Especialista da Fiocruz diz que não se pode esperar vacina para a volta às aulas presenciais

Patrícia Canto Ribeiro alerta, porém, para a necessidade de planejamento e protocolos sanitários


Por Carolina Ribeiro


Discussão entre voltar às aulas presenciais antes ou depois da vacina é grande. Foto: Divulgação


A Prefeitura não comenta, nem para negar e nem para confirmar. Mas representantes do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) de Niterói dizem que a Fundação Municipal de Educação estuda a possibilidade de um rodízio de alunos para o Ensino Fundamental público e até não retornar com a Educação Infantil neste ano para a segurança da comunidade escolar. Mas muitos pais de alunos e profissionais de educação defendem que antes é preciso ter uma vacina para o retorno. Quanto a essa espera, a pneumologista Patrícia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, diz que é preciso pensar no controle da pandemia e não somente esperar a vacina, uma vez que não há data prevista para a imunização.


- É possível que seja necessário um retorno antes da vacina. Podemos ter indicadores bem aceitáveis e favoráveis, e a vacina pode demorar ainda a estar disponível. Não podemos pensar na perspectiva de ter ou não ter vacina para uma reabertura (das escolas). Temos que pensar no controle da pandemia e no planejamento adequado das escolas com as medidas de biossegurança - alerta a especialista, completando que a prioridade de imunização deve ser dos grupos de risco.


Mesmo que não haja uma previsão exata de retorno, a questão está sendo discutida de forma intensa. De acordo com o Sepe, a Prefeitura diz que há possibilidade de a Educação Infantil pública não retornar este ano, mas que ainda não há decisão final. Já nas estratégias que poderão ser adotadas para o Ensino Fundamental I e II está a diminuição do número de alunos por turma, de no máximo 12 alunos, além de revezamentos. Um dia na escola e um dia em casa para o Fundamental I (1 ao 5 ano) e uma semana na escola e uma semana em casa para o Fundamental II (6 ao 9 ano).

A pneumologista da Fiocruz diz que alguns protocolos de retorno às aulas presenciais, já montados em outras cidades, preveem este rodízio estudado pela prefeitura, de grupos separados em uma semana ou até por 15 dias. Mas cada município deve desenvolver a sua própria regra.


- [Com o rodízio] não tem exposição todos os dias de todos as pessoas. Mas cada município tem que pensar na sua logística, e a que seja mais fácil de coordenação. Às vezes o que vale para um município não vale para o outro - observa.


A especialista reafirma que, para autorizar a reabertura das escolas, a cidade precisa registrar uma queda sustentável de casos por pelo menos duas semanas ou mais, assim como no número de óbitos. E os leitos hospitalares devem ter disponibilidade para comportar um aumento de casos. Além disso, a taxa de transmissão do vírus, medida normalmente pelo estado, deve ser menor do que um, isto é, que uma pessoa transmita o vírus para menos de uma pessoa, o que apontaria uma pandemia em descendência. Atualmente, a taxa do Estado do Rio é de 1,23 (R0).


- O Estado do Rio tem apresentado redução importante do número de óbitos e de casos, temos acompanhado uma queda sustentável. Mas não são só os indicadores da doença que garantem a segurança para o retorno. O planejamento tem que incluir um plano de abertura e de fechamento de cada escola. - aponta.


O retorno não depende somente de esses indicativos estarem favoráveis ou das medidas de biossegurança, como higiene dos ambientes, uso de máscara e distância entre as cadeiras. É preciso garantir um monitoramento de possíveis casos e um diálogo constante com a comunidade escolar. O colégio deve ser acionado em caso de qualquer sintoma de alunos ou funcionários.


- Enquanto as taxas de transmissão comunitárias forem elevadas, qualquer lugar fechado é um local de maior risco. Por isso, preconizamos a ventilação, as atividades ao ar livre, com menor número de pessoas. Mas risco zero não tem como garantir - ressalta.


O protocolo, prevê Patrícia Canto Ribeiro, deve levar em consideração que a volta das aulas presenciais não envolve somente crianças, mas todo o corpo escolar, além de adolescentes e adultos em universidades. Mais do que isso, envolve uma maior circulação de pessoas na cidade, nos transportes e também nos serviços, como alimentação. Em cidades como Rio e São Paulo, defende, a decisão deve ser tomada até entre zonas e bairros.


A quantidade de alunos e trabalhadores da educação preocupa. Só na rede pública municipal são 32 mil alunos matriculados, entre a Educação Infantil, Fundamental e a Educação para Jovens e Adultos (EJA), sem contabilizar a rede estadual com o Ensino Médio. Já a rede privada atende mais de 41 mil alunos e emprega mais de 3 mil docentes. Outra preocupação, já externada pela Prefeitura, é a UFF, que tem quase 50 mil alunos, a maioria deles estudando em Niterói, mas muitos de fora da cidade.


Outra questão está na incerteza do contágio em relação às crianças. Em sua maioria, observa-se que as crianças têm formas mais brandas da doença, mas a comunidade científica ainda não definiu o papel dos menores em relação à transmissão - alguns estudos mostram que crianças não são boas transmissoras do vírus e outros apontam que são tão transmissoras tanto quando adultos.



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