Especialistas advertem: não é hora de flexibilizar, mas de fazer lockdown de verdade

'Ocupação de leitos em torno de 90% é um indicador que deveria implicar lockdown', diz professora da UFF


Por Livia Figueiredo

O sanitarista da Fiocruz, Christovam Barcellos / Foto: Reprodução


A flexibilização de medidas de isolamento social, ainda que de forma gradual, é motivo de preocupação para especialistas de saúde. Epidemiologistas, sanitaristas e professores da área explicam: a redução das restrições chega em um momento de grave crise sanitária e superlotação dos leitos hospitalares. Em Niterói, a taxa de ocupação dos leitos de UTI Covid já está em 90%. No Rio, o cenário é ainda pior, chegando a aproximadamente 95%, segundo dados da Associação de Hospitais do Rio de Janeiro (AHERJ).


Com a retomada gradual das atividades comerciais, especialistas demonstram preocupação devido à falta de controle da pandemia. Nesta quinta-feira, 8 de abril, restaurantes, lanchonetes e padarias foram reabertas em Niterói. No Rio, nesta sexta (9), bares, restaurantes, serviços e comércio não essenciais já estão autorizados a reabrir, depois de duas semanas fechados devido à pandemia de Covid-19. Também já podem reabrir espaços culturais e estabelecimentos de lazer.


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De acordo com a professora de Graduação e Pós-Graduação de Medicina da UFF, Sandra Fonseca, a recomendação do seu departamento, o de Epidemiologia e Bioestatística, é de manutenção das medidas restritivas. Sandra possui especialização na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Epidemiologia e já atuou nas áreas de Vigilância Epidemiológica, Sistemas de Informação em Saúde e Revisão Sistemática.


- A ocupação de leitos em torno de 90% tanto em unidades públicas como privadas é um indicador, que, mesmo isolado, deveria implicar “lockdown”. E o número de óbitos, considerando o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), continua elevado. Em 2020, morreram 5978 residentes de Niterói, um excesso de mortalidade de 26% em relação à média dos três anos anteriores. Dos 5978, 1216 tiveram como causa básica COVID-19. Nos 3 primeiros meses de 2021, já atingimos 447 óbitos pela doença.


Sandra ainda sublinha que o movimento deveria ser nacional e que Niterói poderia dar o exemplo. Ela ressalta que a Associação Brasileira de Saúde Coletiva realizou um seminário na última quarta-feira e a recomendação, com base nos dados e evidências científicas, é de que seria necessário um “lockdown” bem sério e organizado, por pelo menos 21 dias.


- Existe no momento no país uma sincronicidade – todos os locais com aumento de casos e/ou limite máximo de ocupação hospitalar. É difícil equilibrar medidas restritivas e consequências econômicas, mas há propostas de economistas sérios no país. Analisando os óbitos de Niterói, depois de aposentados e donas de casa (cuja faixa etária é uma das mais elevadas), a categoria ocupacional isolada com mais óbitos em 2020 foi a de comerciante varejista, com 47 óbitos. Vale a pena reabrir o comércio? - questiona.


Quanto à alta das internações, Sandra diz que a flexibilização e as variantes do vírus podem ser as principais responsáveis. Apesar de se falar da incidência maior em jovens, ela afirma que os dados das internações e óbitos de Niterói ainda não mostram esta tendência de forma significativa.


Já em relação aos avanços até o momento, ela acredita que os principais sejam o da elaboração e produção em tempo recorde de vacinas bastante eficazes e seguras, atualmente a única abordagem comprovada contra a doença. Outra conquista que ela destaca, essa ainda em andamento, é a identificação de novas variantes e de sua resposta às vacinas.


Padronização de medidas restritivas


O sanitarista da Fiocruz, Christovam Barcellos, membro do Observatório Covid-19, alerta para a importância de medidas restritivas padronizadas, como vêm ocorrendo nas prefeituras do Rio, Niterói e Maricá. Ele diz que seria importante que outros lugares da região metropolitana do Rio também uniformizassem as medidas.


- Depois de duas semanas confinados pode haver uma explosão de pessoas frequentando bares e restaurantes. Mas, nesse caso, entra o papel da fiscalização. Os donos de restaurantes e bares precisam se adaptar a essa nova situação e isso pode atrair usuários e clientes. Por outro lado, é importante lembrar também dos famosos negacionistas que podem ter um comportamento completamente irresponsável, como fazer festas dentro de bares. Todo cuidado é pouco e é fundamental neste momento aumentar a flexibilização - destacou.


Ele diz que a discussão é sobre como se deve abrir neste momento. O ideal é que a população procure restaurantes a céu aberto e seguindo todos os protocolos das autoridades de saúde, com mesas de no máximo 4 pessoas e que, de alguma maneira, já convivem entre si no dia a dia. “As mesas devem ser posicionadas distantes uma das outras e em lugares com ventilação", acrescenta.


“É terrível a gente usar apenas o indicador de ocupação de hospital para tomar alguma decisão”


O sanitarista relembra que o resultado do período de restrições adotado por 15 dias é gradual. Primeiro, há uma redução do número de infecções, ou seja, das pessoas que contraíram o vírus, depois deve-se diminuir o número de casos e, só assim, o de internações e óbitos.


- A curva não corresponde exatamente à mesma época do decreto das medidas de restrição. De qualquer modo, é muito perigoso adotar esse tipo de medida, como essa reabertura do Rio, num momento em que hospitais permanecem lotados, porque existe fila para internação. Isso deveria ser levado em consideração. Só teremos um alívio quando essa fila diminuir drasticamente ou zerar. É terrível a gente usar apenas o indicador de ocupação de hospital para tomar alguma decisão. A gente deveria ter um indicador mais rápido e eficaz para acompanhar a evolução da pandemia – destaca.


“Flexibilização deve ser a mínima possível”


O especialista reforça a importância de que a população use máscara e evite aglomeração, do reforço do sistema de saúde e, claro, do estímulo à vacina. Membro do Grupo de Trabalho de Covid da UFF, Aluísio Gomes, professor do Departamento de Planejamento e Saúde e pesquisador do Instituto de Saúde Coletiva, reitera que a situação é grave e que não é o momento de flexibilizar. Ele diz que as vacinas continuam chegando em levas insuficientes para a intensificação e cobertura das populações mais vulneráveis.


- A flexibilização deve ser mínima, pois a situação de agravamento da pandemia e a sobrecarga dos hospitais não recomendam flexibilizações. É difícil estabelecer a duração enquanto a vacinação não for intensificada. As duas medidas são complementares – destaca.


Maricá também flexibiliza


O município de Maricá, vizinho a Niterói, também afrouxou as medidas de isolamento social, e reabriu, nesta sexta-feira (9), parte das atividades econômicas que estavam suspensas devido ao agravamento da pandemia. A partir de agora, comércio não essencial, salões de beleza, igrejas, bares, restaurantes e academias podem voltar a funcionar, mas com restrições. Praias seguem fechadas, assim como em Niterói e no Rio.


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