Especialista diz que não é hora ainda de relaxar isolamento em Niterói

Professora alerta que só será seguro quando mais da metade da população tiver imunidade para a doença


Por Silvia Fonseca


Simone Martins Rembold, professora da UFF


Como a Covid-19 é uma doença nova, a maior parte da população não tem imunidade. Por isso ainda há muitas pessoas suscetíveis à doença, diz Simone Martins Rembold, professora da UFF e especialista em enfermagem médico-cirúrgica e controle de infecção. Para ela, que trabalhou 22 anos no Hospital Universitário Antônio Pedro e hoje se dedica às aulas na UFF, só haverá segurança para uma flexibilização do isolamento social quando mais de 50% da população tiver imunidade para a doença, “pois assim a transmissão é freada”. A especialista teme ainda que o relaxamento do isolamento leve ao aumento do número de casos e à sobrecarga do sistema de saúde. “Não é seguro reabrir o comércio e aumentar o fluxo de pessoas nos transportes públicos neste momento, no meu ponto de vista”, diz, lembrando que a redução do isolamento está ocorrendo junto com a chegada do inverno, o que não é aconselhável por causa do aumento das doenças respiratórias na estação. “Provavelmente teremos um recuo nas medidas, mas quantos terão sido contaminados? A resposta será dada com o tempo”, diz a especialista ao A Seguir: Niterói.


A Seguir: O coronavírus se espalha rapidamente, é de facílimo contágio e difícil controle. Além disso, provoca reações diversas no organismo, o que dificulta um protocolo de tratamento. Como é enfrentar uma pandemia de um vírus com essas características?


Simone Rembold: Denomina-se coronavírus uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo coronavírus foi identificado na China no final de 2019 e chamado SARS-Cov-2, e a doença foi denominada de Covid-19. Para os profissionais de saúde é muito difícil enfrentar uma doença nova, sem conhecer exatamente o seu comportamento e sem ter um tratamento efetivo para combater o vírus. A Covid-19 inicialmente foi considerada uma síndrome gripal, que pode se manifestar desde um quadro clínico assintomático ou com sintomas leves, como tosse e febre, até evoluir para quadros respiratórios com grande comprometimento pulmonar, chamado de síndrome respiratória aguda grave, que pode levar à morte, principalmente em pessoas idosas e com doenças sistêmicas. Atualmente, estudos têm demonstrado que o SARS-Cov-2 pode causar danos em outros sistemas, como o cardiovascular. O vírus se liga a receptores das células do miocárdio provocando danos que podem resultar em parada cardíaca. De acordo com publicações científicas, alguns pacientes têm procurado atendimento com dor no peito e palpitação, e sem sintomas respiratórios. Portanto, os profissionais ainda estão aprendendo a lidar com essa doença. Apesar de apenas 5% dos pacientes desenvolverem quadros graves, este percentual sobre um grande número de infectados produz uma sobrecarga em unidades de terapia intensiva, e a mortalidade nestes casos é alta. O tratamento, atualmente, é de suporte às funções vitais e para atenuar as complicações. Portanto, a recuperação depende da reação individual do paciente. Isso gera um alto grau de frustração, que se soma à tristeza e ao desgaste emocional.


Há um momento, nos casos mais críticos, em que o paciente chega a um estágio de infecção generalizada. Isso dificulta em muito o tratamento e o trabalho das equipes de saúde, enfermeiros e médicos? Em que medida?


Sim, os pacientes, nesses casos críticos, desenvolvem uma resposta inflamatória generalizada que leva à falência múltipla de órgãos. Os pulmões não conseguem mais fazer as trocas gasosas, mesmo com a ajuda de aparelhos; o coração não consegue bombear o sangue adequadamente devido a uma miocardite e, portanto, os demais sistemas não recebem suprimento sanguíneo adequado; os rins param de funcionar e o paciente acumula substâncias tóxicas e líquidos em excesso. Todo esse desequilíbrio frequentemente leva à morte, e mesmo com todo o suporte medicamentoso e de aparelhos o tratamento não resulta em êxito.


