ou não com o retorno das aulas presenciais. As crianças pequenas tendem a ter mais dificuldade com o sistema online de ensino. Elas precisam da ajuda dos pais o tempo todo. Alguns pais que estão trabalhando fora de casa estão pagando professores para monitorar todo o processo de ensino online, mas a maioria não tem recursos financeiros para arcar com essa despesa extra.


Melissa conta que as escolas no condado onde ela mora costuma fazer um monitoramento para verificar se a criança possui acesso ao computador e à internet. Caso contrário, as próprias escolas emprestam todo o suporte necessário para as aulas remotas, como pontos de internet e notebooks.


Semelhante ao Brasil, as crianças da rede pública americana dependem da escola para fazer refeições como o café da manhã e o almoço. “Muitas crianças nos Estados Unidos dependem da escola para se alimentar. Minha opinião é que cada pessoa deve optar pelo melhor para si e seus filhos. Eu não julgo, é uma escolha difícil. O meu filho estava apresentando um desempenho melhor na escola, por exemplo”, declara.


O retorno das aulas presenciais provocou uma resistência de professores da região de Georgia, que pediram para que ele não fosse realizado no início de janeiro, já que os casos dispararam com as datas festivas de fim de ano. No fim das contas, mesmo depois de ter alegado que a taxa de transmissão em crianças é bem baixa, a escolas optaram por fechar e, por enquanto, ainda não foi definido se as escolas retornarão com as atividades presenciais na próxima semana.

A escola Burnette Elementary School, na Georgia, Estados Unidos / Foto: Divulgação


Ela afirma que as escolas podem ser consideradas ambientes seguros caso disponham de espaços para espalhar as crianças, uso obrigatório de máscara, além de outros recursos que ajudam no controle da disseminação do vírus. Diz também que sua filha não sente tanta falta da escola, pois pode interagir com seus amigos pelo celular, mas que seu filho, o mais novo, sente falta do convívio social com os colegas de turma.


E acrescenta: “Ao mesmo tempo, eu me preocupo com os professores. Eles são nossos heróis. Eu espero que esteja mais seguro voltar na próxima semana”.


Segundo Ângela Gaspar, médica portuguesa residente em Lisboa, as aulas nas escolas estavam sendo presenciais, mas devido à flexibilização irresponsável das restrições na altura do Natal, Portugal começou a liderar um dos piores índices mundiais em relação ao controle da Covid-19. Os médicos pediram aos governantes que fechassem as escolas por um mês. Nesta quinta (20), após o anúncio do primeiro-ministro Antonio Costa, o governo de Portugal determinou o fechamento de escolas e universidades por pelo menos 15 dias, no momento em que o país bate o recorde de mortes provocadas pela Covid-19 pelo quarto dia consecutivo.


Para a professora de Virologia do Departamento de Microbiologia e Parasitologia do Instituto Biomédico da UFF, Rita Cubel, do ponto de vista da virologia, o retorno às aulas presenciais pode colaborar para pontos de aglomeração, o que significa maior transmissão do vírus e um maior número de pessoas infectadas.


- O vírus pode infectar pessoas e sofrer mutações, que resultam no aparecimento de novas variantes e essas que prevalecem circulando são as que conferem ao vírus uma vantagem evolucionária, como, por exemplo, maior capacidade de infecção. Por isso, as vacinas são tão importantes. Mesmo que elas não evitem a infecção/ transmissão, elas protegem contra casos graves e de óbitos. Por outro lado, temos o prejuízo social e psicológico que a ausência do convívio escolar e a interação com colegas causam em crianças e adolescentes – conclui.