Epidemiologista da Fiocruz alerta: cuidados com Covid devem durar até descoberta de uma vacina

Médico diz que Niterói fez dever de casa e pode retomar as atividades de forma gradual

Por Carolina Ribeiro


Dr Rômulo Paes de Souza, epidemiologista da Fiocruz. Foto: Divulgação Fiocruz


Niterói está pronta para uma maior liberdade, desde que a população mantenha os cuidados para evitar novas ondas de contaminações pela Covid-19. A afirmação é do epidemiologista Rômulo Paes de Sousa, que representa a Fiocruz no Comitê Técnico Científico Consultivo criado pela prefeitura com quatro especialistas da UFF, da UFRJ e da Fiocruz para auxiliar as decisões do Gabinete de Crise. Rômulo é especialista em avaliação de políticas públicas voltadas para a saúde e está participando também de comitês da ONU e de diferentes cidades do Brasil e do Mundo. Em Niterói, utiliza sua experiência para confrontar as soluções que a prefeitura está desenvolvendo com as demais resoluções no mundo. Em sua visão, Niterói é uma das “ilhas de bom desempenho” do Brasil em meio à pandemia.


O coronavírus pode ser a maior pandemia da História, deixando milhares de vítimas em todo o mundo. Como a doença se comportou em Niterói? O resultado foi o mesmo visto em outros países?


A situação de Niterói é muito diferente do que aconteceu em outros países. O Brasil tem características muito distintas dos países europeus. De certa forma, as estratégias brasileiras deveriam ter sido mais adaptadas a nossa realidade. O Brasil é muito grande e heterogêneo, mas por outro lado tem o SUS. Os aspectos de maior risco do país acabaram complicando o manejo da doença e os aspectos positivos que deveriam ter sido mobilizados não foram. Mas Niterói é diferente. O município tem características muito singulares, até mesmo quando se compara com o Rio de Janeiro. A população é mais velha, mas em compensação é mais escolarizada e com uma renda alta. O município em si tem uma arrecadação muito superior à da grande maioria dos demais municípios brasileiros. Essa combinação de fatores, obviamente, aliada a uma gestão pública que adotou medidas preconizadas com o mundo inteiro e com base na pandemia, fez com que Niterói tivesse um desempenho muito superior do que o resto do Brasil. Podemos dizer que Niterói é uma das ilhas de bom desempenho em um contexto em que o país foi mal.


Além da situação financeira favorável do município, da população escolarizada e de renda média superior, há um aspecto fundamental que são as escolhas em termos de políticas de saúde do combate à pandemia que foram adotadas no município. Isso é importante pelo seguinte: o Estados Unidos, que são o país que tem a maior economia mundial, teve um manejo ruim em relação à pandemia, assim como o Reino Unido, que tem muita competência e boa economia. Ou seja, as condições prévias, por si só, não implicam um bom manejo da doença. É preciso que as escolhas adotadas sejam as adequadas.


O senhor diz que Niterói é uma das ilhas de bom desempenho do Brasil. Por quê?


Niterói tomou decisões de forma rápida. Quando se identificou o primeiro caso, as iniciativas foram muito oportunas. No Brasil, a primeira declaração de risco para o país em relação à pandemia foi publicada no Diário Oficial em 2 de fevereiro. Porém, as primeiras ações de políticas públicas em nível nacional aconteceram em 15 de março, cerca de seis semanas entre a percepção e a ação. Não foi o que aconteceu em Niterói, que teve uma percepção e ação rápida.


Outro fator é que a prefeitura mobilizou aqui o que já havia se mostrado importante do plano internacional para combater o vírus. A questão da testagem em massa, equipar os hospitais, a mobilização de equipes, comunicação, as políticas de proteção social para reforçar a adesão da população ao isolamento social, sobretudo ações do setor econômico, e as iniciativas sanitárias. Essas combinações de políticas, que já estavam colocadas no mundo, foram adotadas em Niterói no tempo e na forma adequada.


