Especialista alerta para risco do aumento de casos de Covid em Niterói: 'Os vetores somos nós'

Falta de adesão às medidas de enfrentamento, pouco investimento em testagem e novas variantes podem provocar nova onda


Por Livia Figueiredo

A movimentada Rua Ator Paulo Gustavo, antiga Moreira César / Foto: Livia Figueiredo


"Estamos tentando fazer milagre com as subnotificações e tantas limitações". A frase é da coordenadora da Rede Análise Covid-19 e neurocientista Mellanie Fontes Dutra, que fez um alerta sobre o risco do surgimento de uma nova onda no país. Para a pesquisadora, o risco da maior de transmissibilidade das novas variantes é real, como é o caso da cepa indiana B1.617. O Estado do Rio já monitora um paciente com suspeita de infecção pela variante indiana do coronavírus. É que um morador de Campos de Goytacazes, no Norte Fluminense, testou positivo para Covid-19 depois de voltar de uma viagem à Índia. Caso seja confirmada a suspeita, é questão de tempo para que essa nova variante esteja mais próxima de alcançar o município de Niterói.


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A pesquisadora Mellanie Fontes Dutra. Foto: acervo pessoal


A possibilidade de que o morador de Campos tenha se infectado com a variante B.1.617 não é descartada, assim como o surgimento de uma nova onda da Covid potencializada pelas mutações do coronavírus. A pessoa infectada já está em isolamento preventivo e será realizada uma investigação genômica para maior análise do caso. A pesquisadora Mellanie Dutra explica porque o caso do morador de Campos ascendeu um novo alerta no Brasil e como a falta de adesão de medidas de enfrentamento do coronavírus e o pouco investimento no sistema de testagem podem contribuir para o aumento de casos de Covid.


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- Sabemos até o momento que a variante indiana tem um conjunto de mutações relevante, que são preocupantes. Estamos vendo com alguns estudos no Reino Unido que a variante pode ter incremento na transmissibilidade e isso pode ter contribuído em algum nível para a situação que a Índia está vivendo. Ela pode também ter um escape imunológico, que seria a redução da ação dos anticorpos neutralizantes. Mas não podemos responsabilizar as variantes por isso. Essa situação atual está muito atrelada ao comportamento da população, que insiste em aglomerar, à falta de medidas de combate à Covid e aos grandes números de pessoas suscetíveis à doença– explicou.


A especialista diz ainda que os estudos sobre a variante indiana são preliminares e que dados sobre a infectividade e letalidade ainda estão sendo analisados. A especialista faz feroz crítica à falta de rastreamento e testagem, que podem contribuir para a circulação da doença e para o surgimento de novas variantes:


- A primeira coisa necessária é rastrear como foi a transmissão dessa pessoa que foi infectada. É importante ver quem teve contato com ela durante o percurso. Tem que testar a tripulação do voo e fazer um sequenciamento genético para minimizar o impacto. A gente precisa urgentemente de medidas mais assertivas para a chegada de pessoas que vem de outros países. Elas precisam fazer uma quarentena de pelo menos 14 dias e, caso apresentem sintomas, precisam recorrer a uma assistência médica. Medidas mitigatórias são muito importantes junto com as medidas sanitárias para evitar um surto da nova variante – destacou.


Niterói tem novo pico da doença


Esta semana, o A Seguir: Niterói revelou que o número de mortes por Covid em Niterói é maior do que a Prefeitura declara, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde e dos cartórios da cidade. No mês de abril, o pior de toda a pandemia, 177 moradores da cidade morreram devido à doença, segundo os boletins da Secretaria Municipal de Saúde. Os dados registrados pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), divulgados neste domingo (23) pelo jornal O Globo, no entanto, são diferentes: foram 398 mortes.


A especialista explica que é possível afirmar que o alto número de óbitos em Niterói tenha relação com a variante P.1, mas reforça que não é certo colocar tudo na conta das variantes.


- Os vetores somos nós. A doença só está se transmitindo mais porque nós não estamos aderindo adequadamente às medidas de enfrentamento à altura da gravidade da situação. A gente precisa ter maior controle dessa transmissão. É nossa responsabilidade aderir a essas medidas de contenção da Covid-19. E isso tanto em âmbito individual, quanto em relação à postura dos gestores também. Estamos passando por várias flexibilizações em um momento em que já estamos observando um aumento de incidência da doença em vários locais.


Com esse novo aumento de casos e a possibilidade de uma nova onda, Mellanie diz que os cuidados devem ser os mesmos do início da pandemia, mas de forma ainda mais reforçada. Ela recomenda o uso de máscaras mais eficazes como a Pff2 e a N95, que possuem uma boa adesão no rosto e uma filtragem maior. Essas máscaras devem ser utilizadas especialmente em locais com alta circulação de pessoas. Estabelecer o distanciamento de dois metros, preferir ambientes arejados são outras recomendações e, claro, nada de aglomeração.


- Se a pessoa for um trabalhador presencial, é necessário que ela tenha ainda mais em mente que esses cuidados precisam ser reforçados para reduzir o risco da exposição. Ela deve seguir higienizando bem as mãos, especialmente depois de tocar em algum objeto público e usar máscaras mais potentes – sublinhou.


Pfizer e Astrazeneca são efetivas contra a variante indiana


Não é novidade que a Pfizer e Astrazeneca são eficazes contra casos sintomáticos 14 dias após a 2ª dose. Um estudo da agência de saúde pública da Inglaterra revelou que a vacina da Pfizer/BioNTech teve uma efetividade de 88% contra casos sintomáticos de Covid-19 causados pela variante indiana (B.1.617.2) duas semanas após a segunda dose, que resulta em pequena queda, levando em consideração que a eficácia global da Pfizer é de cerca de 95%.


Já a vacina de Oxford/AstraZeneca teve entre 85% a 90% de efetividade contra casos sintomáticos de Covid-19 causados pela variante indiana (B.1.617.2) 14 dias após a segunda dose. Já em um regime de 28 dias, essa efetividade cai para 66%.


- Estudos já identificaram algumas mutações que essa variante carrega, o que pode conferir algumas características que nos preocupam. Chama a atenção a presença da mutação L452R, a qual pode ajudar o vírus a evitar alguns anticorpos da resposta imunológica, enquanto E484Q tem semelhanças com a mutação E484K, que pode conferir um escape ou resistência a ação dos anticorpos neutralizantes. Há nitidamente um escape, mas os imunizantes ainda demonstram um alto valor de eficácia contra o vírus – concluiu.