Epidemias não acabam, epidemias têm ciclos

Entrevista: Wilson Calmon, professor do Departamento de Estatística do Instituto de Matemática da Universidade Federal Fluminense, integrante GET UFF Contra Covid-19


A Seguir: O que a análise dos dados revela sobre a epidemia?


Wilson Calmon: Nessa hora a gente precisa mesmo discutir o assunto, para entender melhor a complexidade do problema (...) O Brasil é um país de dimensão continental, assim como os Estados Unidos, e é importante entender que cada microrregião, cada município, tem uma situação peculiar, vive um momento específico da epidemia. Então, o ideal, nos modelos epidemiológicos mais famosos, em geral, eles focam a análise em municípios. Então a gente deveria tentar entender a dinâmica do agregado de país, por exemplo, a partir da dinâmica dos locais. Se você olha no Rio de Janeiro ou São Paulo a epidemia vive um momento peculiar, mas se você olha para o estado de Minas Gerais o momento é outro. Lá a situação ainda é tranquila; quer dizer, ainda é, a gente espera que continue assim, mas não tem garantias que isso vai acontecer...


...E no Amazonas, no Pará, a situação já é outra, é uma diversidade grande...


Exatamente, outra dinâmica.


Por isso que o ideal é trabalhar com a informação local


É totalmente diferente.


Pelo que vocês estão vendo, a curva brasileira se parece mais com a da Itália ou da Espanha? A da China? Ou a dos Estados Unidos?


É difícil fazer este tipo de comparação ... Na semana passada saiu uma notícia de que o ministério da Saúde dizia que em dez dias o Rio começaria a entrar numa fase crítica. E o secretário de Saúde do Rio disse que em um mês a gente estaria vivendo no Rio uma realidade parecida com a da Itália ou da Espanha. Mas se você compara a população destes países a diferença é enorme, a população da Itália é do tamanho da população do Rio de Janeiro e de São Paulo. Então, fazer uma avaliação maior do brasil é complicado. Mas existe uma expectativa, especialmente na secretaria de Saúde, de que a qualquer momento a situação do Rio se pareça, infelizmente, com a da Itália e da Espanha.


E com relação a Niterói, o que se pode dizer?


Com relação a Niterói há alguns dados que é preciso destacar. Niterói foi um dos primeiros municípios do estado a ter um caso confirmado da Covid-19 e foi um dos primeiros a registrar óbito. Existem dois fatores que é preciso considerar, em qualquer região do mundo. O tempo e a população. Então, o que se espera de um município onde a epidemia começou primeiro é que a curva de casos cresça mais rápido e a quantidade de óbitos à reboque, também. Além disso, Niterói fica na região metropolitana do Rio de Janeiro. A curva do Rio começou a crescer rápido, Niterói tem uma boa interação com o Rio e municípios da região metropolitana, então, neste sentido, a gente poderia esperar um crescimento rápido em Niterói. Todavia, a despeito do fato de que Niterói começou um pouco antes a epidemia, hoje tem o seguinte cenário: Niterói não é nem a segunda em tamanho da população em casos confirmados por cem mil habitantes ou casos de óbitos. Quando a gente olha a incidência em número de habitantes, a situação de Niterói muito mais confortável do que a de municípios como Duque de Caxias, por exemplo. A curva de Niterói, quando a gente relativiza a população, a curva de casos é muito mais suave, e também em casos de óbitos.


O senhor diria que as medidas de isolamento adotadas em Niterói funcionaram?


São dois pontos cruciais, a ação pública. As prefeituras precisam agir de forma urgente. Mas as prefeituras não vão agir sozinhas, é preciso que as pessoas sigam as recomendações. Em Niterói, a gente tem a sensação de que apesar da adesão não ser 100%, não ser perfeita em Niterói, essa dobradinha de política pública e a resposta da população tem sido um segredo dos resultados, se comparado a outras cidades.


Apesar do sucesso do isolamento, discute-se o lockdown...


Essa questão requer muitas reflexões. Niterói tem tido um sucesso relativo no combate a doença, isto é um fato. Por outro lado, existem alguns fatores e também expectativas de que o quadro tende a piorar nas próximas semanas. Vou falar de uma situação só, que a questão da sazonalidade. (...) A gente está entrando numa época do ano que a mortalidade no geral aumenta – Isso combinado com o aumento do número de casos confirmados da doença e a necessidade das pessoas saírem de casa e irem a um hospital isso pode ser crítico (...)


Provavelmente, então, por esta combinação da sazonalidade, pela ocorrência de gripes e doenças respiratórias, então tendência é que o pior aconteça agora...


E possível. É claro que quando a gente analisa os dados a gente está olhando para o passado. Mas dependendo das medidas toadas e de como a população reage, você modifica este quadro, modifica um pouco o panorama futuro. A gente tem interferência em tudo. Na economia, o governo aumenta os juros e tenta controlar os preços... Na Saúde é parecido. A gente espera que, com a adoção de medidas, se mude um pouco a evolução da curva. O que os especialistas estão dizendo desde o começo e continua valendo, é que, quanto mais as políticas forem adotadas para distribuir os casos confirmados ao longo do tempo, maior a capacidade do sistema de Saúde de atender as pessoas que realmente precisam de uma atenção especial, de respiradores, de leitos... É difícil responder a esta questão porque a gente está vendo essa discussão se as autoridades vão reforçar as medidas de isolamento.. isso pode ter o efeito de achatar esta curva, distribuir a necessidade de atendimentos ao longo do tempo...


A epidemia acaba?


Essa é uma pergunta relevante. Na história das epidemias, as epidemias apresentam ciclos, tem ciclos de maior intensidade, outros menores. Mas a gente tem que se preocupar com o que acontece agora. Quando a epidemia aparece, ela tem efeitos mais drásticos. No caso do corona, pessoas não tinham nenhuma defesa. Então todo mundo está suscetível a essa epidemia. E existe a possibilidade de acontecer, como em outras epidemias, desta epidemia se repetir em um ano, dois anos, com outra intensidade... A tendência cíclica da epidemia é que a gente vai observar agora um período crítico...


A tendência, então, é a segunda onde ser mais fraca. E sempre se tem a esperança de um remédio, uma vacina...


Sim, ao longo do tempo, sim... O Brasil tem experiência com epidemias. A dengue é uma coisa, o corona é outra. A gente está aprendendo a lidar com o vírus, você vê que outros países mais desenvolvidos do ponto de vista econômico e social estão tendo dificuldades para controlar a doença...




Leia a reportagem sobre o trabalho do GET UFF Contra Covid-19.


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