É uma combinação positiva, pois ainda que a administração de Niterói tenha feito o que precisava para combater a pandemia, a população precisava aderir. O fato é que essa adesão, não necessariamente, ocorreu em outros lugares do Brasil, mesmo que os gestores tenham feito as iniciativas no tempo oportuno. Essa resposta muito positiva da população de Niterói coloca os resultados do município como uma conquista coletiva e comunitária. A administração fez o que lhes cabia e os munícipes também fizeram o que lhes cabia, inclusive o setor produtivo da cidade. Se assim não fosse, acabaria frustrando a perspectiva de um bom desempenho.


Uma outra questão importante é que lideranças diversas no município também foram muito positivas nesse diálogo com a administração municipal. Por exemplo, lideranças religiosas tiveram um papel muito importante de adesão às iniciativas, divergindo inclusive do que vimos em outros lugares do Brasil. O resultado de Niterói é muito positivo porque houve uma afortunada coincidência de capacidade, iniciativas e entendimentos, que foi muito raro no Brasil.


Quais são os desafios enfrentados por Niterói no combate ao Covid-19?


O primeiro grande desafio de uma prefeitura para o enfrentamento de uma pandemia é a ausência de uma coordenação ao nível estadual e federal. O contexto já é de dificuldade. Estamos falando de um país que agiu de uma forma muito atrapalhada no enfrentamento da pandemia e de um estado do Rio de Janeiro também muito confuso. A Região Metropolitana na qual Niteroi tem um papel importante e um vizinho gigantesco como o Rio com muita dificuldade. A chance de dar errado é muito maior do que de dar certo. Para dar certo, era preciso uma coincidência de fatores internos que fossem potentes o bastante para superar as adversidades externas, já que o município é muito relacionado com São Gonçalo e Rio de Janeiro na circulação de trabalhadores.


Neste contexto, quais foram os desafios internos do combate à pandemia em Niterói?


Os desafios internos foram convencer os outros atores políticos e a população, um convencimento que é complexo. O manejo da pandemia implica alterar a mobilidade das pessoas, não apenas onde ela mora, mas de acordo com o tipo de atividade dela, seja de trabalho, estudo ou lazer. A comunicação é complexa e segmentada, mas ao mesmo tempo atualizada de acordo com o estágio da pandemia. Em termos de uma administração pública, é uma das maiores dificuldades que se pode imaginar. Implica em tomar decisões rápidas e com risco de erro, é uma dificuldade para que as pessoas entendam isso. Mas só vão entender se sentirem que sua contribuição está funcionando, se houver mecanismos de comunicação que funcione, se as medidas foram sensíveis às necessidades da população.


O que acho surpreendente neste momento de crise, pois temos uma crise sanitária, econômica e política ao mesmo tempo no país, é como municípios num contexto deste tipo dão certo. É preciso as coincidências dessas fatores e, felizmente, Niterói tem apresentado essas felizes coincidências. Mas as conquistas obtidas neste contexto de crise podem se perder. A Índia, por exemplo, estava indo bem no manejo da pandemia, mas se perdeu rapidamente. Está numa situação dramática e tende a piorar por causa de medidas que fugiam ao modelo racional que havia adotado inicialmente.


Depois de três meses, muitas cidades do Brasil já estão flexibilizando o isolamento social e retornando com algumas atividades. O momento é propício para esta retomada?


