Orçada em R$ 4 milhões, obra em Piratininga é questionada por especialistas

Prefeitura de Niterói pretende reconstruir o calçadão mais uma vez; estrutura já foi destruída por inúmeras ressacas e problema dura décadas


Por Gabriel Gontijo

Projeção de como a orla deve ficar após a obra. Foto: Divulgação/Prefeitura de Niterói


Após o anúncio de mais uma obra na orla de Piratininga, há quem questione o que efetivamente pode ser feito para resolver um problema crônico que já dura décadas. Com previsão de início em abril, a obra é orçada em R$ 4 milhões e será feita pela empresa Rivall Engenharia Ltda., vencedora da licitação feita pela Prefeitura de Niterói.


A reforma será realizada no trecho entre as ruas Jornalista Umbelino Silva e João Gomes da Silva, totalizando uma extensão de 300 metros. Nesta área também será construído um muro de contenção com a utilização de pilastras hélice, que oferecem maior segurança, até que seja feita a reposição do estoque de areia da praia.


Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFF, Werther Holzer explica que, na opinião dele, há um problema crônico na área "que se deve ao modo como a faixa de restinga da Praia de Piratininga foi parcelada e ocupada, e depois redesenhada" nos anos 70. E é aí que pode estar a origem do problema.


- Projetos como esse implantaram a clássica avenida litorânea sobre a faixa de restinga vegetada que protege o litoral do do impacto das ondas e define o formato e a estabilidade do arco da praia. Ou seja, esta concepção urbanística de implantar uma avenida litorânea na faixa costeira e a utilizar como substituto da vegetação de restinga para delimitar a linha do litoral é ambientalmente incorreta e causa impactos ambientais de difícil reversão - explica Holzer.


O biólogo marinho e professor das Faculdades Integradas Maria Thereza, Turíbio Tinoco, concorda que o erro existe desde a origem da obra, nos anos 80. Ele explica que a restinga que existia na época, destruída para a construção do calçadão, tinha a função de proteger o cordão arenoso da praia. Ele explica que o ideal seria pensar qualquer projeto a partir do reflorestamento da área.


- O ideal seria primeiramente reflorestar a restinga, porque ela é que protegia o cordão arenoso da praia. A partir disso, o mais adequado seria remodelar a área de forma que essa parte verde reflorestada segurasse os impactos das ondas do mar, pois essa é a função dela. Uma outra opção seria reduzir os acessos de banhistas à praia, que foi o que aconteceu em Itacoatiara. Deixar a área dos quiosques destinadas a quem quer frequentar o local e suprimir os outros acessos, eliminando a maioria das entradas que existem atualmente - conta Tinoco.


Nesse sentido, Holzer recorda um estudo feito em 2007 pela então formanda em arquitetura Lívia Araújo Rosa Oliva chamado "Projeto Orla de Piratininga, Niterói - RJ". Atuando como orientador da aluna à época, ele explica que a monografia apresentava "uma solução duradoura para resolver o problema": a redução da faixa destinada a passeios e a transformação da via principal em uma pista simples.


- O estudo apresentava uma solução viável, que era a redução da faixa ocupada pelos passeios e pelas duas faixas de avenida, que seriam reduzidas a uma pista simples, com duas faixas de rolamento, sem estacionamento e com passeio com largura máxima de dois metros. Neste caso se restituiria à praia uma faixa variando entre 15 e 20 metros que seria recomposta com vegetação nativa de restinga. Acredito que esta medida mitigaria significativamente os efeitos das ressacas permitindo uma eventual recomposição de danos com pouco dispêndio de recursos e extremamente ágil, sem a necessidade de grandes obras de engenharia - detalha o professor.


Mudanças nas técnicas de contenção podem não ser suficientes para resolver o problema em definitivo


A coordenadora do Programa Região Oceânica Sustentável (PRO Sustentável), Dionê Castro, explica que a Prefeitura de Niterói, através do PRO Sustentável, realizou os estudos relacionados à dinâmica costeira, com ênfase na solução estrutural para conter os fenômenos que causam a erosão da praia e frequentes eventos de desabamento do calçadão da Praia de Piratininga durante as ressacas.


- Foram estes estudos, já apresentados e discutidos com os cidadãos interessados, que indicaram a reposição do estoque de areia da praia como a melhor solução e embasaram os projetos de engenharia do muro de contenção neste trecho. Em função dos fenômenos de marés e ressacas de forte magnitude que atuam no local, foram identificadas estruturas existentes de contenção em concreto armado junto à orla da praia que se encontram danificadas e rompidas. Com isso, realizamos a licitação para contratação da empresa para elaboração do projeto executivo e execução das obras de recuperação do calçadão - explica Dionê.


Citando que "exemplos bem sucedidos para a contenção de ressacas usualmente se utilizam de enrocamento e tem como consequência a 'destruição' paisagística da praia que sofreu a intervenção", Holzer é enfático ao afirmar que a solução definitiva para o problema "não será resolvido com a mudança nas técnicas construtivas utilizadas para a contenção". E ainda acrescenta que "só o tempo dirá" se a decisão da Prefeitura em fazer a reforma do jeito como foi anunciado será algo acertado ou não.


Já Tinoco fala que já viu "obras de engenharia eficazes" para o controle da ressaca, mas saliente que é necessário que seja "uma reforma boa. Pois como a força do mar é muito grande, em quatro ou cinco anos vai cair tudo de novo". Por isso, ele enfatiza que qualquer obra precisa colocar como prioritário a revitalização da restinga dentro desse planejamento.


O projeto inclui, ainda, o paisagismo nas áreas do calçadão a ser reconstruído, além da construção de mais um posto salva-vidas, que seguirá os moldes dos que já existem na Praia de Piratininga.