Os profissionais de saúde estão muito expostos à contaminação pelo coronavírus, e o Brasil já perdeu centenas de médicos e enfermeiros. Pelo menos duas enfermeiras e uma médica do Huap morreram de Covid. Como fica a parte emocional desses profissionais no meio de uma pandemia como esta? Qual tem sido a maior dificuldade, o maior desafio?


Os profissionais de saúde estão mais expostos, as pesquisas demonstram isso no mundo todo. Atualmente, os profissionais do grupo de risco – com mais de 60 anos, portadores de doenças crônicas como diabetes e doenças cardiovasculares, ou com baixa imunidade – estão afastados das atividades assistenciais, amparados legalmente. Mesmo assim, o aspecto emocional dos profissionais fica muito afetado, pois não apenas podem adoecer e morrer, como podem transmitir a doença aos seus familiares. Isso tem provocado afastamento da família, e o medo da exposição. O maior desafio é o uso adequado de equipamentos de proteção individual, os chamados EPIs. Pesquisas têm demonstrado que estes equipamentos, que são necessários, podem dar uma falsa sensação de proteção, fazendo com que haja descuido na higienização das mãos, por exemplo, ou se contaminando no momento da retirada dos EPI de forma incorreta. Então, o treinamento é uma peça chave. Ainda, inicialmente não se sabia precisamente as principais formas de transmissão, o que levava a todos quererem usar equipamentos que, com um consumo aumentado em todo o mundo, ficaram escassos no mercado. Felizmente não chegamos a ter falta dos EPIs, mas existe um risco de desabastecimento e dificuldade de obtenção de alguns itens, como as máscaras N-95. Com o grande aumento do número de casos, todos os pacientes passaram a ser suspeitos, mesmo os assintomáticos, exigindo o uso de máscara cirúrgica pelos profissionais e pacientes. As máscaras N-95 são utilizadas apenas em procedimentos que geram aerossóis ou em unidades fechadas onde os pacientes com Covid-19 estão em ventilação mecânica. Outro grande desafio é a manutenção das práticas de higienização das mãos e dos ambientes, além do uso racional dos equipamentos de proteção individual (EPIs).


O Hospital Universitário Antônio Pedro está na linha de frente contra a Covid na cidade, inclusive com parcerias com a prefeitura. Em que mudou a rotina no hospital? E nas salas de aulas?


Diversas rotinas e fluxos do hospital foram modificados para o atendimento de pacientes com Covid-19 simultaneamente com pacientes não infectados. A Unidade de Terapia Intensiva passou a atender exclusivamente a pacientes com Covid-19, e só entram no setor os profissionais que atuam na assistência direta, para evitar a exposição de muitos. Isso também leva a uma sobrecarga de quem atua no setor, pois passa a acumular tarefas de outros profissionais, como coleta de sangue, fornecimento de alimentos, dentre outros. Pacientes que estão internados em enfermarias para outros tratamentos e apresentam sintomas gripais são transferidos para o Serviço de Infectologia, onde há quartos privativos, até que saia o resultado do exame confirmando ou não a doença. A higienização de ambientes e equipamentos precisou ser intensificada. O tráfego de pessoas foi reduzido. Atendimentos como cirurgias e consultas não urgentes foram suspensas, com acompanhamento à distância dos pacientes. Na universidade, as aulas foram suspensas desde março, portanto o primeiro semestre letivo de 2020 nem iniciou. A partir de julho serão retomadas atividades remotas para alunos que estão finalizando os cursos. Mas os estágios e as atividades presenciais ainda estão suspensas. E quando forem retomadas, não poderão ser no padrão anterior, onde se tinha 40 a 50 alunos em uma sala de aula. A retomada das atividades de ensino no “novo normal” está sendo planejada, sendo necessária uma readequação com novas estratégias de ensino, visando à manutenção da qualidade da formação profissional. Neste momento, toda a comunidade acadêmica está envolvida na discussão e no planejamento do retorno das atividades, que deverá acontecer em diversas fases, sendo a primeira a de atividades remotas.