O Brasil está com um isolamento muito longo, são mais de 90 dias. É mais longo do que Wuhan, na China, que ficou em isolamento 66 dias. A maioria dos países europeus isolou a população entre 45 e 49 dias, a Itália foi mais, com 56. No geral, os países europeus e asiáticos que tiveram a primeira onda e manejaram bem a pandemia tiveram isolamentos menores em termos de duração. No Brasil, é longo e pouco eficaz, pois o nível de redução de mobilidade foi relativamente baixo ao que precisava ser. O vírus continua circulando, ainda que em velocidade menor, isso faz com que o país esteja em uma cilada. O Brasil ainda não está com níveis confortáveis para fazer a flexibilização mas há uma exaustão em relação a isso. A consequência desse isolamento insuficiente é que, provavelmente, vamos ter outras ondas de circulação viral e novamente com o mesmo problema de casos graves e óbitos, precisando voltar ao isolamento. Já temos hoje no Brasil vários municípios que voltaram atrás em relação a flexibilização, como em Minas Gerais e Paraná, por conta de uma ação que não deu certo. Na minha visão, vamos ter janelas de mobilidade, onde haverá posições mais confortáveis e depois vamos voltar a restrição de mobilidade. Isso vai acontecer no Brasil todo.


Niterói também está caminhando para flexibilizar ainda mais o isolamento, avançando nesta sexta-feira (19) para o nível amarelo 2 do plano de retomada para o novo normal. A cidade está pronta para esta iniciativa? Por quê?


Se Niterói não aproveitar essa oportunidade de flexibilização, vai ficar no isolamento por muitos meses, o que é insustentável do ponto de vista econômico e do ponto de vista gerencial, porque a população não vai cumprir. Isso aconteceu no Maranhão, Pernambuco, Belém, onde a administração pública não conseguiu ter autoridade para que as pessoas ficassem em casa. No Chile, passaram a adotar a prisão para quem estiver desrespeitando o isolamento social, o que acredito que não vai funcionar. A autoridade sanitária precisa ter capacidade de convencer a população majoritariamente a aderir ao isolamento. E só vai conseguir fazer isso se for transparente e demonstrar os planos, além da necessidade de reforçar o isolamento no caso do aumento dos indicadores.


Niterói, portanto, está numa situação onde tem redução sustentada dos seus níveis de infecção e mantém uma disponibilidade de leitos, sobretudo para casos graves. Por isso, a flexibilização está em curso no município. O aspecto do manejo deve ser visto como um todo, que é a combinação entre a capacidade de vigilância, capacidade de testagem, disponibilidade de leitos e redução dos níveis de infecção. Até agora, Niterói tem isso tudo, aliás é um dos poucos no Rio que tem.


Há riscos em adotar a maior flexibilização?


O risco permanece por causa da vizinhança. Cerca de 30% dos niteroienses trabalham formalmente no Rio e aproximadamente 40% dos trabalhadores da área comercial de Niterói são de São Gonçalo. As ameaças estão postas. Os indicadores do município do Rio apontam para uma redução da transmissão do vírus, mas tem um problema. A testagem da população do Rio é muito baixa, esse indicador não é consistente com os níveis de mortalidade, então tem algum problema nos indicadores. Além de analisar os indicadores referentes a circulação do vírus, temos que olhar também a capacidade de gestão.


Cabe à autoridade pública tomar decisões. A administração pública de Niterói tem seguido uma matriz equilibrada, que trabalha os indicadores epidemiológicos de circulação do vírus, mortalidade e disponibilidade da saúde, e tem tido decisões oportunas, o que explica o sucesso até aqui, apesar do contexto do país desfavorável. É uma batalha que se ganha todo o dia, o importante é que se mantenha a consistência das decisões, e se tiver que voltar atrás, é preciso voltar.


Virou praxe que qualquer gestor municipal faça discurso racional sobre o contexto da pandemia, apelando para uma espécie de racionalidade científica nas decisões. Mas os municípios que fazem essa narrativa não têm testes, não têm retaguarda hospitalar, não têm um sistema de vigilância organizado, não têm resultados que justifiquem nem a abertura e nem o retorno ao isolamento. Há municípios que iniciam uma reabertura e três dias depois retornam ao isolamento porque dizem que aumentou a circulação, mas não tem como detectar isso em poucos dias. Não é o caso de Niterói. Apesar do estágio da doença, o importante é manter este modelo de gestão que tem funcionado e saber voltar atrás se for o caso. Dos modelos que tenho visto, esse é um dos que apresenta mais consistência interna. Qualquer resultado que Niterói tenha depende de um esforço coletivo.


