Especialista recomenda mais restrições no acesso a Niterói na pandemia

Comitê da crise avalia que flexibilização não provocou aumento de casos, mas recomenda maior rigor no transporte público


Por Carolina Ribeiro


Guardas municipais medem a temperatura de passageiros na entrada da estação das barcas e em ônibus. Fotos: Divulgação/Prefeitura


Devido à flexibilização do isolamento social em todo o estado, aumentou o fluxo de pessoas circulando de outras cidades para Niterói e daqui para outros municípios novamente. Esta retomada, aliada à alta transmissão do vírus em outros municípios do estado, vem preocupando o Comitê Técnico Científico Consultivo que auxilia a prefeitura no Plano de Transição Para o Novo Normal. A recomendação, segundo o professor Aluísio Gomes da Silva Junior, diretor do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFF e membro do Comitê, é para que haja um endurecimento no controle de acesso de transportes à cidade, especialmente ônibus e barcas. Atualmente é feita a medição de temperatura, mas não há restrição de entrada.

- Niterói não está livre de uma nova onda [de contaminação]. Isso tem acontecido no mundo inteiro. Lugares que estavam tranquilos ao redor do mundo voltaram a ter ondas de contaminação. É muito importante manter o isolamento social, irem pouco às ruas, usarem máscara e cumprirem as medidas de higiene - reforça o especialista, completando que a responsabilidade individual e coletiva é imprescindível.

- Se todo mundo resolver fazer que nem no Leblon (Os bares ficaram lotados no bairro da Zona Sul do Rio nos primeiros dias após a reabertura), ir para rua como se não houvesse amanhã, é claro que o número de casos em Niterói vai explodir… - compara o professor Aluísio.

Durante o pico da pandemia em Niterói, nos meses de abril e maio, e também em parte de junho, só podiam entrar nas barcas de Niterói, em direção ao Rio, profissionais de áreas consideradas essenciais. Já os ônibus intermunicipais estavam com restrição altíssima. Atualmente, devido a medidas de flexibilização do estado e de Niterói, qualquer um pode entrar e sair da cidade, pelo mar ou por terra. A diferença é que há guardas municipais medindo, em alguns momentos, passageiros de ônibus e de barcas.

- O fluxo de pessoas [entre as cidades do entorno] é muito alto. A gente tem recomendado ao município para endurecer as medidas de controle no transporte, tanto nas barcas como nos ônibus, porque está um pouco ‘solto’. É uma medida insuficiente, tem que ser feito com mais intensidade - opinou.

Até esta segunda-feira, Niterói tinha 6.057 casos confirmados de Covid-19 e 223 óbitos, 106 doentes hospitalizados e 435 se tratando em isolamento domiciliar.

Apesar de a semana passada ter sido a segunda pior semana epidemiológica, em termos de divulgação e confirmação de casos, desde o início da pandemia o professor Aluísio acredita que ainda não há um reflexo da flexibilização do isolamento. Isso porque é preciso analisar a data do início dos sintomas, não apenas a de notificação.

- Ainda não identificamos reflexos da flexibilização em Niterói e estamos esperando que não aconteça. Havia uma expectativa das pessoas de que, após a flexibilização, fosse disparar o número em Niterói, mas isso não aconteceu. Também não significa que não vai acontecer daqui para a frente - adianta, lembrando que a demora na notificação dos casos pode distorcer a curva de transmissão da doença.

- Niterói está testando mais, isso tem um impacto direto no número de casos. Esses casos não estão acontecendo nas datas em que estão sendo notificados. Às vezes, levam dois, três dias para serem notificados. A informação/notificação distorce a curva - explica.

A cidade é uma das que mais fazem testagem de Covid-19 no Brasil. Só de testes rápidos já foram feitos 42 mil dos 50 mil adquiridos pela prefeitura, fora os exames feitos em hospitais e laboratórios particulares. No entanto, a prefeitura divulga apenas os números absolutos e não mais a curva de casos, como fazia no início da pandemia.

- Para quem está acompanhando a curva, Niterói está em um platô, não tem um aumento de casos. O fato de empilhar (somar) os casos, dá a impressão de que são muitos. Mas é preciso acompanhar a curva com o número de casos por dia, os dias de início de sintoma e não da data de notificação - reforça o professor.

Mas isso não significa que flexibilizar foi um erro, segundo o especialista. Pelo contrário. Niterói, na visão dele, era um dos poucos municípios do Estado do Rio que poderia aderir a um plano de flexibilização. Mas ainda é preciso cuidado devido ao entorno da cidade.

- Niterói não é uma ilha, então ainda é muito arriscado flexibilizar, tem que ser feito com muita calma, observando semana a semana, dia a dia, e acredito que Niterói tem feito isso - finalizou.

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