Os profissionais de saúde no Brasil estavam preparados para um crise sanitária como esta? E os de Niterói, em especial, já que a cidade tem uma das maiores proporções de profissionais de saúde por habitante do país?


Não, não estavam. Tampouco o sistema público de saúde, que já sofria com a escassez de leitos, especialmente em unidades de terapia intensiva. Este panorama se reflete no alto número de mortos que temos no país. Em Niterói não tivemos um colapso nos serviços de saúde, embora haja uma sobrecarga. Penso que as medidas de distanciamento social adotadas, bem como a adesão da população, contribuíram para o achatamento da curva de transmissão da doença, possibilitando que o sistema de saúde público e privado absorvesse os doentes com necessidade de cuidados hospitalares. Também tivemos um aumento do número de leitos no município. Destaco a importância de terem sido planejadas e executadas ações integradas do município com a Universidade Federal Fluminense e com outras entidades, como a Fiocruz, e articuladas com ações sociais que são importantes para garantir a sustentação das pessoas neste momento de crise.


Dados da prefeitura mostram que em apenas dois dias, na semana passada, Niterói confirmou mais 413 casos de Covid, com oito mortos. Uma morte a cada seis horas na cidade. Estava mesmo na hora de flexibilizar o isolamento social?


Não concordo com a flexibilização do isolamento social neste momento, pois embora estejam diminuindo os números de internação, ainda temos uma mortalidade relativamente alta. Já tivemos outros países e mesmo municípios que iniciaram a flexibilização e tiveram que voltar atrás devido ao aumento do número de casos após o afrouxamento das medidas. Essas experiências poderiam ter servido para nos mostrar que ainda é um momento de cautela.


Quais podem ser as consequências dessa flexibilização para a evolução da pandemia? E para a situação dos hospitais públicos e dos profissionais de saúde?


Como a Covid-19 é uma doença nova, a maior parte da população não tem imunidade. Então, ainda temos muitas pessoas suscetíveis. Só teremos segurança quando mais de 50% da população tiver imunidade para a doença, pois assim a transmissão é freada. A tendência (com a flexibilização do isolamento) será o aumento do número de casos e a sobrecarga do sistema de saúde. Quanto aos profissionais, estes também adoecem e têm que ficar afastados, e a reposição é difícil, pois não se formam profissionais do dia para a noite. Mas já temos um número significativo de profissionais que tiveram a doença e já voltaram às atividades, apesar de ainda não termos dados estatísticos publicados.


A prefeitura estuda reabrir, ainda que parcialmente, os shoppings até semana que vem. É seguro fazer isso com o número de casos crescendo e o número de óbitos e internações ainda tão alto? Na última semana epidemiológica, foram 24 mortes. Foi a terceira pior semana, ficando atrás apenas de Semana Santa (28/6) e da primeira semana de junho (26/6). Ainda há muitas pessoas internadas. É seguro, do ponto de vista científico, começar a reabrir e flexibilizar o isolamento social?


Os dados falam por si. Contra fatos não há argumentos. Penso que existe uma pressão muito grande para o retorno das atividades econômicas, que impede que a flexibilização ocorra com base em dados científicos. Não é seguro reabrir o comércio e aumentar o fluxo de pessoas nos transportes públicos neste momento, no meu ponto de vista. Temos que considerar também a sazonalidade. Sabemos que os vírus respiratórios se disseminam no inverno, com ambientes mais fechados e menos ventilados. Este retorno acontecerá numa estação que não é propícia. Provavelmente teremos um recuo nas medidas, mas quantos terão se contaminado? A resposta será dada com o tempo.


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