Esta flexibilização do isolamento, aliada ao baixo número de óbitos e hospitalizados, significa que a doença já chegou ao pico de transmissão em Niterói?


O município que faz uma boa gestão da pandemia não apresenta um pico, propriamente; é uma curva mais achatada, não tem o pico. Para entender um pico clássico da doença, basta ver a situação de Manaus, foi um pico enorme. O nível de infecção da população é de quase 30%, um dos maiores do mundo, provavelmente. A curva vai até lá em cima e cai drasticamente porque as pessoas que eram mais suscetíveis a serem infectadas são atingidos nessa primeira onda e depois cai, mas podem retornar. Então pode ter um outro pico em função de outra onda.


Nos municípios que fazem uma gestão mais competente, o vírus não circula muito. O exemplo de Niterói, porque o número de casos está muito circunscrito às áreas de maior poder aquisitivo? É porque foi por lá que começou a doença e a infecção não se espalhou muito para as áreas mais pobres, se comparado com o município do Rio, por exemplo. De fato, o momento de maior transmissão já passou, mas não é o pico clássico.


É possível determinar como e quando será o novo normal?


O plano de retorno à normalidade que foi escolhido para comunicar o nível da pandemia e da flexibilização não tem o branco e nem o verde em sua escala de cores, como em outros municípios. Essas cores significam o retorno pleno à normalidade. Isto não vai acontecer antes de uma vacina ou de um medicamento específico, isto é, não será antes do final do ano que vem, na melhor das possibilidades. Não vamos voltar tão cedo à posição que estávamos antes da pandemia, preparem-se para uma mudança de comportamento. Portanto, o que vai acontecer com o município antes da vacina e do medicamento é que as pessoas vão ter restrições de mobilidade, protocolos sobre distanciamento e equipamentos, um conjunto de procedimentos. Minha mensagem é que a pandemia tem sido bem manejada no município, mas o risco é alto porque não temos só uma pandemia acontecendo no Brasil, são várias simultaneamente, com ciclos distintos.


O senhor participa do comitê consultivo da prefeitura, para auxiliar nas decisões da prefeitura. Como é este trabalho?


Somos quatro especialistas. Tenho participado de trabalhos de outros municípios e até fora do Brasil. Participo de um comitê de especialistas da ONU para países em desenvolvimento, sobretudo na África Subsaariana. Essa é uma situação interessante que a pandemia está nos permitindo, trabalhar em diferentes lugares sem sair de casa.


Trabalhamos em Niterói de forma reativa. A prefeitura nos apresenta temas, nos traz soluções que ela está desenvolvendo e submete à nossa apreciação crítica. Nós interagimos com a prefeitura, cada um de nós contribuindo de uma forma diferente. O comitê é comandado pelo reitor da UFF, Antonio Claudio da Nóbrega, que conhece a comunidade, contribui com aspectos que envolvem o manejo da pandemia, que não é só a saúde, mas aspectos econômicos, sociais, culturais que interagem nessa questão. Eu represento a Fiocruz, minha contribuição tem sido essa de confrontar as soluções que Niterói está desenvolvendo com outras soluções do Brasil e do Mundo. O professor Aluísio da UFF têm analisado a parte da atenção hospitalar e essa gestão dos equipamentos de saúde no enfrentamento da doença. O Roberto Medronho da UFRJ estuda a parte epidemiológica, principalmente nas previsões que ele e a equipe têm feito para o Rio e o Brasil todo.


Nós quatro, apesar de sermos médicos e ligados a saúde pública, temos competências distintas e complementares nos trabalhos da prefeitura. Reagimos de forma crítica e trazemos proposições em notas técnicas. Estamos começando agora o período de doenças respiratórias, que é sazonal, mas precisa ser investigado para conter a circulação dos outros vírus e entender os desafios que podem comprometer a gestão da pandemia e exercer pressão grande sob a atenção hospitalar.

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